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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Topas ficar comigo?

By On 15:08


Vou logo lhe dizendo, não sou uma pessoa fácil.
Então, se quiser ficar comigo, é bom saber logo quem sou:
Meu nome é ...
Tenho a idade certa para te fazer feliz.
Minha altura é suficiente para você não se perder.
A cor da minha pele insinua o mais puro pecado.
Não sou ligado (a) em academias.
Na medida do possível, meu corpo está sempre em forma.
Cuido da minha aparência. Estou sempre apresentável.
Porém, isso é o que menos importa para mim.
Uma boa conversa, charme e inteligência contam bem mais.
Como caráter, honestidade e tolerância também me conquistam rapidinho.
Não resisto a um sorriso maroto ou aquele olhar que te diz muito sem nenhuma palavra.
Estou aberto ao namoro.
A trocar carinhos.
Amar e ser amado.
Mas, odeio ser controlado.
Não quero alguém vigiando todos os meus passos.
Gosto da minha liberdade e prefiro continuar prezando por ela.
Então, nada de ficar me ligando de cinco em cinco minutos para saber onde estou.
Nada de ficar me rastreando através dos meus amigos.
Nada de cobranças desmedidas.
Nada do tipo: “onde você estava? ”
Nada disso!
Se quiser ficar comigo, vai ter que confiar em mim.
E aceitar meu modo de vida.
Minha família, amigos, colegas de trabalho/escola, bichos de estimação...
Também não gosto de ciúmes sem motivo.
Essa coisa de não puder olhar pro lado, sem que não haja uma repreensão.
Isso não rola comigo.
O fato de eu olhar em todas as direções, não significa que estou te traindo.
Para trair, eu posso estar até de olho fechado ;)
Não venha com essa história de perseguição.
Rastrear meu telefone ou ficar cutucando ele na minha ausência.
Não preciso dizer que não te darei a senha das minhas redes sociais.
Lembre-se: eu escolhi ficar com você e não viver para você.
Namorar não retirou de mim o direito de eu ser Myself.
E de fazer as minhas coisas mais pessoais.
Quando não estou com você, possivelmente estou com meus amigos.
Então, nada de implicar com eles.
Nem muitos menos deixar de falar com alguns deles por causa de você.
Espero que você não cogite essa possibilidade.
Se escolhi a sua companhia, foi para namorar, não para me amarrar.
Falo com quem quiser e espero não ter problema quanto a isso.
Se você é aquele tipo de pessoa grudenta, pegajosa, possessiva, dominadora...
Não faz meu tipo!
Como também não curto alguém distante, inexpressivo, não participativo...
Relacionamento precisa de doses cavalares de bom senso, se não enjoa e vira rotina.
Gosto de fazer coisas novas, inusitadas, mas nem sempre compreendidas.
Logo, não se choque se de um dia para outro eu resolver fazer uma loucura.
Como deixar de trabalhar com advocacia e se entregar a uma Ong.
Esse sou eu.
Sou do tipo de trocar água por vinho, mesmo sem ser semana santa.
Prefiro a aventura de viver do que a desventura de não me permitir ser quem sou.
Então, se quiser viver comigo, é melhor pensar duas vezes e ser tolerante.
Não suporto intolerância!
Gente ignorante, então nem pensar.
Se quiser namorar comigo, tem que vir de mente aberta.
Permitir será a palavra de ordem do nosso namoro.
Se possível, evite barracos.
Sou chato quando alguém grita comigo sem motivo.
Então, se eu lhe fizer algo errado, não vai ser discutindo que vamos resolver.
Dialogar é sempre o mais sensato em qualquer relação.
Já digo logo que não namoro com pessoas inseguras.
Que não sabem o quer para si.
A insegurança cria relações instáveis entre as pessoas.
Fale que gosta, quer, precisa, deseja, compra, paga, odeia... sem meio termo.
Não vou me importar com quem paga a conta da mesa do jantar.
Desde que sempre haja um rodízio entre nós nesse sentido.
Odeio pessoas usurpadoras.
Não tente me ganhar com elogios ou bajulações.
Para me conquistar, basta usar a criatividade.
Muitas vezes, nem precisa falar.
As atitudes valem bem mais que muitas horas de conversa.
Seja original, sem forçar barra, ou parecer ser alguém que não é.
A autenticidade mantém a sinceridade nas relações.
Sincero eu sempre serei, e é bom você saber logo disso.
Direi tudo o que penso sobre nós, sobretudo nos momentos mais difíceis.
E espero contar com a mesma sinceridade do outro lado.
Nenhuma relação perdura com mentiras, ou meias verdades.
Mentir? Essa palavra não pode existir entre nós.
Há, quase ia esquecendo.
Nosso sexo não cairá no cotidiano.
Se depender de mim, faremos amor das melhores formas e nos lugares mais improváveis.
Na cama, na lama ou numa casinha de sapê, como diz a canção.
Não vale indisposição sem motivo, nem desculpas esfarrapadas para desanimar esse momento.
É o sexo que mantém vivo o fogo das paixões que queima em cada relação humana.
Por isso, nada de esfriar essa chama.
Sei que sou intransigente e meio mandão, mas estou tentando mudar isso em mim.
Por favor, seja paciente comigo. Também serei com você.
Sou de opostos.
Se você prefere água, eu vou de fogo.
Se você é inverno, eu sou mais no verão.
Entre refrigerante e cerveja, eu fico com o segundo.
Amo a noite, mas posso fazer um esforço para gostar do dia.
Adoro uma balada, mas também amo estar casa bem agarradinho com um livro.
Gosto de salgados, porém não troco uma boa sobremesa por nada.
Adoro comer bem. Melhor ainda se estiver em sua companhia.
Por estar com você, vou gostar de participar da sua vida.
Mas sem invadir seu espaço.
Serei a companhia ideal para ir ao cinema, praia, mesa de bar...
Ou para os momentos mais tristes de nossas vidas, como a perda de um ente querido.
Partilharei de alegrias e tristezas contigo.
Serei amante, amigo, companheiro, conselheiro...
Romantismo é um dos meus fortes.
Sou intenso, verdadeiro, uma explosão de sentimentos.
Muitos deles, você só descobrirá na prática.
Não se assuste se eu te beijar todos os dias como se fosse a primeira vez.
Nem se o sexo for mais ardente a cada dia.
É que quando gosto é pra valer e não consigo disfarçar.
Não economizo paixão quando me apego de verdade a alguém.
Entrego o meu mais puro eu para o outro.
Nada de limitar o desejo.
Esse é o meu jeito de namorar.
Tem mais coisas ao meu respeito que prefiro não contar.
Você vai descobrir assim que chegar em minha vida.
Até lá, deixo aqui esse pouco do muito que sou.
Não me defini por completo, porque isso limita todas as minhas outras faces.
Sou bem mais que tudo isso.
Sou a pessoa que vai te fazer feliz a partir do primeiro beijo.
Meu amor é capaz de modificar vidas.
Assim como espero que você mude a minha com seus lábios.
Traga na bagagem as armas para transformar a nossa relação.
Que eu já estou armado até os dentes.
Não curto jogos, mas posso cair na jogada da conquista e lançar as minhas cartas a mesa.
Mas, preciso saber se você está disposto a jogá-las comigo.
Se for bom jogador, espero ser derrotado no primeiro beijo.
O prêmio para quem vencer será dar ao outro muito mais amor.
Assim, ninguém sairá perdendo.


E ai, topas ficar comigo?

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Beyoncé, não pode tocar!

By On 13:51


Martha Medeiros é um famosa cronista brasileira. De todos os seus escritos, a crônica chamada “Não Pode Tocar” parece a mais adequada à discussão a seguir. O texto fala da dificuldade que se tem de tratar de determinados temas, sem a proteção assegurada pelo reducionismo eufêmico, do qual muitas questões acabam não sendo devidamente problematizadas. Nele, dentre muitas passagens, destaca-se: “Não tocarei pra não estragar, pra não quebrar, pra durar por muitos séculos”. Essa é, sem dúvidas, a mais apropriada para a ocasião envolvendo a polêmica música da diva Pop americana Beyoncé, Formation. Num claro discurso pró racial, a canção evidencia outro trecho da crônica de Medeiros “Não se pode tocar no sagrado de cada um”. Essa violação foi realizada pela cantora ao trazer à ribalta o racismo que vitima seus condescendentes americanos, e que resultou em uma repercussão negativa ao redor do mundo contra a cantora, num contexto em que artistas negros, ou integrantes de outras minorias, dificilmente se manifestam politicamente em prol dos seus grupos, de forma tão escancarada como foi feito por ela. Mesmo que tardiamente, a posição de Beyoncé resgata conflitos sociais ligados a alteridade, bem como a constatação de que o racismo está longe de ser superado.

Em primeira estância, é preciso destacar a falta de posicionamento que há em torno das temáticas minoritárias: negros, mulheres, gays, índios, deficientes físicos, etc., não veem suas pautas sendo devidamente representadas pela grande mídia internacional. Parece haver um acordo tácito, silencioso e corruptivo, entre diversas esferas sociais, que não mergulham nas águas abissais do descaso, para resgatar esses grupos da latente negligência a que foram submetidos, e que os leva à morte. Quando alguém decide se colocar para reverter tais realidades, vem ao jugo popular o rótulo de subversivo, adjetificação que por si só denota um perigo para a sociedade, sobretudo quando esta é despolitizada e desmilitarizada. Coube a Beyoncé tal emblema, visto que, para muitos, ela transgrediu o intocado, o que na crônica de Medeiros não se podia macular. Beyoncé não apenas maculou, como também pintou de preto, literalmente falando, a visão daqueles que fingiam não acreditar na sobrevivência do racismo americano no mundo, mesmo tendo diversos ícones importantes mundiais, inclusive a própria cantora, visivelmente negros. Para estes, o talento, a performance, a criatividade, a pirotecnia, tudo era válido desde que o artista ali presente não se considerasse minoria, levantando bandeiras das quais debates fossem inevitavelmente iniciados.

É como se dissessem assim: “eu gosto do seu trabalho, mas não quero saber de suas demandas”. Ora, os fãs alucinados, que discutem nas redes sociais acerca de quem é a melhor diva pop do momento, os quais endeusavam principalmente a figura de Beyoncé, não deveriam ter ficados contra a cantora. Isto porque, quem de fato admira o trabalho de determinado artista, é porque se identifica com suas causas, vestindo-as como mantos sagrados a serem perpetrados pela sociedade. Quando isso não ocorre, é provável que o modismo hipnótico da indústria cultural tenha levado legiões de pseudos fãs a adorarem um ídolo sem nem sequer conhecer suas lutas pessoais e origens. Os amantes de Beyoncé, que não são tão fissurados na cantora como dizem, parecem corroborar para esse fato. Por essa razão Formation sacode as convicções em torno do negro, de que como ele é, vive e sobrevive numa sociedade que o excluí deliberadamente. No vídeo, ancestralidade, repressão policial, legado, reivindicações, lutas, religião, violência e esquecimento se fundem para protestar contra o mundo que prefere acreditar numa diva talentosa branca, no caso aloirada, do que encarar os fatos de que a cantora mais popular da atualidade ser negra. Da mesma forma que os saudosos Mickael Jackson e Whitney Houston também o foram e deixaram os seus respectivos legados.

É inegável a jogada de marketing em torno de toda essa polêmica, uma vez que é sabido que a indústria do entretenimento sobrevive de polêmicas para manter artistas em evidência. Embora seja impossível confirmar tal suposição, isso não deslegitima a sua importância para a questão do emponderamento negro da sociedade, sobretudo na brasileira, onde falar de racismo, suas implicações e lacunas sociais, ainda é um tema nebuloso. Por isso, quando um artista do porte de Beyoncé trata com alteridade essa temática, ela nos repassa a seguinte mensagem: “Ei, você? Você que sempre curtiu minhas músicas. Você que adora a minha voz. Repete as minhas coreografias em casa. Você que copiou o meu penteado. Gostou das roupas que uso. Você que me viu em preto e branco cantando “Single Ladies”, ou cinzenta em “Halo”. Você sabia que eu sou negra?” E outra pergunta se impõe após isso: o que mais importa para a sociedade é ter alguém talentoso e com potencial para fazer uma carreira brilhante ou saber qual é a casta social desfavorecida que esse artista faz parte, defende ou pretende defender, e se isso interfere negativamente na qualidade de sua arte? Na crônica de Martha Medeiros, há outra frase pertinente a esse contexto: “É proibido tocar no sagrado de cada um”.

Porém, Beyoncé preferiu cometer o sacrilégio de tocar no proibido. A subversão aqui foi deixar claro para todo o planeta a necessidade de se enxergar a minoria dentro de si e no outrem também. O sentimento de alteridade que falta em muitos na sociedade, americana e brasileira. Por essa razão, Formation toca na necessidade das pessoas de se enxergarem como negros, independentemente da cor ou textura do cabelo, de classe social ou religião, já que há negros que não se veem parte integrantes desse nicho. Se isso veio à tona, é porque infelizmente há lacunas a serem preenchidas por uma sociedade claramente embranquecida pela mídia e, principalmente, pela indústria da moda. Além disso, o negro não encontra espaço para difundir sua ancestralidade religiosa, sem que não haja alguém disposto a caracterizar seus cultos afrodescendentes como satânicos. A demonização de suas tradições serve mais uma vez para obscurecer a presença desse grupo na sociedade. Tolera-se, apenas, aquele negro adequado ao sistema vigente, que não invade espaços já delimitados pela soberania branca, a qual mesmo silenciosa, dita suas regras. O que Beyoncé fez, semelhante a tantos outros negros, foi cruzar a linha amarela, aquela que proibia o avanço da comunicação, do diálogo para lá de pertinente sobre quem é privilegiado socialmente e quem não é. Aliás, discussão deveras adiada, pois não há um esforço coletivo para entender a realidade do negro no mundo.

Baseado nisso, a música em voga incomodou muita gente, porque não economizou discurso para retratar algo que já era conhecido por muitos, o racismo. Preconceito que excluí, escraviza e mata, mesmo após as leis abolicionistas terem sido sancionadas ao redor do globo. A canção de Beyoncé foi criticada por autoridades americanas, por atacar claramente a polícia de lá; fãs deixaram de ser fãs após a divulgação do vídeo clipe Formation; essas entre outras censuras foram direcionadas a tal artista apenas porque ela usou sua imagem para fazer um levante, mais que emergencial, a favor de um grupo aplaudido pela sua arte, porém vaiado, ou no caso dela boicotado, todas as vezes que a sua cor, herança e tradições são violados. Esse antagonismo evidente só ressurge quando a defesa do ponto de vista é clara, contundente e irrefutável. Porém, nem todos os artistas/celebridades utilizam da sua imagem em prol de lutas como essas, temendo perderem os créditos conquistados ao longo de suas carreiras. O nosso internacionalmente famoso Neymar é um exemplo disso. Recentemente, o jogador afirmou que não se considerava negro e, por isso, talvez acredite ser imune aos preconceitos que vitimizam tal grupo. Pelé, outra celebridade da bola, também fez um discurso semelhante anos atrás, porém, em ambos a repercussão negativa não chegou nem de longe ao que Beyoncé vem sofrendo.

Esse é um dos lados perversos do racismo: introjetar a ideia de que não se autodenominar negro vai minimizar o preconceito entre as pessoas. É a tentativa mais ingênua daqueles que, entre lutar pelas causas de um movimento, preferem a falsa ideia de que não fazer parte dele. Essa ausência de senso militante não se restringe ao segmento negro. Muitas mulheres, eivadas de um machismo social, atacam outras vítimas da cultura do estupro, do raso debate entorno do aborto ou da postura sexual de mulheres mais resolvidas. Muitos gays, pressionados pelo mesmo machismo, preferem segregar outros homossexuais mais afeminados, travestis, transexuais, acreditando que o ideal é não parecer gay. Da mesma forma, há negros, e muitos, contrários às cotas raciais, geralmente repetindo as mesmas retóricas brancas sem uma análise aprofundada da condição negra na sociedade; são também preconceituosos com a religião/cultura/tradições desse grupo e, infelizmente, muitos nem se veem como negros, mesmo que estes sejam tão visivelmente afrodescendentes quanto Neymar e Pelé. A mensagem da música Formation trouxe a esse contexto a necessidade dos indivíduos se verem como minorias e nem por isso se anularem.

Foi o que Viola Davis, ao discursar no Emmy 2015, fez: não se anular diante do racismo, refletir sobre ele num espaço nitidamente segregacionista (Hollywood) e mesmo assim permanecer firme diante dos seus ideais. Além dela, Mather Luther King, Nelson Mandela, Harriet Tubman, Castro Alves, e agora Beyoncé, guardadas as devidas proporções, deram suas caras a tapa para a sociedade, ao dialogar a respeito desse tema, inquietando aqueles que praticam a política da boa vizinha, da qual o negro pode existir, só não pode se manifestar a favor dos seus direitos. Felizmente, há sempre alguém que resgata esse tema sempre que a problemática racial ressurge para deixar claro o quanto tal preconceito é latente no seio das relações sociais. Geralmente, ele se manifesta em ações contributivas ao senso comum do qual o negro é excluído, vitimado e marginalizado. Poucos são, e foram, as manifestações em prol de um levante, que alheio ao espetáculo da indústria de consumo, fosse capaz de capitular um debate maduro, producente, sobre as demandas vividas pelos negros. Talvez tenha sido essa a atitude da diva Pop Beyoncé: trazer à luz as cicatrizes negras, herdadas da escravidão, que são maquiadas pelo conformismo, pela conduta apolítica da sociedade, pela falta de conhecimento e reconhecimento de causa, ou ainda a ausência de um discurso de alteridade, este que possivelmente foi o elemento incendiário da polêmica envolta no descoberta cômica da cor daquela cantora.

“Todas as relações do mundo possuem sua prateleira de cristais”, enfatiza Martha Medeiros. Pelo visto, Beyoncé estilhaçou a dela ao servir de espelho para um grupo ainda esquecido, hostilizado, que vive à margem social, tendo toda a sua carga antropológica obscurecida por um sistema discriminatório quanto aqueles que devem ou não existir. A música dela mexeu com as raízes do preconceito desse tema, que parece superado, mas revive nas práticas sociais mais cotidianas. Por isso que alguns opositores classificaram a canção como de péssima qualidade, tanto na melodia e, sobretudo na letra. “Palavras incomodam o suficiente”, é uma das passagens da crônica de Medeiros. Certamente, o discurso de Formation se enquadra nisso, porque é mais fácil para quem discorda da música desqualificar a sua letra, do que analisar as metáforas dela e sua representatividade em uma porção social considerável nitidamente mal representada. E o incomodo resultou em mais debate, mais reflexão, mas também em muita mais preconceito, perseguição e, no caso de cantora, até boicote. Analisando tais polos, é inegável os pontos positivos em torno dessa polêmica, sobretudo a sátira feita na internet num vídeo bem extrovertido, mas crítico, do qual ironiza inteligentemente a descoberta do mundo, da real cor de Beyoncé. A cantora negra de cabelos loiros parece não se abalar com as críticas que recebeu. Isso é bom, pois não se deve titubear quando se defende um ideal. Pelo contrário, ideais precisam ser herdados, copiados, perpetuados, principalmente quando se referem a lutas justas, pendentes na história e aparentemente insolucionáveis.

”Beyoncé, não pode tocar nesse assunto!”. Essa também foi a mensagem implícita proferida por aqueles contrários ao discurso da música Formation. Porém, a diva americana ultrapassou a linha amarela, saiu da sua zona de conforto, ousou, transgrediu, subverteu, tudo isso numa era onde a minoria só é vista na invisibilidade. No período do conformismo tolerável, que determina a ordem das coisas, assim como a posição de todos nas camadas sociais, o permitível é não ser. Empreende-se disso todas aquelas pessoas anuladas pelo sistema, obrigadas a se adequar a realidade hegemônica da sociedade, para fazer parte desta sem muita barulho, uma vez que o emudecimento do indivíduo garante aos poderes supremos (mídia, política, religião, etc.) o controle sobre ele. Disso, entende-se que a mais nova polêmica racial jogou luz ao obscurantismo em torno desse tema, semelhante ao que aconteceu por aqui com personalidades brasileiras como Taís Araújo, Lázaro Ramos e a Apresentadora do Tempo, Maria Júlia Coutinho (Majú). A cada novo caso, embora aja muita boçalidade e falta de empatia, há grandes avanços para a formação de uma sociedade, que se não seja capaz de eliminar os próprios preconceitos, que pelo menos seja capaz de reconhecer a existência deles e encontre artifícios para corrigi-los. Em contrapartida, para que isso ocorra, novas personalidades devem copiar o exemplo de Beyoncé, Jean Willys, Doroth Stang, Chico Mendes, e dentre outros, anônimos e notáveis, os quais dedicam as suas vidas, direta ou indiretamente para violar o inviolável, transpor o intransponível, desconstruir para reconstruir uma sociedade onde todos possam enxergar sua existência e, a partir disso, a do outro.


“Só não vê o que o outro é, quando o que não se vê é aquilo que não se deseja para si”.

Eu não estou só por opção

By On 13:50

Eu querida estar namorando agora. Ter alguém para contar as coisas mais íntimas, que não podem ser ditas a amigos nem a familiares. Uma pessoa que me levasse para sair, ir ao cinema, ao parque, para jantar. Alguém que compartilhasse das minhas ideias, opiniões, visões de mundo. De vez em quando, poderia haver algumas briguinhas aqui, uma discussãozinha acolá, mas que ambos sentassem para conversar e encontrar no diálogo a solução do problema. Brigas seriam uma raridade perto dele. Um indivíduo compreensivo, educado, companheiro, de bom humor. Tem que ser bom de cama também. Claro, pois sem sexo, nada feito. Além de beijar bem, ter uma boa pegada. Não precisa ser intelectual, porém se for inteligente já é muita coisa. Amoroso, sensível, humano, respeitoso, carinhoso, afetuoso, dedicado, honesto, íntegro, charmoso, sensual... São requisitos para lá de especiais no currículo da conquista. Se ainda por cima ele for lindo, feito os galãs do cinema americano, aí é só alegria.

Infelizmente, o príncipe encantado está confinado aos contos de fadas. Da mesma forma que a mulher ideal não é mais aquela, que no passado, se resumia a cozinhar, cuidar da casa e dos filhos. As pessoas mudam, a sociedade muda, e com elas a forma de se relacionar. O que não muda ainda são os predicados exigidos por nós para ter alguém ao nosso lado. É uma lista enorme de qualidades humanamente impossíveis de serem encontradas numa só pessoa. Mesmo sendo improvável achar a perfeição no outro, nos iludimos com a ideia de que há um indivíduo perfeito a nossa espera, disposto a realizar as maiores loucuras para ficar do nosso lado. Esse engano leva ao desengano da solidão, em que cada vez mais pessoas estão sós, não por opção, mas por falta desta. Trocando em miúdos, vivemos numa busca incessante por algo que não existe e insistimos nessa busca por incontáveis tempos. Por isso que há pessoas entre vinte anos, trinta anos, ou mais, que nunca mergulharam de cabeça numa relação a dois, pois estão aguardando um milagre divino, que talvez jamais aconteça.

É evidente que esse fenômeno tem fundamento na atual sociedade do desapego. A ideia é não se ligar a nada nem a ninguém. Curtir, beijar, colar, ficar, transar, tudo momentaneamente sem se aventurar em algo mais sério. Essa vida doidivanas não é de um todo ruim. É preciso experienciar coisas ao longo da vida, principalmente no campo relacional. Entretanto, o que preocupa é a durabilidade de tudo isso. Pessoas que alcançam a maioridade e não se desvencilham de tal conduta, agindo como adolescentes fora de faixa. Não estou dizendo que os adultos têm a obrigação de se casarem por causa da idade. Estou analisando aqueles que, independente da faixa etária, nunca se entregaram ao deleite de se relacionar seriamente com alguém e, afirmam categoricamente que “estão sós por opção”. Essa afirmação falaciosa é o produto de uma cultura que veicula a ideia de que é melhor só do que mal acompanhado, usando músicas, filmes, livros, etc., para reproduzir uma arte bandoleira da qual o lema é “ninguém é de ninguém” e o que importa é gozar, biologicamente falando.

De fato, as pessoas não são propriedade das outras, de modo que são livres para se relacionar com quem quiserem e da forma que bem entenderem. O que me chama atenção disso tudo é que as mesmas pessoas que passam a vida experimentando bocas e corpos alheios, salvo raras exceções, estão na verdade em busca de alguém como morada, mas preferem o engano da transitoriedade para satisfazer um desejo momentâneo. Dessa experimentação desmedida surgem as doenças psíquicas, que tanto lotam as salas dos psicólogos e terapeutas modernos: insegurança, frustração, medo, vazio, solidão. Quando não doenças venéreas como a AIDS ou violências sexuais como o estupro. Mulheres engravidam de desconhecidos. Homens abortam essas mesmas mulheres e filhos. São recorrentes também os suicídios, crimes motivados por falta de amor próprio ou pela banalização das relações humanas, o que poderia ter sido evitado se aquele indivíduo infeliz tivesse se permitido estar com alguém.

Mesmo cientes disso, pessoas são levadas, acredito que inconscientemente, a renegar outras, as quais poderiam somar pontos positivos não só para ambos, mas para o andamento da sociedade como um todo. Casais heterossexuais são os mais livres para desfrutar das suas paixões, mas não aproveitam essa liberdade para construir relações maduras, sobretudo aqueles que já constituíram família com crianças. São namoros, noivados e casamentos arranjados ou por pura conveniência. Abusos, discussões desnecessárias e, por isso, falta de diálogo. Agressões mutuas, muitas vezes até física. Falta de entendimento na cama, o que resvala em traições, crimes e morte. Em casos menos trágicos, separação, brigas judiciais, filhos envolvidos em problemas que não lhe competem, ou ludibriados pela alienação parental. Esse panorama é mais comum do que se imagina e é responsável por diversas implicações sociais que ocorrem em diversos lares mundo afora. Nas relações homossexuais, além do preconceito protagonizado diariamente pela sociedade, há a imensa dificuldade dos gays em oficializarem em público suas relações sem sofrer retaliações por causa disso.

Em quanto do lado hétero é mais fácil se relacionar, mas em muitos casos a falta de maturidade de muitos leva a desastrosas relações, e do outro lado, o gay nem se quer consegue assumir publicamente seus relacionamentos amorosos sem serem repudiados por isso, surge as promiscuidades nas relações. O outro se torna um objeto consumível, descartável, usado para satisfazer uma carência que parece passageira, mas quando analisada mais profundamente, percebemos que está ali, latente, presente naqueles que se negaram a chance de gostar de alguém, ou foram negados a experimentar tal sensação. Não é de se surpreender que a prostituição tenha perdurado tanto tempo no mundo, e que dificilmente ela deixe de existir. Não vejo o ato de se prostituir como um ato pervertido. Falo da prostituição real, não do problema social. Na verdade, o que seriam de nós sem a boa e velha prostituta. Isto porque, em muitos prostíbulos, homens e mulheres não vão apenas buscar satisfação efêmera, mas também diálogo, atenção, alguém para conversar, desabafar os problemas do dia a dia, despojar as intimidades para aquele indivíduo desconhecido, que por violar um corpo também desconhecido, passa a ser mais conhecido do que muitos companheiros (as).

Não se pode deixar de mencionar o individualismo que toma conta da sociedade. Esse fenômeno faz com que as pessoas fiquem sós, não porque querem, mas porque são impulsionadas a ficarem. O consumismo, a ideia do capital, a ganância pelo dinheiro, a fama instantânea, o egocentrismo, não abrem espaço para relacionamentos. Não é permitido partilhar nada. Se relacionar está intimamente relacionado a compartilhar algo com alguém, o que vai de encontro com os modelos atuais vigentes. É por essa razão que encontramos pessoas de diversas esferas sociais sozinhas. Muitas não estão dispostas em dividir o que quer que seja com alguém, mesmo que seja por amor. As intrigas conjugais são provas disso. Há diversos casos de brigas por causa dos bens, que eventualmente uma das partes se negou a partilhar. Disso deriva os casamentos sem amor, o qual o luxo, a pompa, a riqueza, a fama, são mais importantes do que os valores envolvidos nos laços matrimoniais. O resultado são casais, que mesmo juntos, estão sós vivendo uma mentira consentida pelo silêncio.

Se relacionar amorosamente com alguém não é importante apenas para procriação da espécie, nem muito menos para perpetrar o emblema da família tradicional, comercial de margarina, imposta por alguns segmentos religiosos. Também não se trata de se envolver com alguém apenas por interesse, ou arranjar rapidamente um namorado para mudar o status da própria rede social. Relacionamento não se limita à busca da cara metade, a outra parte da laranja, pois ninguém completa ninguém. Nada disso. Relacionamento é importante porque é uma prática de alteridade, de ver o outro como alguém que merece ser tratado com respeito e dignidade, sentimentos ausentes em muitas relações humanas. Relacionar-se amorosamente com uma pessoa é transcendência. Desperta sentimentos deveras esquecidos, ou quiçá inexistentes em nós. Significa hombridade, mas exige muita maturidade e jogo de cintura. É estar disposto a encontrar no outro qualidade e, sobretudo, defeitos que não se imaginava conviver; e torcer para que os nossos sejam bem recebidos pela outra pessoa. Trata-se de doação, entrega, porém nada de anulação nem muito menos perda de identidade. Por isso que é tão complexo.

Todas as vezes que ouço a frase “estou só por opção”, eu fico me perguntando, será mesmo? Ou será que essa pessoa não percebeu que a solidão pode ser também um produto cultural criado para nos direcionar a consumir os produtos que saciam nossa carência: filmes, novelas, romances, prostituição ou apenas a velha e infalível curtição? Talvez eu não tenha respostas para as duas perguntas agora. Talvez seja preciso fazer outros questionamentos. No entanto, é fato que se precisa discutir mais sobre essa solidão que leva muitos homens e mulheres a vagarem silenciosamente pela vida temendo e, ao mesmo tempo, querendo encontrar alguém para chamar de seu. Homem com mulher, homem com homem, mulher com mulher, homem com homem e mulher, com travesti, transexual, com todo mundo. Não importam os arranjos amorosos, mas a sua significância social. É preciso remodelar essas relações, ressignificá-las, trazê-las à luz. Dar uma chance para o amor numa época em que este é o tema principal em textos, romances, músicas, filmes, peças teatrais, nos discursos de paz, mas não se faz presente na vida. É preciso abrir espaço para o amor. Permitir que ele aconteça naturalmente e, feito isso, deixar que ele se materialize socialmente.

“Estar só não é uma opção, é uma condição da natureza: nascemos e morremos sós. Mas a solidão não deve ser a opção num mundo cheio de possibilidades. Ele deve ser uma fase, e nada melhor do que enfrenta-la bem acompanhado.”


Permita-se amar!

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