A violência na sociedade brasileira: como mudar as regras desse jogo?

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O fenômeno da violência parece não ter fim. E ele toma proporções avassaladoras quando está aliado a outros problemas sociais como a desigualdade social, esta que leva a fome, miséria e a pobreza, ingredientes que degradam a moral humana, fazendo com que indivíduos racionais ajam como verdadeiros animais. Em países em desenvolvimento, como o Brasil, isso se configura como uma moléstia social, uma vez que a desumana divisão de bens por aqui criou uma fábrica de pessoas prontas para ferir, matar ou roubar; tudo em troca de saciar as carências impostas pelo consumismo do qual o capitalismo instaurou na rotina da sociedade. Nesse jogo de vida ou morte, infelizmente não há ganhadores, mas sim um mar de perdedores banhados não só pelo sangue derramado pelos seus atos impensados, mas, sobretudo, pela vergonha de um povo que sabe de cor o significado da palavra sofrer.

Quando se fala em violência, imediatamente há a associação de crimes cometidos por assassinos que, por alguma razão, tiram de forma abrupta a vida de pessoas inocentes. Ou, ainda a visão de ladrões que, frustrados com a sua condição social, partem para a criminalidade, no intuído de retirar do outro os bens que ele tem. No entanto, o cerne dessa questão não pode ser visto apenas desse ângulo, visto que os exemplos mencionados não são a causa, mas sim a consequência de algo muito maior que pouco a pouco foi se enraizando na sociedade brasileira. Para ser mais preciso, a problemática da violência está relacionada a fatores de ordens diversas que convergem entre si e que afetam os grupos menos favorecidos de serviços básicos, mas essenciais para a existência humana, como saúde, segurança e educação. Dentre estes fatores estão à concentração de renda nas mãos de poucos, a falta de postura do governo para solucionar o problema em foco e os precários níveis educacionais existentes no país.

A vida ostensiva de alguns em detrimento de outros é a principal causa da violência no Brasil. Isto porque há uma concentração desonesta da renda por aqui que leva a uma bifurcação perigosa: de um lado um grupo que usufrui de tudo o que o dinheiro pode pagar e, do outro, a grande parcela da população que faz malabarismo para equilibrar as finanças todos os meses. Nessa balança desigual não é de se surpreender que surja uma revolta dos indivíduos que fazem parte do segundo grupo. Não que isso seja justificativa para apoiar aqueles que entram na criminalidade, mas é indiscutível que seja lenha suficiente para o fogaréu de crimes pelos quais a sociedade brasileira vem sendo incendiada. Tal fato pode ser evidenciado diariamente em várias partes da sociedade. Sejam em assaltos comuns a transeuntes ou em casas, ou até mesmo aqueles bem arquitetados como os que são feitos em bancos e os temidos e cada vez mais frequentes sequestros.

Outro causador e propagador da violência é a precária estrutura educacional do país. Mesmo com os investimentos cada vez maiores nessa área, parece que não foram suficientes para semear uma forma latente de paz que pudesse ser disseminada nas práticas sociais. Pelo contrário, a escola hoje vem se tornando uma arena de luta onde alunos brigam entre si ampliando o tão famoso “bullying”; brigam também contra os professores, que não servem mais de referencial de respeito para eles. Os professores, por sua vez, brigam com pais de alunos, com a direção do colégio, com o governo e contra a sua própria dignidade para continuarem a educar e transformar a brutal realidade dessas crianças e adolescentes. Ou seja, a escola que deveria ser um local pacificador e propagador de um conhecimento benéfico, para levar para fora dos seus muros uma fórmula eficaz para conter a violência social, está também perdendo força nessa guerra entre civilidade e sobrevivência. Parece que sobreviver se tornou o principio máximo das pessoas, mesmo que para isso elas tenham que passar por valores como respeito, dignidade, civilidade e, sobretudo humanidade.

Por trás dessa trincheira, protegidos de tudo e de todos, estão os políticos, os verdadeiros responsáveis pelo caos do qual a violência vem fazendo as suas vitimas. Eles conhecem bem todos os tormentos dos quais a população passa e detêm as soluções possíveis para ajudar a reverter às calamidades, que volta e meia, afligem os guetos mais pobres desse país. E porque não fazem nada? É simples. Eles também fazem parte do grupo minoritário que tem nas mãos as rédeas do Brasil que, em outras palavras, materializa-se em renda bruta, ou seja, dinheiro. Por isso, não é interessante mudar a realidade das camadas mais humildes da população, uma vez que isso poderia arranhar posição social que eles conseguiram a custa da ignorância do povo.

Nesse jogo de policia e ladrão, os únicos roubados, mortos e humilhados são as pessoas mais carentes. Carentes de uma educação que possibilite uma mudança significativa nas suas vidas e não esse modelo tecnicista que tem preparado pessoas para o mercado de trabalho apenas, mas não prepara pessoas para refletir sobre a vida e de como é importante mudá-la para melhor. Carentes de políticos honestos, comprometidos com a transformação social dos mais necessitados, honrando o voto, muitas vezes manipulado, de pessoas que não aguentam mais verem seus sonhos afundarem juntos com as promessas dos seus escolhidos. E, sobretudo, carentes de viverem estagnados, sem possibilidade de alcançar uma vida melhor, com melhores condições de saúde, educação, emprego e morada, elementos fundamentais para a manutenção de uma vida digna para todo e qualquer ser humano. Então, antes de tudo é preciso acabar com a violência moral que insiste em separar indivíduos da mesma espécie não pelo que são ou pelo que podem oferecer, mas pelos bens que tem ou pelo poder que exercem em determinado cargo público ou privado. É batido, mas vale a pena lembrar que somos todos iguais e, por isso merecemos nos respeitar mutuamente para enfim acabar com essas violências que continuam sendo germinadas.

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