Topas ficar comigo?



Vou logo lhe dizendo, não sou uma pessoa fácil.
Então, se quiser ficar comigo, é bom saber logo quem sou:
Meu nome é ...
Tenho a idade certa para te fazer feliz.
Minha altura é suficiente para você não se perder.
A cor da minha pele insinua o mais puro pecado.
Não sou ligado (a) em academias.
Na medida do possível, meu corpo está sempre em forma.
Cuido da minha aparência. Estou sempre apresentável.
Porém, isso é o que menos importa para mim.
Uma boa conversa, charme e inteligência contam bem mais.
Como caráter, honestidade e tolerância também me conquistam rapidinho.
Não resisto a um sorriso maroto ou aquele olhar que te diz muito sem nenhuma palavra.
Estou aberto ao namoro.
A trocar carinhos.
Amar e ser amado.
Mas, odeio ser controlado.
Não quero alguém vigiando todos os meus passos.
Gosto da minha liberdade e prefiro continuar prezando por ela.
Então, nada de ficar me ligando de cinco em cinco minutos para saber onde estou.
Nada de ficar me rastreando através dos meus amigos.
Nada de cobranças desmedidas.
Nada do tipo: “onde você estava? ”
Nada disso!
Se quiser ficar comigo, vai ter que confiar em mim.
E aceitar meu modo de vida.
Minha família, amigos, colegas de trabalho/escola, bichos de estimação...
Também não gosto de ciúmes sem motivo.
Essa coisa de não puder olhar pro lado, sem que não haja uma repreensão.
Isso não rola comigo.
O fato de eu olhar em todas as direções, não significa que estou te traindo.
Para trair, eu posso estar até de olho fechado ;)
Não venha com essa história de perseguição.
Rastrear meu telefone ou ficar cutucando ele na minha ausência.
Não preciso dizer que não te darei a senha das minhas redes sociais.
Lembre-se: eu escolhi ficar com você e não viver para você.
Namorar não retirou de mim o direito de eu ser Myself.
E de fazer as minhas coisas mais pessoais.
Quando não estou com você, possivelmente estou com meus amigos.
Então, nada de implicar com eles.
Nem muitos menos deixar de falar com alguns deles por causa de você.
Espero que você não cogite essa possibilidade.
Se escolhi a sua companhia, foi para namorar, não para me amarrar.
Falo com quem quiser e espero não ter problema quanto a isso.
Se você é aquele tipo de pessoa grudenta, pegajosa, possessiva, dominadora...
Não faz meu tipo!
Como também não curto alguém distante, inexpressivo, não participativo...
Relacionamento precisa de doses cavalares de bom senso, se não enjoa e vira rotina.
Gosto de fazer coisas novas, inusitadas, mas nem sempre compreendidas.
Logo, não se choque se de um dia para outro eu resolver fazer uma loucura.
Como deixar de trabalhar com advocacia e se entregar a uma Ong.
Esse sou eu.
Sou do tipo de trocar água por vinho, mesmo sem ser semana santa.
Prefiro a aventura de viver do que a desventura de não me permitir ser quem sou.
Então, se quiser viver comigo, é melhor pensar duas vezes e ser tolerante.
Não suporto intolerância!
Gente ignorante, então nem pensar.
Se quiser namorar comigo, tem que vir de mente aberta.
Permitir será a palavra de ordem do nosso namoro.
Se possível, evite barracos.
Sou chato quando alguém grita comigo sem motivo.
Então, se eu lhe fizer algo errado, não vai ser discutindo que vamos resolver.
Dialogar é sempre o mais sensato em qualquer relação.
Já digo logo que não namoro com pessoas inseguras.
Que não sabem o quer para si.
A insegurança cria relações instáveis entre as pessoas.
Fale que gosta, quer, precisa, deseja, compra, paga, odeia... sem meio termo.
Não vou me importar com quem paga a conta da mesa do jantar.
Desde que sempre haja um rodízio entre nós nesse sentido.
Odeio pessoas usurpadoras.
Não tente me ganhar com elogios ou bajulações.
Para me conquistar, basta usar a criatividade.
Muitas vezes, nem precisa falar.
As atitudes valem bem mais que muitas horas de conversa.
Seja original, sem forçar barra, ou parecer ser alguém que não é.
A autenticidade mantém a sinceridade nas relações.
Sincero eu sempre serei, e é bom você saber logo disso.
Direi tudo o que penso sobre nós, sobretudo nos momentos mais difíceis.
E espero contar com a mesma sinceridade do outro lado.
Nenhuma relação perdura com mentiras, ou meias verdades.
Mentir? Essa palavra não pode existir entre nós.
Há, quase ia esquecendo.
Nosso sexo não cairá no cotidiano.
Se depender de mim, faremos amor das melhores formas e nos lugares mais improváveis.
Na cama, na lama ou numa casinha de sapê, como diz a canção.
Não vale indisposição sem motivo, nem desculpas esfarrapadas para desanimar esse momento.
É o sexo que mantém vivo o fogo das paixões que queima em cada relação humana.
Por isso, nada de esfriar essa chama.
Sei que sou intransigente e meio mandão, mas estou tentando mudar isso em mim.
Por favor, seja paciente comigo. Também serei com você.
Sou de opostos.
Se você prefere água, eu vou de fogo.
Se você é inverno, eu sou mais no verão.
Entre refrigerante e cerveja, eu fico com o segundo.
Amo a noite, mas posso fazer um esforço para gostar do dia.
Adoro uma balada, mas também amo estar casa bem agarradinho com um livro.
Gosto de salgados, porém não troco uma boa sobremesa por nada.
Adoro comer bem. Melhor ainda se estiver em sua companhia.
Por estar com você, vou gostar de participar da sua vida.
Mas sem invadir seu espaço.
Serei a companhia ideal para ir ao cinema, praia, mesa de bar...
Ou para os momentos mais tristes de nossas vidas, como a perda de um ente querido.
Partilharei de alegrias e tristezas contigo.
Serei amante, amigo, companheiro, conselheiro...
Romantismo é um dos meus fortes.
Sou intenso, verdadeiro, uma explosão de sentimentos.
Muitos deles, você só descobrirá na prática.
Não se assuste se eu te beijar todos os dias como se fosse a primeira vez.
Nem se o sexo for mais ardente a cada dia.
É que quando gosto é pra valer e não consigo disfarçar.
Não economizo paixão quando me apego de verdade a alguém.
Entrego o meu mais puro eu para o outro.
Nada de limitar o desejo.
Esse é o meu jeito de namorar.
Tem mais coisas ao meu respeito que prefiro não contar.
Você vai descobrir assim que chegar em minha vida.
Até lá, deixo aqui esse pouco do muito que sou.
Não me defini por completo, porque isso limita todas as minhas outras faces.
Sou bem mais que tudo isso.
Sou a pessoa que vai te fazer feliz a partir do primeiro beijo.
Meu amor é capaz de modificar vidas.
Assim como espero que você mude a minha com seus lábios.
Traga na bagagem as armas para transformar a nossa relação.
Que eu já estou armado até os dentes.
Não curto jogos, mas posso cair na jogada da conquista e lançar as minhas cartas a mesa.
Mas, preciso saber se você está disposto a jogá-las comigo.
Se for bom jogador, espero ser derrotado no primeiro beijo.
O prêmio para quem vencer será dar ao outro muito mais amor.
Assim, ninguém sairá perdendo.


E ai, topas ficar comigo?

Beyoncé, não pode tocar!



Martha Medeiros é um famosa cronista brasileira. De todos os seus escritos, a crônica chamada “Não Pode Tocar” parece a mais adequada à discussão a seguir. O texto fala da dificuldade que se tem de tratar de determinados temas, sem a proteção assegurada pelo reducionismo eufêmico, do qual muitas questões acabam não sendo devidamente problematizadas. Nele, dentre muitas passagens, destaca-se: “Não tocarei pra não estragar, pra não quebrar, pra durar por muitos séculos”. Essa é, sem dúvidas, a mais apropriada para a ocasião envolvendo a polêmica música da diva Pop americana Beyoncé, Formation. Num claro discurso pró racial, a canção evidencia outro trecho da crônica de Medeiros “Não se pode tocar no sagrado de cada um”. Essa violação foi realizada pela cantora ao trazer à ribalta o racismo que vitima seus condescendentes americanos, e que resultou em uma repercussão negativa ao redor do mundo contra a cantora, num contexto em que artistas negros, ou integrantes de outras minorias, dificilmente se manifestam politicamente em prol dos seus grupos, de forma tão escancarada como foi feito por ela. Mesmo que tardiamente, a posição de Beyoncé resgata conflitos sociais ligados a alteridade, bem como a constatação de que o racismo está longe de ser superado.

Em primeira estância, é preciso destacar a falta de posicionamento que há em torno das temáticas minoritárias: negros, mulheres, gays, índios, deficientes físicos, etc., não veem suas pautas sendo devidamente representadas pela grande mídia internacional. Parece haver um acordo tácito, silencioso e corruptivo, entre diversas esferas sociais, que não mergulham nas águas abissais do descaso, para resgatar esses grupos da latente negligência a que foram submetidos, e que os leva à morte. Quando alguém decide se colocar para reverter tais realidades, vem ao jugo popular o rótulo de subversivo, adjetificação que por si só denota um perigo para a sociedade, sobretudo quando esta é despolitizada e desmilitarizada. Coube a Beyoncé tal emblema, visto que, para muitos, ela transgrediu o intocado, o que na crônica de Medeiros não se podia macular. Beyoncé não apenas maculou, como também pintou de preto, literalmente falando, a visão daqueles que fingiam não acreditar na sobrevivência do racismo americano no mundo, mesmo tendo diversos ícones importantes mundiais, inclusive a própria cantora, visivelmente negros. Para estes, o talento, a performance, a criatividade, a pirotecnia, tudo era válido desde que o artista ali presente não se considerasse minoria, levantando bandeiras das quais debates fossem inevitavelmente iniciados.

É como se dissessem assim: “eu gosto do seu trabalho, mas não quero saber de suas demandas”. Ora, os fãs alucinados, que discutem nas redes sociais acerca de quem é a melhor diva pop do momento, os quais endeusavam principalmente a figura de Beyoncé, não deveriam ter ficados contra a cantora. Isto porque, quem de fato admira o trabalho de determinado artista, é porque se identifica com suas causas, vestindo-as como mantos sagrados a serem perpetrados pela sociedade. Quando isso não ocorre, é provável que o modismo hipnótico da indústria cultural tenha levado legiões de pseudos fãs a adorarem um ídolo sem nem sequer conhecer suas lutas pessoais e origens. Os amantes de Beyoncé, que não são tão fissurados na cantora como dizem, parecem corroborar para esse fato. Por essa razão Formation sacode as convicções em torno do negro, de que como ele é, vive e sobrevive numa sociedade que o excluí deliberadamente. No vídeo, ancestralidade, repressão policial, legado, reivindicações, lutas, religião, violência e esquecimento se fundem para protestar contra o mundo que prefere acreditar numa diva talentosa branca, no caso aloirada, do que encarar os fatos de que a cantora mais popular da atualidade ser negra. Da mesma forma que os saudosos Mickael Jackson e Whitney Houston também o foram e deixaram os seus respectivos legados.

É inegável a jogada de marketing em torno de toda essa polêmica, uma vez que é sabido que a indústria do entretenimento sobrevive de polêmicas para manter artistas em evidência. Embora seja impossível confirmar tal suposição, isso não deslegitima a sua importância para a questão do emponderamento negro da sociedade, sobretudo na brasileira, onde falar de racismo, suas implicações e lacunas sociais, ainda é um tema nebuloso. Por isso, quando um artista do porte de Beyoncé trata com alteridade essa temática, ela nos repassa a seguinte mensagem: “Ei, você? Você que sempre curtiu minhas músicas. Você que adora a minha voz. Repete as minhas coreografias em casa. Você que copiou o meu penteado. Gostou das roupas que uso. Você que me viu em preto e branco cantando “Single Ladies”, ou cinzenta em “Halo”. Você sabia que eu sou negra?” E outra pergunta se impõe após isso: o que mais importa para a sociedade é ter alguém talentoso e com potencial para fazer uma carreira brilhante ou saber qual é a casta social desfavorecida que esse artista faz parte, defende ou pretende defender, e se isso interfere negativamente na qualidade de sua arte? Na crônica de Martha Medeiros, há outra frase pertinente a esse contexto: “É proibido tocar no sagrado de cada um”.

Porém, Beyoncé preferiu cometer o sacrilégio de tocar no proibido. A subversão aqui foi deixar claro para todo o planeta a necessidade de se enxergar a minoria dentro de si e no outrem também. O sentimento de alteridade que falta em muitos na sociedade, americana e brasileira. Por essa razão, Formation toca na necessidade das pessoas de se enxergarem como negros, independentemente da cor ou textura do cabelo, de classe social ou religião, já que há negros que não se veem parte integrantes desse nicho. Se isso veio à tona, é porque infelizmente há lacunas a serem preenchidas por uma sociedade claramente embranquecida pela mídia e, principalmente, pela indústria da moda. Além disso, o negro não encontra espaço para difundir sua ancestralidade religiosa, sem que não haja alguém disposto a caracterizar seus cultos afrodescendentes como satânicos. A demonização de suas tradições serve mais uma vez para obscurecer a presença desse grupo na sociedade. Tolera-se, apenas, aquele negro adequado ao sistema vigente, que não invade espaços já delimitados pela soberania branca, a qual mesmo silenciosa, dita suas regras. O que Beyoncé fez, semelhante a tantos outros negros, foi cruzar a linha amarela, aquela que proibia o avanço da comunicação, do diálogo para lá de pertinente sobre quem é privilegiado socialmente e quem não é. Aliás, discussão deveras adiada, pois não há um esforço coletivo para entender a realidade do negro no mundo.

Baseado nisso, a música em voga incomodou muita gente, porque não economizou discurso para retratar algo que já era conhecido por muitos, o racismo. Preconceito que excluí, escraviza e mata, mesmo após as leis abolicionistas terem sido sancionadas ao redor do globo. A canção de Beyoncé foi criticada por autoridades americanas, por atacar claramente a polícia de lá; fãs deixaram de ser fãs após a divulgação do vídeo clipe Formation; essas entre outras censuras foram direcionadas a tal artista apenas porque ela usou sua imagem para fazer um levante, mais que emergencial, a favor de um grupo aplaudido pela sua arte, porém vaiado, ou no caso dela boicotado, todas as vezes que a sua cor, herança e tradições são violados. Esse antagonismo evidente só ressurge quando a defesa do ponto de vista é clara, contundente e irrefutável. Porém, nem todos os artistas/celebridades utilizam da sua imagem em prol de lutas como essas, temendo perderem os créditos conquistados ao longo de suas carreiras. O nosso internacionalmente famoso Neymar é um exemplo disso. Recentemente, o jogador afirmou que não se considerava negro e, por isso, talvez acredite ser imune aos preconceitos que vitimizam tal grupo. Pelé, outra celebridade da bola, também fez um discurso semelhante anos atrás, porém, em ambos a repercussão negativa não chegou nem de longe ao que Beyoncé vem sofrendo.

Esse é um dos lados perversos do racismo: introjetar a ideia de que não se autodenominar negro vai minimizar o preconceito entre as pessoas. É a tentativa mais ingênua daqueles que, entre lutar pelas causas de um movimento, preferem a falsa ideia de que não fazer parte dele. Essa ausência de senso militante não se restringe ao segmento negro. Muitas mulheres, eivadas de um machismo social, atacam outras vítimas da cultura do estupro, do raso debate entorno do aborto ou da postura sexual de mulheres mais resolvidas. Muitos gays, pressionados pelo mesmo machismo, preferem segregar outros homossexuais mais afeminados, travestis, transexuais, acreditando que o ideal é não parecer gay. Da mesma forma, há negros, e muitos, contrários às cotas raciais, geralmente repetindo as mesmas retóricas brancas sem uma análise aprofundada da condição negra na sociedade; são também preconceituosos com a religião/cultura/tradições desse grupo e, infelizmente, muitos nem se veem como negros, mesmo que estes sejam tão visivelmente afrodescendentes quanto Neymar e Pelé. A mensagem da música Formation trouxe a esse contexto a necessidade dos indivíduos se verem como minorias e nem por isso se anularem.

Foi o que Viola Davis, ao discursar no Emmy 2015, fez: não se anular diante do racismo, refletir sobre ele num espaço nitidamente segregacionista (Hollywood) e mesmo assim permanecer firme diante dos seus ideais. Além dela, Mather Luther King, Nelson Mandela, Harriet Tubman, Castro Alves, e agora Beyoncé, guardadas as devidas proporções, deram suas caras a tapa para a sociedade, ao dialogar a respeito desse tema, inquietando aqueles que praticam a política da boa vizinha, da qual o negro pode existir, só não pode se manifestar a favor dos seus direitos. Felizmente, há sempre alguém que resgata esse tema sempre que a problemática racial ressurge para deixar claro o quanto tal preconceito é latente no seio das relações sociais. Geralmente, ele se manifesta em ações contributivas ao senso comum do qual o negro é excluído, vitimado e marginalizado. Poucos são, e foram, as manifestações em prol de um levante, que alheio ao espetáculo da indústria de consumo, fosse capaz de capitular um debate maduro, producente, sobre as demandas vividas pelos negros. Talvez tenha sido essa a atitude da diva Pop Beyoncé: trazer à luz as cicatrizes negras, herdadas da escravidão, que são maquiadas pelo conformismo, pela conduta apolítica da sociedade, pela falta de conhecimento e reconhecimento de causa, ou ainda a ausência de um discurso de alteridade, este que possivelmente foi o elemento incendiário da polêmica envolta no descoberta cômica da cor daquela cantora.

“Todas as relações do mundo possuem sua prateleira de cristais”, enfatiza Martha Medeiros. Pelo visto, Beyoncé estilhaçou a dela ao servir de espelho para um grupo ainda esquecido, hostilizado, que vive à margem social, tendo toda a sua carga antropológica obscurecida por um sistema discriminatório quanto aqueles que devem ou não existir. A música dela mexeu com as raízes do preconceito desse tema, que parece superado, mas revive nas práticas sociais mais cotidianas. Por isso que alguns opositores classificaram a canção como de péssima qualidade, tanto na melodia e, sobretudo na letra. “Palavras incomodam o suficiente”, é uma das passagens da crônica de Medeiros. Certamente, o discurso de Formation se enquadra nisso, porque é mais fácil para quem discorda da música desqualificar a sua letra, do que analisar as metáforas dela e sua representatividade em uma porção social considerável nitidamente mal representada. E o incomodo resultou em mais debate, mais reflexão, mas também em muita mais preconceito, perseguição e, no caso de cantora, até boicote. Analisando tais polos, é inegável os pontos positivos em torno dessa polêmica, sobretudo a sátira feita na internet num vídeo bem extrovertido, mas crítico, do qual ironiza inteligentemente a descoberta do mundo, da real cor de Beyoncé. A cantora negra de cabelos loiros parece não se abalar com as críticas que recebeu. Isso é bom, pois não se deve titubear quando se defende um ideal. Pelo contrário, ideais precisam ser herdados, copiados, perpetuados, principalmente quando se referem a lutas justas, pendentes na história e aparentemente insolucionáveis.

”Beyoncé, não pode tocar nesse assunto!”. Essa também foi a mensagem implícita proferida por aqueles contrários ao discurso da música Formation. Porém, a diva americana ultrapassou a linha amarela, saiu da sua zona de conforto, ousou, transgrediu, subverteu, tudo isso numa era onde a minoria só é vista na invisibilidade. No período do conformismo tolerável, que determina a ordem das coisas, assim como a posição de todos nas camadas sociais, o permitível é não ser. Empreende-se disso todas aquelas pessoas anuladas pelo sistema, obrigadas a se adequar a realidade hegemônica da sociedade, para fazer parte desta sem muita barulho, uma vez que o emudecimento do indivíduo garante aos poderes supremos (mídia, política, religião, etc.) o controle sobre ele. Disso, entende-se que a mais nova polêmica racial jogou luz ao obscurantismo em torno desse tema, semelhante ao que aconteceu por aqui com personalidades brasileiras como Taís Araújo, Lázaro Ramos e a Apresentadora do Tempo, Maria Júlia Coutinho (Majú). A cada novo caso, embora aja muita boçalidade e falta de empatia, há grandes avanços para a formação de uma sociedade, que se não seja capaz de eliminar os próprios preconceitos, que pelo menos seja capaz de reconhecer a existência deles e encontre artifícios para corrigi-los. Em contrapartida, para que isso ocorra, novas personalidades devem copiar o exemplo de Beyoncé, Jean Willys, Doroth Stang, Chico Mendes, e dentre outros, anônimos e notáveis, os quais dedicam as suas vidas, direta ou indiretamente para violar o inviolável, transpor o intransponível, desconstruir para reconstruir uma sociedade onde todos possam enxergar sua existência e, a partir disso, a do outro.


“Só não vê o que o outro é, quando o que não se vê é aquilo que não se deseja para si”.

Eu não estou só por opção


Eu querida estar namorando agora. Ter alguém para contar as coisas mais íntimas, que não podem ser ditas a amigos nem a familiares. Uma pessoa que me levasse para sair, ir ao cinema, ao parque, para jantar. Alguém que compartilhasse das minhas ideias, opiniões, visões de mundo. De vez em quando, poderia haver algumas briguinhas aqui, uma discussãozinha acolá, mas que ambos sentassem para conversar e encontrar no diálogo a solução do problema. Brigas seriam uma raridade perto dele. Um indivíduo compreensivo, educado, companheiro, de bom humor. Tem que ser bom de cama também. Claro, pois sem sexo, nada feito. Além de beijar bem, ter uma boa pegada. Não precisa ser intelectual, porém se for inteligente já é muita coisa. Amoroso, sensível, humano, respeitoso, carinhoso, afetuoso, dedicado, honesto, íntegro, charmoso, sensual... São requisitos para lá de especiais no currículo da conquista. Se ainda por cima ele for lindo, feito os galãs do cinema americano, aí é só alegria.

Infelizmente, o príncipe encantado está confinado aos contos de fadas. Da mesma forma que a mulher ideal não é mais aquela, que no passado, se resumia a cozinhar, cuidar da casa e dos filhos. As pessoas mudam, a sociedade muda, e com elas a forma de se relacionar. O que não muda ainda são os predicados exigidos por nós para ter alguém ao nosso lado. É uma lista enorme de qualidades humanamente impossíveis de serem encontradas numa só pessoa. Mesmo sendo improvável achar a perfeição no outro, nos iludimos com a ideia de que há um indivíduo perfeito a nossa espera, disposto a realizar as maiores loucuras para ficar do nosso lado. Esse engano leva ao desengano da solidão, em que cada vez mais pessoas estão sós, não por opção, mas por falta desta. Trocando em miúdos, vivemos numa busca incessante por algo que não existe e insistimos nessa busca por incontáveis tempos. Por isso que há pessoas entre vinte anos, trinta anos, ou mais, que nunca mergulharam de cabeça numa relação a dois, pois estão aguardando um milagre divino, que talvez jamais aconteça.

É evidente que esse fenômeno tem fundamento na atual sociedade do desapego. A ideia é não se ligar a nada nem a ninguém. Curtir, beijar, colar, ficar, transar, tudo momentaneamente sem se aventurar em algo mais sério. Essa vida doidivanas não é de um todo ruim. É preciso experienciar coisas ao longo da vida, principalmente no campo relacional. Entretanto, o que preocupa é a durabilidade de tudo isso. Pessoas que alcançam a maioridade e não se desvencilham de tal conduta, agindo como adolescentes fora de faixa. Não estou dizendo que os adultos têm a obrigação de se casarem por causa da idade. Estou analisando aqueles que, independente da faixa etária, nunca se entregaram ao deleite de se relacionar seriamente com alguém e, afirmam categoricamente que “estão sós por opção”. Essa afirmação falaciosa é o produto de uma cultura que veicula a ideia de que é melhor só do que mal acompanhado, usando músicas, filmes, livros, etc., para reproduzir uma arte bandoleira da qual o lema é “ninguém é de ninguém” e o que importa é gozar, biologicamente falando.

De fato, as pessoas não são propriedade das outras, de modo que são livres para se relacionar com quem quiserem e da forma que bem entenderem. O que me chama atenção disso tudo é que as mesmas pessoas que passam a vida experimentando bocas e corpos alheios, salvo raras exceções, estão na verdade em busca de alguém como morada, mas preferem o engano da transitoriedade para satisfazer um desejo momentâneo. Dessa experimentação desmedida surgem as doenças psíquicas, que tanto lotam as salas dos psicólogos e terapeutas modernos: insegurança, frustração, medo, vazio, solidão. Quando não doenças venéreas como a AIDS ou violências sexuais como o estupro. Mulheres engravidam de desconhecidos. Homens abortam essas mesmas mulheres e filhos. São recorrentes também os suicídios, crimes motivados por falta de amor próprio ou pela banalização das relações humanas, o que poderia ter sido evitado se aquele indivíduo infeliz tivesse se permitido estar com alguém.

Mesmo cientes disso, pessoas são levadas, acredito que inconscientemente, a renegar outras, as quais poderiam somar pontos positivos não só para ambos, mas para o andamento da sociedade como um todo. Casais heterossexuais são os mais livres para desfrutar das suas paixões, mas não aproveitam essa liberdade para construir relações maduras, sobretudo aqueles que já constituíram família com crianças. São namoros, noivados e casamentos arranjados ou por pura conveniência. Abusos, discussões desnecessárias e, por isso, falta de diálogo. Agressões mutuas, muitas vezes até física. Falta de entendimento na cama, o que resvala em traições, crimes e morte. Em casos menos trágicos, separação, brigas judiciais, filhos envolvidos em problemas que não lhe competem, ou ludibriados pela alienação parental. Esse panorama é mais comum do que se imagina e é responsável por diversas implicações sociais que ocorrem em diversos lares mundo afora. Nas relações homossexuais, além do preconceito protagonizado diariamente pela sociedade, há a imensa dificuldade dos gays em oficializarem em público suas relações sem sofrer retaliações por causa disso.

Em quanto do lado hétero é mais fácil se relacionar, mas em muitos casos a falta de maturidade de muitos leva a desastrosas relações, e do outro lado, o gay nem se quer consegue assumir publicamente seus relacionamentos amorosos sem serem repudiados por isso, surge as promiscuidades nas relações. O outro se torna um objeto consumível, descartável, usado para satisfazer uma carência que parece passageira, mas quando analisada mais profundamente, percebemos que está ali, latente, presente naqueles que se negaram a chance de gostar de alguém, ou foram negados a experimentar tal sensação. Não é de se surpreender que a prostituição tenha perdurado tanto tempo no mundo, e que dificilmente ela deixe de existir. Não vejo o ato de se prostituir como um ato pervertido. Falo da prostituição real, não do problema social. Na verdade, o que seriam de nós sem a boa e velha prostituta. Isto porque, em muitos prostíbulos, homens e mulheres não vão apenas buscar satisfação efêmera, mas também diálogo, atenção, alguém para conversar, desabafar os problemas do dia a dia, despojar as intimidades para aquele indivíduo desconhecido, que por violar um corpo também desconhecido, passa a ser mais conhecido do que muitos companheiros (as).

Não se pode deixar de mencionar o individualismo que toma conta da sociedade. Esse fenômeno faz com que as pessoas fiquem sós, não porque querem, mas porque são impulsionadas a ficarem. O consumismo, a ideia do capital, a ganância pelo dinheiro, a fama instantânea, o egocentrismo, não abrem espaço para relacionamentos. Não é permitido partilhar nada. Se relacionar está intimamente relacionado a compartilhar algo com alguém, o que vai de encontro com os modelos atuais vigentes. É por essa razão que encontramos pessoas de diversas esferas sociais sozinhas. Muitas não estão dispostas em dividir o que quer que seja com alguém, mesmo que seja por amor. As intrigas conjugais são provas disso. Há diversos casos de brigas por causa dos bens, que eventualmente uma das partes se negou a partilhar. Disso deriva os casamentos sem amor, o qual o luxo, a pompa, a riqueza, a fama, são mais importantes do que os valores envolvidos nos laços matrimoniais. O resultado são casais, que mesmo juntos, estão sós vivendo uma mentira consentida pelo silêncio.

Se relacionar amorosamente com alguém não é importante apenas para procriação da espécie, nem muito menos para perpetrar o emblema da família tradicional, comercial de margarina, imposta por alguns segmentos religiosos. Também não se trata de se envolver com alguém apenas por interesse, ou arranjar rapidamente um namorado para mudar o status da própria rede social. Relacionamento não se limita à busca da cara metade, a outra parte da laranja, pois ninguém completa ninguém. Nada disso. Relacionamento é importante porque é uma prática de alteridade, de ver o outro como alguém que merece ser tratado com respeito e dignidade, sentimentos ausentes em muitas relações humanas. Relacionar-se amorosamente com uma pessoa é transcendência. Desperta sentimentos deveras esquecidos, ou quiçá inexistentes em nós. Significa hombridade, mas exige muita maturidade e jogo de cintura. É estar disposto a encontrar no outro qualidade e, sobretudo, defeitos que não se imaginava conviver; e torcer para que os nossos sejam bem recebidos pela outra pessoa. Trata-se de doação, entrega, porém nada de anulação nem muito menos perda de identidade. Por isso que é tão complexo.

Todas as vezes que ouço a frase “estou só por opção”, eu fico me perguntando, será mesmo? Ou será que essa pessoa não percebeu que a solidão pode ser também um produto cultural criado para nos direcionar a consumir os produtos que saciam nossa carência: filmes, novelas, romances, prostituição ou apenas a velha e infalível curtição? Talvez eu não tenha respostas para as duas perguntas agora. Talvez seja preciso fazer outros questionamentos. No entanto, é fato que se precisa discutir mais sobre essa solidão que leva muitos homens e mulheres a vagarem silenciosamente pela vida temendo e, ao mesmo tempo, querendo encontrar alguém para chamar de seu. Homem com mulher, homem com homem, mulher com mulher, homem com homem e mulher, com travesti, transexual, com todo mundo. Não importam os arranjos amorosos, mas a sua significância social. É preciso remodelar essas relações, ressignificá-las, trazê-las à luz. Dar uma chance para o amor numa época em que este é o tema principal em textos, romances, músicas, filmes, peças teatrais, nos discursos de paz, mas não se faz presente na vida. É preciso abrir espaço para o amor. Permitir que ele aconteça naturalmente e, feito isso, deixar que ele se materialize socialmente.

“Estar só não é uma opção, é uma condição da natureza: nascemos e morremos sós. Mas a solidão não deve ser a opção num mundo cheio de possibilidades. Ele deve ser uma fase, e nada melhor do que enfrenta-la bem acompanhado.”


Permita-se amar!

E o Oscar vai para?! Os brancos!


O preconceito não escolhe hora, lugar, classe social e, pelo visto, nem cerimônia para se manifestar. A listagem do Oscar 2016 comprova essa máxima. Ao divulgar uma lista com seus concorrentes todos de pele clara, aquele evento anuncia para todo mundo ver que o racismo não está limitado as baixas classes econômicas, ou a um assombramento histórico, visto por muitos como ontológico. A diferenciação racial encontra terreno fértil, sobretudo nas camadas mais favorecidas, das quais o acesso a bens de consumo, inclusive a arte, são restringidos aos majoritariamente favorecidos: os brancos. Embora seja uma verdade quase que incontestável, há sempre aqueles contrários a existência do racismo, como tentativa de deslegitima-lo e/ou silenciá-lo. Muito embora seja impossível extirpar o preconceito da sociedade, e por essa razão o preconceituoso, é sempre pertinente resgatar a temática racial na esperança de desconstruir futuros preconceitos em torno desse assunto. Foi o que talvez despretensiosamente a polêmica do Oscar tenha feito.

Curiosamente, quando li sobre a hashtag #OscarsSoWhite, não culpei, a priori, os organizadores da cerimônia por não colocarem em sua listagem deste ano algum ator negro como possível concorrente a estatueta. Pensei que a banca não tivesse encontrado candidatos de cor a altura de competirem com atores de pele mais clara. Entretanto, por outro lado, conjecturei: por que isso ocorreu pelo segundo ano consecutivo? Será que por falta de atores competentes de pele negra? Não. Numa segregação racial menos velada do que a Brasileira, da qual negros e brancos não se homogeneízam, acharam por bem deixar isso ainda mais evidente ao excluírem atores e atrizes negros de sequer comporem o quadro dos seletos escolhidos da premiação 2016 do Oscar. O problema é que com essa atitude, o próprio Oscar ingenuamente deixa claro o que no Brasil já é uma realidade há tempos: a cultura erudita, bem como as consideradas “boas artes”, não estão abertas aos negros, muito menos em premiá-los. 


videntemente que essa demonstração de preconceito não passaria despercebida por outros artistas. O boicote foi a arma utilizada por atores, cantores e diretores de protestar nas redes sociais contra a soberania branca no Oscar. Achei a alternativa válida, sobretudo porque é no levante que nasce a discussão e, geralmente, a problematização do tema. É preciso falar sobre o racismo que corrompe vidas nos espaços público, privado e agora midiático internacional, já que aqui no Brasil isso já vem ocorrendo há anos em nossas telenovelas. Muita falação veio à tona, ao passo que muito preconceito foi jogado no ventilador até mesmo por algumas celebridades que classificaram o boicote como “racismo contra brancos”, alegando que a premiação do Oscar se dá por merecimento e não por melanina. Ora, é indubitável que os mais talentosos devem ser agraciados por seus méritos. Porém, é inquestionável o erro que há nos critérios de avaliação desse prêmio, dentre tantos outros, que há anos vem prestigiando, em sua maioria, celebridades brancas e quase ninguém questiona o porquê disso.

Fiquei pensando também nas implicações desse acontecimento por aqui onde o racismo é ensinado, naturalizado, midiatizado e institucionalizado. Lembrei imediatamente em filmes nacionais como Cidade de Deus e Tropa de Elite, dentre outros, cujo pano de fundo é a marginalização negra na periferia simplesmente mostrada e não aprofundada, colocando o espectador na posição de perpetuador dos discursos de sempre em torno dos negros. O reflexo disso é toda uma herança negra deturpada e obscurecida. É por isso que não se destaca a cultura desse grupo na mídia como se deveria. Quando o faz é com chacota, geralmente atingindo sua religião ou atribuindo-lhe o estereótipo do malandro. Falta também representatividade para romper esse discurso. Atores como Lázaro Ramos precisam suar muito a camisa para fugir desse padrão e conseguir algum destaque midiático que não se restrinja a novelas de época, tendo o negro interpretando mais uma vez o papel exaustivo de escravo. Casos como o dele, porém, são minúsculos se comparados com a quantidade imensurável de negros subalternizados dentro e fora da mídia. Fica claro que o que é de negro não merece ser reproduzido, tampouco premiado.


Ao segregar o negro ao patamar sempre de coadjuvante, isso quando este não é obscurecido totalmente, Hollywood, e porque não o mundo, impuseram a ele a criação de uma subcultura, nascida da revolta de um grupo desprovido de oportunidade de fazer e mostrar sua arte. No Brasil, não faltam exemplos nesse sentido. Da capoeira, ao Candomblé, do samba ao maracatu, do funk ao hip hop, os negros foram limitados a expressar sua arte em guetos e, a partir da intervenção branca, é que algo poderia ser alçado ao limiar de cultura de qualidade, como é o caso do samba. Ou seja, o que a cerimônia do Oscar fez não foi apenas limitar a presença negra em sua premiação, mas sim ratificar a limitação da mídia como um todo em retratar esse negro em sua tela, respeitando entre outras coisas a sua ancestralidade e herança cultural. Digo isso porque todas as vezes que uma minoria ganha espaço na grande mídia, surgi também as causas de um grupo, suas conquistas e demandas. É como se aquele indivíduo representasse mesmo que silenciosamente uma massa. Agora entendemos por que a ausência de negros entre os candidatos ao Oscar incomodou tanto nas redes sociais, pois muitos não se viram pertencendo ao padrão exposto pela premiação.

Esse foi o tiro pela culatra dado pela premiação. Acredito que eles pensaram que ao anular a presença negra da premiação, pela segunda vez consecutiva, não iria ser notada por aqueles que vivem o preconceito na prática. Depois de evidenciada a inescrupulosa ação do Oscar, o próprio evento se prontificou em fazer ajustes na premiação ao longo dos próximos anos, agregando com mais cuidado negros e latinos à premiação. Ora, com tal atitude, o maior prêmio cinematográfico do planeta assume para a grande mídia o equívoco cometido em selecionar apenas atores em uma indústria fílmica claramente heterogênea? Será que abrir uma “cota” para negros, dentre outras etnias, é a ideia mais acertada nesse sentido, do que reconhecer a cultura desse grupo, seus talentos, bem como a sua influência para formação cultural do mundo, trazendo tamanho legado para dentro da grande tela sem vitimismos nem pieguismos? Ou será que tudo isso não passou de mais uma estratégia de marketing para atrair mais holofotes para àquela celebração, da qual a vaidade é a única protagonista? Certamente, não é possível mensurar as reais intensões do Oscar diante ao espetáculo que se criou em meio a essa polêmica, mas é pertinente especular.


O cinema hollywoodiano é, sem dúvidas, uma grande indústria de arrecadação monetária. A festa do Oscar configura-se como o ápice dessa celebração. Toda publicidade a mais é bem vinda para atrair a atenção da mídia internacional para tal evento, cada vez mais previsível e repleto de clichês. Foi o que talvez toda essa polêmica tenha proporcionado ao Oscar: mais publicidade gratuita, dando visibilidade a festa que a cada ano tenta surpreender, mas peca pela previsibilidade nas premiações. Além disso, ao proporcionar, depois de protestos, uma fissura para que artistas negros tenham maior presença entre os futuros indicados a tal festa, não pense que estão fazendo isso para agregar valor ao Oscar. Pelo contrário, é mais uma tentativa fracassada da academia de não entender que não é preciso “facilitar” a entrada de qualquer grupo étnico no seio das mais aclamadas celebridades mundiais. Não é isso que os atores e atrizes negros estão buscando. Eles precisam de roteiros que os protagonizem cinematograficamente frente ao mundo externo, onde eles são figurantes de suas próprias realidades. Os artistas negros precisam ser premiados não pelo o que são, mas pelo que estão fazendo e vivendo em suas realidades, dentro ou fora da tela, bem como mulheres, gays, judeus, índios, pobres, dentre outras minorias, vivem suas mazelas e não as veem sendo devidamente representadas pelo próprio cinema.

Se não há uma representação real para esses grupos, nos quais o negro se tornou protagonista em 2016, o que será dos anos seguintes. Percebam que a mesma lista que cunhou a polêmica atual não contém nenhum artista pobre, gay, nem de descendência claramente indígena. Ou seja, o cinema que deveria ser responsável por prestar um serviço à sociedade - ao retratar a realidade além das metáforas existentes, contradições e exclusões-, com os recursos linguísticos/literários/artísticos capazes de repaginar aquelas realidades, numa outra mais possível, subversiva e transgressora, caminha à marcha ré disso ao impedir que tais dicotomias invadam as fronteiras do cinema afim de ressignificá-las. Em outras palavras, o Oscar deixa claro o desserviço das artes para com aqueles que historicamente foram, e ainda são, invisibilizados pela grande massa a partir de preconceitos históricos pré-concebidos, em um panorama educacional que não inclui, mas sim reproduz os estamentos de sempre sobre quem pode ou não fazer parte da seleta lista dos majoritários; assim como dos que podem ou não ser premiados com a estatueta brilhante.


A despretensiosa atitude do Oscar 2016 trouxe ao jugo popular a necessidade urgentíssima de se validar a cultura e herança dos negros no cinema, e nas artes em geral. É preciso resgatar o diálogo de que se precisa para entender melhor o que é o racismo, sua manifestação em públicos diversos, a participação dele nas mais diversas esferas sociais, para enfim lidar com esse problema da melhor forma possível no cinema. Mesmo que muito chorume tenha sido derramado em forma de palavra – já que não é possível impor limites para a ignorância alheia -, é na discussão entre mentes distintas que se encontram as armas para a construção de um debate mais salutar sobre esse e tantos outros temas. Talvez essa tenha sido a principal lição deixada por tudo isso: o empoderamento de diversas pessoas em prol de uma causa tão antiga, quiçá ultrapassada, mas que insiste em ressurgir para deixar bem claro como o ser humano é regredido no que se refere à questão racial. Também é válido mencionar o papel da grande rede em propagar os discursos que viralizam na internet causando uma grande repercussão e, com isso, possibilitando novos diálogos. Obviamente, tais discursos devem ser antes filtrandos, separando as impurezas da intolerância a qual infelizmente domina o meio virtual.

Ainda há muito a ser feito para que “falhas” como a do Oscar não voltem a se repetir. Como disse Viola Davis “a culpa não é do Oscar”. Concordo plenamente com ela. Porém, vejo esse evento como possível modificador dessa realidade e, ao invés disso, ele prefere reproduzir os mesmos dilemas da realidade. Por quê? Porque o preconceito insurge no desconhecimento. A academia não sabe o que é ser negro. Não conhece suas lutas e dissabores diários. Não vê a realidade com os olhos dessa minoria. Nem sequer sabe o que é ser minoria. Por isso é difícil reproduzir fidedignamente os negros, da mesma forma que presenteá-los. Como premiar a quem cujo talento não foi dado espaço? Sem essa avaliação, coube ao cinema Americano a triste ideia de reproduzir a sua realidade branca nas milhões de salas de cinema espalhadas pelo planeta, esquecendo-se das inúmeras demandas vivenciadas pelo seu público heterogêneo. Por isso, quando anunciarem: E Oscar vai para?! Nem se entusiasme, pois levará tempo até que o cinema, e as artes no geral, protagonizem aqueles que estão penando como figurantes na sociedade.



“O enfrentamento do preconceito deve começar ampliando essa visão do outro, preferencialmente nesse caso com óculos 3D, para não restar nenhuma dúvida de sua existência”. 

Todo mundo nu(des)


A nudez tem sido encarada de diferentes formas ao longo da história. Desde o mito de Adão e Eva até as atuais praias de nudismo, a visão da sociedade em torno da exposição do corpo ganhou novas conotações, muitas delas, porém, ainda ligadas à luxúria e ao pecado. O que não mudou foi o gueto onde a nudez é apresentada. Antecedente ao sexo, o nu, fortemente censurado pelo conservadorismo social, continua sentenciado aos prostíbulos, bordeis, revistas e sites de sacanagem, onde os interessados podem realizar suas fantasias mais lascivas, satisfazendo-se às escondidas. Entretanto, é na vigente geração celular que tal prática ganhou visibilidade. O fenômeno do mandar nudes vai muito além do envio de fotos íntimas. Representa uma transformação das relações interpessoais, também no modo como o indivíduo sente e dar prazer. Ao mesmo tempo, traz à tona problemáticas ligadas a abusos, constrangimentos e violências sexuais, numa sociedade carente de diálogo sobre sexo.

Justiça seja feita, essa conduta do nu pessoal não é mérito prioritário desses novos adventos tecnológicos. A história do Brasil começou a se desnudar, a princípio, com o choque entre os lusitanos e os nativos indígenas, no interessante embate entre a moral portuguesa e a amoralidade da nova terra. Anos depois, veio a controversa visão da inferioridade negra na escravidão, quando a nudez dos escravos era usufruída pelos senhores de engenho também para fins sexuais. O nu já foi tema de quadros e esculturas famosas. Esteve presente em histórias míticas como a do paraíso. No entanto, a nudez tal qual se conhece hoje em países ocidentais como o Brasil foi adquirida a duras penas. As peças foram diminuindo até que fosse possível o indivíduo ser visto com poucas roupas ou quase nada. O espartilho e pesados vestidos foram anos depois substituídos pelos tomara-que-caia e as minissaias. Depois vieram os biquínis, o topless, o carnaval escandalizando tudo ao trazer a nudez à avenida. O cinema, a moda, a música, as artes em geral, simultaneamente deram sua parcela para esse fenômeno que sempre esteve entre a inovação e a transgressão. O que o nudes tem de novo é a afronta a moralidade do país.

Em uma sociedade educada a não externalizar seus desejos, é no mínimo interessante saber que o nudes esteja acontecendo nesse momento em milhares de aparelhos celulares pelo país. Isto porque, aprende-se desde cedo a “esconcer as vergonhas”, até mesmo diante de familiares e amigos, para que só seja vista no ato conjugal, sobretudo após o matrimônio. Esse recato, porém, parece ter sido vencido pelas redes sociais, e os novos meios de interação. Por ser individual, rápido e discreto, o celular se tornou o meio pelo qual as fantasias se realizam. O indivíduo pode photoshopar as imagens antes de manda-las. Pode escolher qual parte do corpo ficará melhor na foto, bem como que ângulo vai valoriza-la. Pode enviar para mais de uma pessoa aumentando seu êxito na paquera. Ainda tem a opção de esconder as fotos pessoais e guardar as alheias, evitando que alguém tenha acesso a esse conteúdo. Os locais também variam: desde de clichês como quartos e banheiros, a exóticos como ônibus, praças e até em espaços teoricamente proibidos como jurídicos e religiosos.

Em todo lugar é possível posar sensualmente para as lentes de um aparelho eletrônico e enviar fotos picantes para futuros pretendentes a namoro, ou apenas a um sexo casual. Ou seja, a piscada no olho, o toque nas mãos, o assovio, até mesmo a velha cantada, parecem estar com os dias contados. A frase “vamos nos conhecer melhor” transformou-se em “manda uma foto da tua...”. O nu volta a ser exaltado. Ele é a porta para a complexidade do outro, uma espécie de convite ao prazer subentendido. Os obstáculos morais e sociais são ignorados. Há uma troca de etapas. Antes se conhecia o parceiro para depois se chegar aos finalmente. Hoje o finalmente é o princípio. O sexo se realiza agora na velocidade de um byte. Não é preciso mais tantos diálogos. As pessoas se mostram umas às outras como em um menu, esperando para serem consumidas. É o prazer pelo prazer. O sexo como protagonista. O ser hedonista sem máscaras nem amarras. Sem perceber, a prática do manda nudes resgatou dois pontos caros à humanidade: o nu e o sexo, ambos poucos discutidos e muito polemizados.

Em contrapartida, não adianta resgatar essas questões sem problematiza-las no tempo e espaço em que elas ocorrem. Na realidade, mesmo com o conservadorismo político-religioso e social, nunca se mostrou tanto o corpo, e de forma tão precoce, do que na atualidade. Há muita orientação contra doenças venéreas, mas pouco se fala sobre sexo, sexualidade, orientação sexual, identidade de gênero, consciência corporal, dentre outras pautas pertinentes ao entendimento do prazer humano. Sem esse conhecimento, jovens crescem à mercê das influências a sua volta, numa sociedade palpavelmente ligada ao sexo. A sociedade cheira a sexo. Na mídia, na música, na moda, na escola, na rua.... Nas proibições não explicadas. Tudo é um convite ao sexo desinformado. O nudes é uma prova disso. Não é difícil encontrar na rede blogs e sites destinados a mostrar fotos de meninos e meninas em poses eróticas, ou até fazendo sexo. Ou seja, indivíduos que mal se apoderaram da própria sexualidade são levados a fazer parte de um mundo onde o exibicionismo gratuito é confundido com liberdade sexual.

Numa sociedade imagética, o ideal é parecer ser. Por isso que as redes sociais são tão populares e ganham tantos adeptos. As pessoas ali conctadas muitas vezes desconhecem os dilemas vividos pelo país na atualidade. Elas estão mais preocupadas com sua própria imagem, literalmente falando. Saõ fotos ousadas mostrando muito mais do que o corpo pode oferecer. Diante de tanta exibição, muitos indivíduos, sobretudo jovens, são sexualizados por cliques e comentários elogiosos sem perceber o perigo que reside nisso tudo. A sexualidade só pode ser exercida em plenitude a partir do momento em que o indivíduo passa pela maturação necessária para se entender enquanto sujeito sexual, dentro de um espaço plural onde a sexualidade dele faz parte de uma pluralidade maior e legítima. Sem esse entendimento, a sexualidade fica incompleta, deturpada, o que pode resvalar em problemas ligados a baixa estima, inaceitação, frustração, dentre outras patologias sociais e biológicas. Nesse sentido, o manda nudes tem se configurado, na vida desses jovens incipientes e despreparados para a iniciação sexual,  mais como um contato narcisistico com sexo, e por isso perigoso, do que como uma prática salutar.

Ao mesmo tempo que o manda nudes fez uma reviravolta na vida sexual das pessoas, possibilitando-as novas experiências, também mexeu com questões ainda pendentes na sociedade. Um delas diz respeito a corporificação da mulher. Elas infelizmente são os principais alvos e vítimas da violência sexual na rede. Geralmente, quando fotos íntimas são enviadas numa interação virtual não há garantias de que estarão seguras. A prova disso é que a prática do Sexting, o vazamento de imagens íntimas, que tem trazido graves prejuízos as vítimas. Nos EUA, por exemplo, há inúmeros casos envolvendo suicídios por constrangimento. No Brasil, há diversos casos parecidos, envolvendo até invasão de contas privadas de  personalidades, como o que ocorreu com a atriz Carolina Dickman e que resultou numa lei de mesmo nome. O problema se agrava ainda mais porque jovens moças, em sua maioria menores de idade, tornam-se presas fáceis da violência sexual na internet. Vítimas do sexismo que impera na sociedade, elas se veem encuraladas pelo machismo que dita até onde a sexualidade delas pode ir. Quando há qualquer transgressão, mesmo que inconsciente, elas são penalizadas pelo discurso facista da moral e dos bons costumes.

Para completar esse lado negativo do manda nudes, há a proliferação das Infecções Sexualmente Transmissíveis – IST e a AIDS. Recentemente, uma pesquisa feita pela Unicef na região entre o Pacífico e a Ásia constatou a proliferação de diversas infecções sexuais em função da popularidade dos aplicativos de paquera. Na verdade, paquera aqui é um eufemismo para pegação e sexo casual. Em muitos destes dispositivos, no momento em que a interação acontece, o manda nudes se materializa e, depois, acontece o sexo, muitas vezes sem proteção e com mais de uma pessoa. O resultado disso é o aumento de indivíduos infectados com o vírus da AIDS, principalmente na faixa etária entre os 15 aos 29 anos. Engana-se quem pensa que as únicas vítimas sejam homossexuais, embora estes ocupem a liderança no percetual dos infectados em decorrência do uso de aplicativos de “paquera”. Há muitos heterossexuais, idosos, pessoas casadas, enfim, uma grande variedade de pessoas que usufrem desses mecanismos. Por aqui, apesar de não haver até o momento pesquisas que liguem o crescimento das infecçlões sexuais com o uso de aplicativos, já há levantamentos informando um crescente índice de doenças sexuais entre jovens, possivelmente ligados à rede. A nudez quando mal administrada deixa significativas marcas, difíceis de serem esquecidas.

Outro ponto a ser citado envolve a influência das celebridades nacionais e internacionais flagradas em momentos íntimos. São muitos os artístas na lista: Jared Leto, Justin Bieber, Luana Piovani, Carolina Dickman, Stênio Garcia, Carlos Machado... entre outros nomes do show business tendo suas vidas privadas expostas em fotos ora hackeadas, ora expostas por livre e espontênea vontade. Nesses casos há um maniqueísmo que deve ser analisado. De um lado, é importante saber que não só os meros mortais são passíveis de terem imagens publicadas na rede. Artistias de renome também podem ser violados nesse sentido. Também é importante para naturalizar os corpos desses indivíduois, muitas vezes endeusados pela mídia. Do outro lado, porém, quando uma celebridade é exposta dentro da sua intimidade, em meio a um mundo amplamente conectado à internet, abre-se um leque de discussão em torno da privicidade alheia; da postura que se espera de um artista frente a seu público; da forma como a nudez se deu, pois muitas celebridades encontram no corpo a chance de se manter em evidência na mídia; e como o público receberá aquele ídolo depois de vê-lo em tal condição. Como a nudez ainda é um tabu, provavalmente a sociedade veja o nudista de forma apelativa, execrando-o. É como Nelson Rodrigues disse “Toda nudez será castigada”.

Talvez ele tenha razão, já que a sociedade vive numa palpável ambiguidade, a qual se resume a uma frase do célebre Machado de Assis: “O problema não é o pecado, mas a sua exposição”. Pode ser, mas reduzir o nu total a guetos não resolverá os problemas ligados ao sexo. Pelo contrário, é preciso cada vez mais naturalizá-lo, sabiamente, para que se desfaçam as barreiras em torno desse assunto. Falar disso não é o mesmo que criar praias de nudismo, nem incentivar a criação de novas produtoras especializadas nesse tipo de trabalho, como as saudosas Play Boy e a G magazine; embora não seja uma má ideia. É tratar a nudez como parte da realidade humana. Encontrar nela a beleza que muitos escultores, pintores e escritores encontraram para retratar a suas musas. Evidentemente que a nudez não deverá ser reduzida a um gênero. Não se pode desgastar a imagem da mulher, mas do que já está. É usufruir de todas as nudezes, além de gênero, cores, formas, padrões. Buscar encontrar a essência do nu, sua relevância e importância, ítens claramente esquecidos nesse amontoado de nudes, muitas vezes mandado sem sentido.

Libertino na visão de muitos, e libertário na de outros, a nudez atual não pode ser condenada ao julgo do pecado sem ser levado em consideração todos os elementos transversais e antepostos a tal tema. Há um longo caminho a ser trilhado para que se compreenda as facetas da nudez. Faces essas que podem se apresentar de diversas formas: através de um protesto, ou de um discurso meramente apelativo; de alguém buscando encontrar um encaixe, um romance, ou apenas sexo sem compromisso; quem sabe em forma de arte para ser cultuada, ou apenas para transgredir como no carnaval ou na exibição de corpos sarados à beira mar; no cinema, num filme como Ninfomaniaca, lá no fundo, no escuro da sessão, ou em casa assistindo as Brasileirinhas e se resolvendo como pode; num poema, numa música, ou nas dúbias propagandas midiáticas; e no manda nudes, por que não, desde que se tenha consciência dos prós e contras que tal atmosfera pode proporcionar. Seja como for a forma de nudez, que seja feita com naturalidade, discernimento e respeito entre as partes. Em se tratando ainda do nudes, não se pode esperar que seja um fênomeno passageiro, já que as inovações tecnológicas chegaram para ficar. Entretanto, antes que a paquera se reduza de vez a “emotions”, é importante fortalecer na sociedade, através da educação, que o fato do sexo contar com o aliado virtual não quer dizer que isso trará sempre malefícios como os citados. Na verdade, antes de fazê-lo é preciso entender o que é o sexo, como ele surge, materializa e se concretiza nas suas diversas ramificações. Tendo esse conhecimento prévio, transformado em respeito, o sexo deixará de ser polêmico e voltará a ser o que sempre foi: natural.


“Quando o nu deixar de ser uma arma de sedução, e for visto de forma natural, o todo mundo nu(des) deixará de ser uma utopia”

M - DE MARIA, M - DE MULHER, M - DE MINORIA, M - DE MORTE!


"Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta [...]
O verso da Música de Milton Nascimento realmente traz um alerta para a sociedade pernambucana e brasileira, de que "é preciso ter força, é preciso ter raça" para suportar a perda brutal de mais uma de suas Marias. Desta vez, a jovem Maria Alice Seabra barbaramente assassinada aos 19 anos confirma o que eu já sabia há tempos: o machismo mata. Isto porque, a figura do padrasto e algoz da vítima, o Gildo, é similar, quiçá igual, a de muitos outros homens nascidos e criados no Brasil. Infelizmente, ensina-se a eles que mulher é mercadoria e que, por isso, é de propriedade indiscutível deles.
Essa ideia de posse é defendida pelo machismo e resulta em crimes dessa natureza, uma vez que muitos homens sucumbem ao desejo e violam o corpo alheio desrespeitando a integridade física e moral da vítima. Com as mulheres o machismo age diferente, ora recatando-as entre as "mulheres de respeito", ora vulgarizando-as através da roupa, do modo de falar, agir ou de se comportar. É desse modelo sexista de sociedade que várias Marias são mortas, apenas por serem bonitas, femininas, jovens, desprendidas, ou pelo simples fato de terem nascido mulher. É importante lembrar que mesmo após a sansão da Lei Maria da Penha, os índices criminais em torno da violência de gênero não tiveram mudanças positivas.
Para os mais informados, não é surpresa saber que no Brasil os maiores casos de violência contra a mulher ocorram em casa, geralmente por pessoas bem próximas da vítima, como maridos, pais, padrastos, irmãos, etc. Crimes estes silenciosos, já que a vítima, devido a proximidade com o agressor, não se sente segura e confortável para denunciá-lo. Foi o que talvez tenha ocorrido com Maria Alice, que antes de ser morta, resolveu sair de casa a ter que enfrentar mais uma vez o padrasto "protetor". E quem não tem essa opção? Resta suportar as humilhações, cantadas e assédios de homens asquerosos, que aparentemente passam por meros "cidadãos de bem" no dia a dia. Nesse exato momento, por exemplo, talvez outra garota esteja sofrendo violência de gênero em casa, ou pior, sendo estuprada impiedosamente por aquele que deveria ser seu maior protetor.
Na verdade, é complicado esperar alguma transformação nesse sentido enquanto o machismo é naturalizado em casa, na escola, na mídia, na religião e em todos os lugares. Os perfis de menino e menina personificados pelas cores azul e rosa já dão os primeiros indícios da dominação de um sobre o outro. Depois vem a ideia de fragilidade, do sexo forte em detrimento do fraco. Os colégios, ao invés de desconstruírem tais papeis, acabam perpetrando-os ainda mais. Por sua vez, os segmentos religiosos dominantes no Brasil reduzem a mulher a um objeto de procriação e somente só; ou reduzem-na a um pedaço retirado da costela de Adão.
A lista piora quando a mídia coisifica a mulher nos comercias de bebida; romantiza o gênero como excessivamente sentimentalista em suas tramas; vulgarizam-nas em suas músicas ou ainda insistem na ideia de "Amélia", mesmo que elas hoje tenham conseguido se libertar desse rótulo. O fato é que desse tratado histórico/sociológico nascem vários "Gildos" capazes de assediar, invadir, bater, machucar, trair, violar e até matar mulheres se for necessário para saciar suas vontades mais lascivas. Em meio a isso, Marias, Alices, Brunas, Carlas, Fernandas e Terezas são criadas para servir aos caprichos desses indivíduos, sob pena de serem mortas caso não sigam à risca tudo o que está na cartilha do ser homem e do ser mulher.
É lamentável constatar tais posicionamentos numa era cercada pela informação. É uma pena saber que há mortes derivadas do machismo ainda hoje no brasil. É triste saber que uma jovem de 19 anos teve todos os seus planos interrompidos apenas porque os papeis de gênero ainda se dividem entre os músculos e não pelos méritos. Mais triste ainda é saber que Maria Alice Seabra não foi e nem será a última e que outras, neste momento, podem estar perto de ter um fim semelhante ao dela. Marias de idade semelhantes ao dessa jovem, talvez mais novas, mais velhas, talvez que não tenham nem nascido ainda. Marias que se tornarão estatísticas da violência de uma sociedade sexista, onde as minorias morrem diariamente e pouco é feito para se reverter esse quadro. Marias que não devem ser lembradas apenas na dor, mas como disse Milton nascimento, lembrada como:
''Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta''



Legalize o orgasmo


Transar depois do casamento pode. Perder a virgindade antes disso não pode. Masturbação na adolescência pode. Mas se você for menina não pode. Sentir atração sexual por alguém pode. Manifestar esse desejo em público nem pensar. Levar camisinha na bolsa pode. Só não é permitido deixar ela amostra por aí. Sexo só pode com o gênero oposto, pois o inverso é pecado. Assistir a filmes pornôs pode. Mas ficar animado com cena de sexo no cinema está fora de cogitação. Assumir o gosto pelo sexo pode, porém, colocar isso em prática com várias pessoas é ser assumidamente desavergonhado. Diante de tantos pode e não pode, não é de se surpreender que ainda hoje aja tantos tabus em torno do sexo. A mesma sociedade que busca regozijar-se entre quatro paredes é a mesma que cria os próprios limites em torno do prazer. Com isso, gerações vão perpetuando a ideia de que o sexo deve ser limitado, privado a atmosfera matrimonial. Porém, tudo isso poderia ser diferente se, entre tantas proibições, houvesse a legalização do orgasmo, pois muitos problemas ligados ao sexo seriam previamente solucionados.

Parece irreal, mas muitos dilemas da sexualidade humana estão relacionados ao gozo alheio. Seguindo uma ordem cronológica, é perceptível que isso tenha início já na infância. Numa sociedade onde as crianças são divididas por cores, como representação dos seus gêneros, o resultado é a herança de padrões sexuais limitados. Azul e rosa representam bem mais do que a distinção de gênero neste sentido. Elas representam a sinalização que deverá ser seguida por quem as representa. Ele, o azul, terá cartão livre para se conhecer, tocar e experienciar tudo o que quiser sobre sexo. Já ela, a rosa, não terá a mesma chance. Sua sexualidade será regrada pela delicadeza desta cor. Seu orgasmo será contido, regulado por uma cadeia de sistema que definirá com quem ele poderá ou não transar. Em contraponto a isso, muitos adultos, atraídos pela pureza pueril, aproveitam para erotizar precocemente essas crianças. Ou seja, mesmo sem ter nenhuma noção de orgasmo, muitas delas são comercializadas por aqueles, que vindos de um contexto semelhante, canalizam suas frustrações para quem não tem noção alguma de sexo e sexualidade.

Na adolescência não é muito diferente. Nesta fase da vida, quando os hormônios estão em efervescência, jovens começam a se descobrir sexualmente. Vem aquela vontade instintiva de conhecer o próprio corpo, tocá-lo, sentir as possibilidades que ele oferece. Aliado a isso, vem a menstruação, a barba, os seios, a polução noturna. Entretanto, neste mar de descobertas, a sociedade dá o primeiro de muitos cartões vermelhos ao orgasmo, a partir do momento que segrega o prazer dos meninos e das meninas. Eles são ensinados a serem predadores, insensíveis e cruéis, buscando de forma egoísta o própria gozo independente do alheio. Já elas reprimidas, descobrem o orgasmo de forma errada, são geralmente usadas e se tornam objetos sexuais. Por essa razão, muitos contraem doenças sexualmente transmissíveis, se tornam pais antes do tempo, ou abortam irresponsavelmente, pois não foram devidamente educados a gozar. Ou seja, mais uma vez a falta de orientação sobre orgasmo, prazer em si, fizeram com que mais problemas derivados do sexo surgissem.

 Chega a fase adulta, e acredita-se que agora as pessoas serão mais livres para realizar suas fantasias sexuais. Todavia, ocorre o contrário nessa fase da vida. Sem muito diálogo, muitos se frustram logo nas primeiras relações, buscando nos braços alheios a satisfação desejada. Para estes surgem logo os rótulos de infiéis e imorais, apenas porque resolveram realizar suas fantasias nos braços de quem realmente tinha competência para fazê-lo. Porém, aqueles que resolvem aventurar-se ao se relacionar com alguém, precisam de muita liberdade, e certa dose de coragem, para dividir na relação os desejos mais lascivos que estão guardados. Dos dois modos, as pessoas que buscam o orgasmo a todo custo são crucificadas. Se o indivíduo não se contenta apenas com uma só companhia é chamado apontado pela sociedade, se é reprimido dentro desta relação, idem.

Depois de uma longa jornada de privações em torno do sexo, eis que surge a velhice, fase da qual nada mais preocupe, a não ser a saúde. Agora, os indivíduos que foram reprimidos a vida toda a respeito do sexo, podem se manifestar livremente nesse sentido. Ledo engano. É nesse período que a sociedade amplia os tabus em torno do sexo, ratificando aquela máxima de que ele tem prazo de validade e, por isso, deve ser realizado até certo período da vida. Ora, disso tudo é possível encontrar várias incoerências. A primeira, se a velhice é limitada nesse sentido, porque os remédios contra a impotência sexual, conhecidos como azuzinhos, continuam sendo vendidos e elaborados? Segunda, baseado nos estudos científicos, o ser humano, em especial os homens, foi projetado para fazer sexo a vida toda. Então, porque determinar o fim de suas atividades, quando o corpo tem plenas condições de realizar o ato?

As respostas se resumem a palavra tabu. É ele que limita as ações humanas, baseado geralmente em preceitos anacrônicos de certo e errado. Também não há uma naturalização em torno do sexo. O que há é ora uma banalização em torno dele, ora uma proibição, causando inúmeras incoerências e problemáticas sociais. Muitos dilemas nesse sentido, ligados ao prazer humano, poderiam ser solucionados apenas com o maior entendimento do que é o desejo, o sexo e o orgasmo em si. Não apenas uma descrição biológica, mas todo um tratado cultural e sociológico das satisfações sexuais da humanidade. Atrelado a isso, as mesmas bases legais, que são capazes de criar leis contrárias ao sexo e a sexualidade em si, deveriam ser as primeiras a legalizar o orgasmo no Brasil. Aquele realizado sem neura nem bloqueios, apenas o sexo como tem que ser, natural, animal em sua essência. Talvez assim, muitos debates enfadonhos sobre esse ou aqueles assuntos cairiam por terra. Talvez...



Sexo vende


Há uma incoerência antiga em torno das relações sexuais. O que deveria ser gratuito, é na verdade o produto mais caro do mercado. Isto é o sexo, que desde a antiguidade é consumido como produto e comercializado como tal. As pessoas não aprenderam ainda a trata-lo com a naturalidade que lhe é peculiar e isso deu vazão a atravessadores, que se aproveitam dos tabus alheios para lucrar. Em meio a isso, pessoas são privadas dos seus prazeres, porque a moral e os bons costumes reduziram o sexo à procriação e não ao prazer. Devido a essa redução, indústrias e instituições poderosas ganham muito em torno dessa questão, enquanto a sociedade, que deveria regozijar disso sem bloqueios, é ensinada a ser limitada nesse sentido, quando poderia já ter evoluído no quesito sexo e tudo que gira em seu entorno.

Nas negociatas a respeito do sexo, a história prova que o surgimento da família é, talvez, o marco primário dessa discussão. Quando, por questões meramente econômicas, o homem cria a ideia de família, no período do surgimento da agricultura no mundo, o foco estava na perpetuação dos bens entre os familiares e parentes. Nasce também a ideia de casal, de que ele é dela e ela é dele, como se existisse fidelidade total entre ambos. Porém, a questão maior é que devido a tais mudanças, ao longo da história casamentos foram criados, romances foram escritos, novelas, filmes, e uma série de coisas atrativas foram comercializadas, nas quais além de criar um modelo romanesco clichê, acaba privando o sexo ao matrimônio, ao passo que demoniza quem o pratica fora desses moldes.

Como o ser humano é, por excelência, transgressor, eis que a prostituição surge para afrontar a padronização existente. Ela é antiga. Estudiosos relatam que tal prática data de muito antes da era cristã, mas com nomes e maneiras diferentes em tempo e espaço. Entretanto, há algo que não mudou. Tanto no passado quanto no presente, prostituir-se é um ofício lucrativo. Basta passar em muitas ruas e ver estampadas nas bancas de revistas livros e exemplares especializados nesse gênero. O mundo pornô, responsável pela popularização da prostituição, também invade o campo dos filmes, da mídia aberta e, com o advento da tecnologia, é também disseminado pela rede. Exemplos não faltam, desde filmes como 50 Tons de cinza, passando pelas Brasileirinhas, séries como Gabriela, sites pornográficos diversos, etc.

As ruas também contam com profissionais dispostos a tudo por alguns trocados. São mulheres, homens, travestis, prontos para aliviar as carências dos seus clientes por quantias que variam muito. O sexo é muitas vezes mecânico. Não existe afeto, nem muitos carinhos. Só um enlace de pernas e braços, membros que se encontram e se encaixam para satisfazer suas carências. De um lado pessoas que não encontraram outra alternativa a não ser vender o próprio corpo por dinheiro. Do outro, pessoas infelizes, incompletas e insatisfeitas com as suas vidas sexuais, dispostas a pagar um preço alto para apenas gozar. Sabendo disso, clubes de stripper, de swing, saunas, prostíbulos, puteiros, e uma infinidade de locais emergem do nada para atender a demanda daqueles que preferem a segurança e o sigilo que a rua as vezes não dispõe.

Falar de sexo vendido é lembrar das excentricidades de que muitos são capazes de fazer, apenas para ter poucos minutos de orgasmo. Há poucos anos o Brasil serviu de exemplo para isso, quando uma catarinense resolveu vender a sua virgindade na internet. Na ocasião, uma longa discussão foi feita na rede. Pessoas acharam absurdo que alguém fosse capaz de uma atitude dessas, mas ninguém se choca ao pagar por uma Play Boy, nem por alugar DVDs pornôs para menores, ou por arriscar a vida nas madrugadas atrás de sexo. Coisas essas que são tão excêntricas quanto se vender na net. Ou seja, o que muitas pessoas não perceberam ainda é que todos pagam para fazer sexo, direta ou indiretamente, quando ele deveria ser totalmente filantrópico.

Entretanto, por viver nessas incoerências, a indústria pornográfica é uma das que mais cresce no mundo. Na verdade, ela esbofeteia a cara da sociedade no seguinte tocante: como se aprende a reduzir o prazer a gestação, o sexo só por sexo, sem compromissos nem amarras, choca porque não está dentro do que foi determinado como correto. Ai vem o universo pornô dizer que é possível sim ter prazer, orgasmos diversos, das maneiras mais esdruxulas possíveis, muitas vezes até com mais de uma pessoa. A mídia indiretamente também cumpre um papel semelhante, sobretudo quando coisifica as relações conjugais em suas telenovelas, comerciais de bebidas alcoólicas, Reality Shows, permitindo que o sexo livre seja concretizado, de modo que do outro lado o telespectador, dentro dos seus limites, faça a sua avaliação. É claro que ambos abalam a sociedade mais conservadora, a qual não aprendeu a fazer sexo de graça, mas pagando preços altíssimos para realiza-lo.

Não se pode ignorar também o papel das religiões, sobretudo aquelas de origem cristã. Nelas, temas transversais ao sexo, como aborto, autonomia, prazer, orgasmo, homossexualidade, identidade de gênero, orientação sexual, entre outros, ainda são tratados com muito recato. Há uma repressão sobre tais temas, pois eles desrespeitam os preceitos defendidos por muitas congregações religiosas. Ora, é inegável que não se pode confrontar os pilares de nenhuma religião, por se tratar de espaços com ideologias para muitos sagradas, porém, muitas delas sem notar também lucram com a questão do sexo. Por defender um modelo de vida menos lascivo, muitas religiões galgam fieis prontos para defender e propagar suas ideias, mesmo que isso custe tempo e, em muitos casos, dinheiro. Por isso que se vê hoje muitas igrejas e templos com estruturas colossais, pois são, antes demais nada, fruto da luta delas contra o sexo e sua pluralidade.

Em face a esta questão, há aqueles que rompem com todo esse sistema opressor, defendendo a ideia de um amor livre, livre de leis, regras, das imposições do Estado e da Religião. Por ignorância, muitos classificam como obscenidade, promiscuidade, imoralidade e outras insanidades do gênero. O amor livre, bem como o poliamor, guardadas as suas proporções, são estratégias válidas para desmontar esse comércio imoral do sexo, que precocemente induz as pessoas a pagar por algo que a natureza nunca cobrou: o prazer. Em contrapartida, muito antes de defender a conduta liberal do sexo, é preciso que ele passe a ser ensinado mais naturalmente. É quando a escola se torna imprescindível para a desconstrução de tal tema. A ela cabe naturalizar o sexo, repassando o discurso de que se for feito de forma segura, a pessoa pode e deve conhecer mais de um corpo, antes de decidir se firmar com alguém. Também é papel dela desmistificar os tabus que giram em torno aos temas que resvalam do sexo e de como há pessoas, que por razões diversas, praticam sexo fora do convencional, mas não há nada de anormal nisso.


A anormalidade reside nessa indústria por trás do sexo que faz com que Governo, mídia, mundo pornô e religiões lucrem com o prazer, ou desprazer alheio. Não se pode, após saber disse, perpetuar o sexo fadado ao casamento e a procriação apenas. Quando se faz isso, ignora-se que crianças e adolescentes são explorados sexualmente; pessoas são contaminadas com doenças veneras; mais homens, mulheres e travestis encontram na prostituição uma profissão; a mídia enriquece o seu ibope; o cinema leva mais gente as suas salas cada vez mais cheias; os filmes pornôs passam a ser mais educativos do que prazerosos; buffet de casamentos se proliferam; virgindades continuarão a ser vendidas e corpos serão tratados como objetos, coisa que, infelizmente, já ocorre na prática. Então, sem perceber, um dos maiores prazeres humanos passará a ser disputado na bolsa de valores. Não será surpresa se isso começar amanhã...