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domingo, 25 de maio de 2014

Nada contra: a ironia do Brasil

By On 16:29

Eu realmente não tenho preconceito. Nenhum mesmo. Quando acho que vou agir de forma preconceituosa, falo pra mim mesmo: “Ei, mais respeito rapaz!” E tudo certo! Considero-me alguém à frente do meu tempo e até suporto certas novidades. Baseado nisso, me acho tolerante e respeito muito às diferenças. Como bom brasileiro que sou, faço da cidadania um lema sagrado, algo que todos deveriam fazer também em suas vidas. Acredito na paz, na natureza, no amor ao próximo e outras baboseiras do gênero. Violência P**** nenhuma! Sou calmo demais, qual é? Vai encarar? Tá achando que não sou homem? Deu para sentir que sou a versão mais próxima dos direitos humanos em pessoa. Cheio de virtudes e temente a Deus, penso que só a fé salva o homem e eu, que vou a igreja assiduamente, para garantir meu lugar no céu. Mas, mesmo com tantas qualidades, cá entre nós, têm coisas que não dá para acreditar.

Nada contra os negros, mas garantir cotas por causa da cor da pele deles é um pouco demais, não acham? Sei que eles sofreram um pouquinho no período da escravidão, e tal. Porém, daí oferecer certas regalias a eles é um pouco forçado. Nada contra, mas como branco, desejo preservar o meu espaço de direito nessa sociedade multifacetada e heterogênea, entende?! (Ainda não compreendo como Barack Obama assumiu o maior cargo do mundo) Acho que com tantos privilégios, esses negros estão ficando cheios de direitos. Vai chegar um dia em que eles vão controlar esse país. Nada contra, mas se isso acontecer, seremos obrigados a seguir a macumba deles. Sei que cada um tem sua fé, mas esses cultos satânicos não podem dominar o país, não podem! Sem contar que seremos ainda mais escravizados pela cultura desse povo, desde o samba até o acarajé. Deus nos livre disso acontecer!

Nada contra também as mulheres. Gosto muito delas. Quando as vejo na TV, fico excitado. Nos comerciais, elas sempre aparecem exuberantes. Os publicitários sempre acertam nas modelos. Corpulentas, cheias de curvas, sinuosas e vestidas como o diabo gosta. Nossa, suo toda vez que as vejo. Quando aparecem com uma cerveja gelada, a combinação fica mais que perfeita. porém, nada contra aquelas mais moderninhas e tal, mas ser mulher sozinha, ganhar mais que o marido a ainda assumir a presidência do país,  acho isso demais, sabe! Lembro-me da minha mãe, Amélia, que Deus a tenha. Ela sim era uma grande mulher. Cozinhava de forno a fogão. Lavava, passava e, ainda, costurava como ninguém. Obediente, servia ao meu pai numa devoção invejável. Suportava dores como ninguém. Infelizmente, se foi cedo demais. Espero encontrar uma companheira como ela. Mas, nesse mundinho de intelectuais e popozudas, tá difícil encontrar alguém ideal.

Nada contra os gays. Eu até acho eles legais. Na época do colégio, lembro-me do Fernando (que depois eu e a galera começamos a chama-lo de “nandinha”). Sempre alegre, junto das meninas, ele não gostava muito de andar com a macharada. Logo a minha turma percebeu algo estranho nele. Muito delicado, cheio de mi mi mi, só podia ser veado, tava na cara! Meus amigos tiravam onda da cara dele. Apelidos, então, vieram aos montes. Eu não fazia nada.  Até falava com ele, mas de longe para não dar motivos para chacota. Como falei, não tenho preconceito contra veados, mas cresci como homem e quero que isso seja o futuro para meus filhos (ah, se algum deles virar para o outro lado, eu nem sei...deixa pra lá!). então, como vou explicar para os meus filhos que dois homens podem se beijar? Se casar? Isso não é normal! Vai contra as leis divinas. Não é preconceito pensar assim, é o certo.

Nada contra a pobre. Ninguém tem culpa por ter nascido na miséria. Mas, tem coisa pior do que favelado. Eh, gente feia! São sujos, maltrapilhos. Por mais que se arrumem, nada os deixam mais apresentáveis. E o vocabulário? Minha nossa, é de chorar. Com tanto auxílio governamental disso e daquilo, tantas bolsas, tantas cotas, nada parece melhorar o linguajar e a vida dessa gentinha. Não é de se espantar por que são tão miseráveis. Sequer falam a nossa língua. E os gostos? Se é na música só escutam funk, pagode e outras barulheiras do gênero. Como não pensam feito nós, são levados a gostar desses estilos menos literários. O mau gosto também se estende para as comidas. É churrasco, com direito a muita farofa e fumaça. Quando não, aquela feijoada super insalubre cozinhada com carne de porco e condimentos além do limite permitido pelo nosso estômago. Sem contar a marginalidade desses locais, onde boa parte tem ficha suja, mas prefiro me calar por aqui, para não ser mal interpretado.

Nada contra o nordestino. Esse povo “arretado de bom” do nosso Brasil. Porém, já perceberam que o nordestino é atrasado em tudo? Pois, se olharmos direitinho, vamos notar que tudo no nordeste está em último lugar. As piores escolas do país ficam lá, consequentemente, os índices mais baixos em educação. Por essa razão, são uns completos ignorantes. A população passa fome. Água lá é um artigo de luxo, já que a seca domina boa parte dessa região. O calor é de rachar. Eles falam arrastado, como se estivessem cantando. Tenho um conhecido que veio de lá para morar aqui no sul do Brasil. Seu nome é Francisco, seu Chico para os íntimos. Toda vez que falamos sobre o nordeste, ele enche os olhos de saudade de sua terra. Eu, do outro lado, fico imaginando do que ele sente tanta falta. Será que é da seca? Da fome? Da miséria? Acredito que não, se não ele não deveria ter ficado por lá. Numa região que nada tem a oferecer, é melhor ficar por aqui na cidade grande e tentar mudar de vida.

Os preconceitos acima são alguns dos muitos que listam a ironia de se morar no Brasil. As pessoas não percebem quando estão cometendo algum preconceito, porque olham para o outro a partir de um ponto de vista confortável, geralmente assegurado pelos grupos majoritários da sociedade. Enquanto isso, do outro lado, estão aqueles que desejam ser respeitados para além das suas “diferenças”. Felizmente, muita coisa tem mudado com relação aos negros, mulheres, gays, pobres, nordestinos e tantos outros grupos estigmatizados socialmente. Porém, a estrada para assegurar a dignidade a esses grupos ainda é longa. Lamentavelmente, o negro ainda é discriminado pela sua cor e sua cultura. A mulher é vista por muitos como “sexo frágil” e submissa ao homem. Os gays são tratados como aberrações e morrem aos montes, pois falta uma legislação que os ampare nesse sentido. Os pobres, então, vivem de assistencialismo, enquanto os seus reais problemas não são, de fato, solucionados. E, por fim, morar no nordeste é viver à margem de tudo.


Enquanto isso, fingimos que não temos preconceito contra nada, nem ninguém, mas basta uma análise mais apurada para ver que não é nem assim. Mesmo sabendo que todos nós possuímos algum preconceito, é sempre bom pontuar que há muitas pessoas que lutam para corrigir os seus, no intuito de buscar um maior entendimento da vida e do ser humano em si. Na verdade, a frase “nada contra” deveria ser substituída por “sou contra”. Ser contra a violência deflagrada pelo racismo, a qual não entende que o caráter de uma pessoa não é medido pela melanina de sua pela. Ser contra ao machismo herdado pelo patriarcado, que insiste que mulher é objeto em todos os sentidos. Ser contra ao preconceito contra os gays e essa insistente violência em torno da pluralidade sexual deles. Ser totalmente contra a pobreza que marginaliza as pessoas que mais precisam, tirando delas a chance de ter um futuro melhor. Ser contra também ao preconceito regional social, religioso e cultural. Então, quando unirmos forças contra tudo isso, o nada contra deixará de ser ironia e se tornará uma piada.

domingo, 18 de maio de 2014

Mulher bonita não paga, mas também não leva.

By On 16:06

Casas noturnas, restaurantes, táxis. Seja no primeiro encontro, um jantar romântico ou numa balada, é comum vermos casais em tais ambientes, geralmente em comemoração a algo comum a ambos. Tão comum também nesses eventos casuais é a pessoa que paga a conta. Numa cultura altamente machista como a nossa, aqui no Brasil muitos são os casos ainda em que o homem é que deve fazer as honras da noite. Isso acontece, porque muitas mulheres guardaram a herança patriarcal, da qual diz que ele deve ser o cavalheiro em todas as instâncias e ela, como boa acompanhante, deve apenas aguardar que ele exerça seu papel como manda o figurino. Com isso, a discussão em torno da igualdade de gênero perde força, visto que enquanto uns buscam teorias para igualitar os seres humanos, na prática outros caminham na direção inversa a isso.

E por que mulher não paga? Este questionamento é antigo e suscita antigas questões em torno dos fadados temas, feminismo e machismo. O dito popular, de forma ambígua, responde tal questão dizendo que, em muitos casos, a mulher não precisa pagar. Essa não precisão decorre de uma cultura que apregoou nelas uma passividade em todos os sentidos, até na hora de dividir a conta. A rigor, porém, o “cavalheirismo” masculino trata de assumir o papel de pagante, para cumprir uma conduta, uma regra social. Tal atitude guarda intrinsecamente mensagens perversas em torno dos papéis de gênero na sociedade, a partir do momento que confere poder a ele e subserviência a ela. Além disso, ressuscita na sociedade o patriarcado outrora adormecido, quando as fêmeas submissas dependiam completamente dos seus tutores, inclusive no quesito financeiro.

Com isso, muitos estabelecimentos oferecem entrada franca às mulheres, principalmente quando estas são solteiras. É uma forma de atrair rapazes, que possam consumir entre tantas coisas, também as mulheres presentes. Essa objetivação feminina, muito comum em nosso país, não é percebida, pois naturalizamos a postura de muitas baladas e casas de shows que simplesmente dizem que ela não paga e quando paga é um valor inferior ao dele. Nisso, há outra mensagem perigosa que ratifica as perdas e ganhos dos gêneros no Brasil. Infelizmente, mesmo com a ascensão feminina em vários setores, muitas ganham bem menos do que os homens, sobretudo quando exercem funções semelhantes. Ora, então quando ele paga para ela fica claro o poder masculino no quesito financeiro, já que como elas recebem menos devem pagar menos, ou melhor, não pagar.

E essa passiva postura feminina é seguida à risca por muitas. Basta ir a vários ambientes badalados para verificar que elas se submetem a serem iscas dessa cultura machista. Evidentemente que muitas vão, mas por pura inconsciência, exercem esse papel passivo sem ao menos se darem conta disso. Por reproduzir os ditames historicamente estabelecidos, elas se deixam ser pagas por homens que começam oferecendo um drinque, que desemboca num jantar e pode acabar na cama. Neste momento, a questão não se relaciona com a prostituição, pois esta guarda em seu íntimo outras definições e contextos específicos. A mulher em voga não é a promíscua, mas a interesseira moderna, aquela que sai na noite em busca do homem que além de lhe dar carinho, atenção, deve bancar todos os gastos oriundos desse encontro.

Nessas horas, o ditado popular em torno delas ganha múltiplas explicações. “Mulher bonita não paga, mas também não leva”. Realmente, não leva, em partes, pois muitas levam sim: um assovio debochado, uma cantada vulgar, uma alisada no cabelo, uma tapinha na bunda, uma noite de prazer, entre tantas outras atitudes mais ousadas. O que elas não levam para casa é o respeito necessário para sair na noite sem o rótulo de objeto estampado nos olhos de muitos homens e nos letreiros de diversos clubes. Não levam também a autonomia conquistada com muita luta, para pagar suas próprias contas sem precisar da carteira masculina para isso. Sem contar que reforçam nestes locais o machismo operante na sociedade, o qual aparece sempre nessas pequenas trivialidades do cotidiano. O dito popular é perigoso, ainda, por destacar que as “mulheres bonitas não pagam”, ou seja, e as feias? Quem paga por elas? A resposta é simples: ninguém paga, pois não há ninguém disposto a custear a “feiura” de uma mulher.

Entre as casadas, ou com relacionamentos firmes, há coisa caminha de forma semelhante. Muitas não dividem a conta do restaurante, não pagam a entrada dele na balada, nem cogitam a possibilidade de financiar a maior parte do taxi, mesmo que em alguns casos ganhem bem mais que seus cônjuges. Elas foram ensinadas a pagarem menos, quiçá nada. Orientadas pela família a pela sociedade a serem a parte frágil também neste quesito. Sem contar que, do outro lado da moeda, há muitos homens educados de forma semelhante. Eles também são preparados para serem responsáveis por todos os gastos oriundos de uma relação. Não lhes foi ensinado a partilhar, mas sim a pagar. E isso não se resume apenas aos primeiros contados de um determinado casal. Esta conduta se perpetua ainda nos papeis homem e mulher após o casamento, quando ele fica responsável pelo provimento do lar e ela amarga a alcunha de dona do lar.

Felizmente, muitas mulheres subvertem esse papel e custeiam suas saídas na noite, quando são solteiras, sem nenhuma vergonha. Outras dividem sem problema a conta com o companheiro e, em alguns casos, até pagam a parte dele sem constrangimento nem ar de superioridade por isso. Eles, cientes de que é uma divisão e dotados de mente aberta, não se importam em partilhar com elas as contas, até porque se relacionar é compartilhar, desde os sentimentos até as dívidas. Conscientes de que não há uma obrigatoriedade nessa questão, mas sim relatividade, muitos casais conseguem modelar uma rotina menos pesada para ambas as partes no quesito financeiro. No país, por exemplo, já tem muitas residências, onde as mulheres trabalham e os homens, sem tabus, assumem as tarefas domésticas. Isso só é possível quando não se delimita os papéis de gênero, naturalizando a postura de cada um dos elementos envolvidos, sem os ditames impostos pela sociedade.


Por tudo isso, entendemos que homens e mulheres têm capacidade suficiente de se auto sustentarem sem precisar se ancorar no outro para financiar seus prazeres. Elas, em especial, precisam se desapegar dessa cultura submissa que volta e meia insistem que elas são inferiores a eles e, por isso, devem se submeter a determinadas regras impostas pelo sexo alfa. Numa sociedade onde a ascensão feminina ganha mais espaço, é de se esperar que assumam também as rédeas de suas finanças, sem a sombra masculina. Logo, é incoerente encontrarmos mulheres que acham “elegante” a ideia de que eles sempre devem pagar e elas não. O que deve estar em foco é o consenso nessa questão e não a obrigatoriedade. Pois, a partir do momento que homens e, sobretudo mulheres, entenderem seus reais papeis na sociedade, talvez as palavras machismo e feminismo se tornem, enfim, palavras arcaicas em nossos anais.

domingo, 11 de maio de 2014

Os perigos do funk ostentação

By On 16:05

De todas as artes existentes, talvez a música seja a que mais toca a alma humana. Por retratar dilemas sentimentais e sociais, ela emociona, choca, nos faz pensar na vida e, em alguns casos, até nos aliena. A partir deste último ponto, poderíamos mencionar diversos estilos musicais, atuais e de outrora, que foram responsáveis pela alienação de grande parte da sociedade brasileira. A rigor, no entanto, é importante destacarmos um gênero musical que tem ganhado extrema visibilidade no país atualmente, o funk ostentação. Nele, pessoas de comunidades carentes assumem o papel de poderosos endinheirados e propagam em suas letras uma vida bem distinta da vivida por alguns deles mesmos fora das luzes da ribalta. Com isso, uma perigosa mensagem é perpassada por esses artistas que, talvez, inconscientes e inofensivamente estejam propagando um modelo de vida, do qual ostentar, a todo custo, é a palavra de ordem.

Segundo a definição dicionarizada, a palavra ostentação significa “ação ou efeito de ostentar, afetação na ação de exibir riquezas ou dotes”. Numa sociedade onde a pobreza ainda não foi erradicada nem minimizada, soa contraditório encontrar indivíduos que esbanjem bens, enquanto outros vivem à míngua. Mais incoerente ainda é quando pessoas que se enquadram nos grupos mais miseráveis da escala social fazem de tudo para ostentar benesses superficiais, como se quisessem incluir-se em um mundo onde o ter é mais importante do que qualquer coisa. É o que acontece hoje com o chamado funk ostentação. Nele, os Mcs, como são conhecidos, incorporam os personagens dos quais o poder brota do exibicionismo monetário, na tentativa de inserir-se na atmosfera daqueles que na sociedade só tem valor se tiverem posses. Isso acontece, porque, infelizmente numa nação apartada pela pobreza, muitos indivíduos procuram se refugiar no ilusório mundo onde o sonho de ser rico passa a ser realidade por alguns instantes.

Casarões, carros importados, joias, bebidas, mulheres bonitas e, claro, muito dinheiro, é o que enfatiza as letras e clipes desse gênero musical. Uma mega produção é criada para retratar o onirismo desses cantores, com direito até da participação de famosos. Entretanto, falta em algumas letras à ideia de como um jovem, que vive à margem da sociedade, irá conquistar tantas riquezas da noite para o dia. Fora do subjetivismo musical, sabemos que para enriquecer num país como o nosso é preciso nascer em berço de ouro, herdar milagrosamente alguma herança, ganhar na mega sena, virar celebridade instantaneamente, fazer parte da política corrupta do país, jogar futebol ou cometer atos ilícitos. De todos estes, talvez seja o último que leve muitos adolescentes a esbanjar o que não podem, sobretudo através do submundo do crime, controlados nas favelas pelas armas e pelas drogas.

Cercados pela pobreza e, muitas vezes sem perspectiva de vida, muitos jovens se encantam com esse universo de faz de conta da ostentação e acabam fazendo de tudo para se incluir nele. Evidentemente que nem todos ingressam na marginalidade para mudarem de vida. Muitos são os casos em que os indivíduos, através da música como os Mcs, conseguem ascensão social de forma honesta. Agora, o público, incipiente e facilmente manipulado, nem sempre absorve de forma correta a mensagem das letras do funk que tem como foco ostentar um modelo de vida discrepante do grande público. Como explicar, por exemplo, a uma criança de oito ou dez anos de idade, fã desse gênero musical e moradora das grandes favelas do país, que ostentar só é válido se, e unicamente se, o indivíduo for capaz de adquirir suas riquezas através de muito suor? Além disso, como, a partir do funk atual, minimizar a marginalização desses infantes que, vivendo hipnotizados nesta sociedade de consumo, não veem outra alternativa, a não ser melhorar de vida, custe o que custar?

Essas questões parecem ter sido tangenciadas por alguns Mcs, preocupados apenas em retratar seus sucessos pessoal e profissional através de suas músicas. Muitos deles nem sequer vivem uma vida de luxo. Ao contrário disso, boa parte ainda não saiu da comunidade onde mora e sobrevive dos shows que fazem nos famosos bailes funks. Nessa Neverland periférica, é compreensível a priori, a atitude desses rapazes. Como não sonhar com um mundo de luxo, onde não haja mais fome, miséria nem violência. Um lugar maravilhoso com fartura em alimento, casas confortáveis, um carro e, se possível dinheiro extra para gastar. Uma favela imaginária, recriada a partir do desejo desses indivíduos que nasceram num país onde ser favelado é ser desfavorecido de todos os direitos mais básicos da cidadania.

É por isso que, a posteriori, fica fácil entender o fenômeno do rolezinho que causou, e ainda causa, polêmica no Brasil. Nada melhor do que o shopping, epicentro do consumismo e, por isso, da ostentação, ser o palco para os protagonistas das regiões mais pobres do país estrelarem. Nele, os rolezinhos invadiram e foram marginalizados, pois não houve um entendimento por parte da sociedade sobre o porquê desses jovens, repentinamente, terem invadido um espaço destinado a outras classes sociais. A multidão de renegados representava a revolta de um grupo social cansado de ser esquecido pela outra grande metade da sociedade acostumada a tratar os favelados como marginais. Ao mesmo tempo, no contexto musical, não podemos esquecer que na cultura do funk ostentação, estes jovens podem tudo para realizar seus desejos de consumo, inclusive invadir espaços públicos como o shopping, para deleite deles e desesperos dos presentes.

Os perigos do funk ostentação residem, portanto, na ausência de explicação das letras musicais, das quais o ter está nitidamente acima do ser. Também é perigoso, em qualquer escala social, difundir o consumismo a todo custo sem explicar como o indivíduo deverá conseguir tanto dinheiro para viver uma vida regrada a luxo. Sabemos que a música quer passar uma mensagem e, no caso do funk ostentação, a palavra de ordem é superação. E isso é valido, pois não há nada mais significativo do que buscar alternativas para mudar de vida. Porém, o hedonismo dessas canções não pode ser tomado como regra por uma sociedade ainda cerceada pela pobreza e controlada pelo crime organizado. O prazer, de que todos buscam e tem direito, deve vir com muito trabalho e não do “nada”. Se isso não ficar bem marcado em nossas mentes, muito em breve veremos indivíduos diversos fazendo de tudo para ostentar o que não têm. Se é que isso já não esteja acontecendo.

Era só mais um Silva

By On 15:54

O simplismo do sobrenome Silva é mais um dos muitos legados portugueses no Brasil. Entre os colonos, tal palavra é comumente conhecida por caracterizar as famílias de menor prestígio social. No nosso país parece que esta classificação, pautada no nome, ainda resiste. Por aqui, ser da Silva é o mesmo que não ser ninguém, como se a palavra guardasse em seu íntimo um que de indigência. Por causa disso, nossos Silvas, geralmente pobres, negros e favelados, são dizimados pela sociedade, alargando as estatísticas em torno do aniquilamento das minorias.

Para provar isso, o Brasil acompanhou há poucos dias na mídia o caso do dançarino Douglas Rafael da Silva, assassinado a tiros no Rio de Janeiro. Ele que foi baleado por ter sido confundido como um bandido e, por isso, teve a vida interrompida aos 26 anos idade. O que chama atenção nesse caso é que o rapaz não foi morto apenas por uma duvidosa ação policial. Ele morreu, como se morre nesse país, por ser minoria. No caso dele três: pobre, negro e funkeiro, cada uma destas intimamente ligadas com a desigualdade social que ainda assola o país.

Não é necessário, a priori, de estatísticas capazes de comprovar o índice de mortandade entre os marginalizados do país. Porém, para os mais céticos, uma pesquisa divulgada pelo Ipea, publicada na Revista Carta Capital, trouxe dados alarmantes. Segundo a publicação, em 2013, mais de 50% dos crimes seguidos de morte tinham a população pobre como vítima. Deste número 70% eram negros. Essa vitimização é fruto do descaso social e governamental vivido por esses grupos. Sem uma real proteção, quem se enquadra nos predicados minoritários acaba sendo alvo fácil de crimes desse tipo.

Mesmo não tendo o racismo como palco central do assassinado do dançarino, ele se apresenta implicitamente na questão do emblema social do qual os negros ainda são rotulados. Por ser negro, vestir-se com trajes simples, o rapaz foi visto como o protótipo negro da cultura brasileira, aquele que é malandro e, por essa razão, bandido. Semelhante ao ajudante de pedreiro, Amarildo, arrastado por policiais e que até hoje está desaparecido. Amarildo não tem o Silva no nome, mas se configura como negro, tal qual Douglas e isso já faz desses dois personagens seres sem direitos a própria vida.

Nessas mortes, a localidade onde morava cada um dos personagens conta muito, bem como a sua cultura. A favela, para muitos, é o berço do crime, da bandidagem, local onde a ilicitude fincou raízes tão profundas que até hoje o poder público não foi capaz de tomar uma providência. Entretanto, o que muitos não se perguntam é como a favelização se tornou tão periculosa no Brasil e por que nada é feito para minimizar os dilemas desse povo. Simplesmente, nunca houve um trabalho voltado para quem vive à margem e o resultado disso é a brutalização de um povo que, sem direitos, tenta a todo custo sobreviver nesta sociedade, mesmo que de forma ilícita.

Tal clandestinidade criou na favela uma cultura transgressora, representada pelo funk carioca, mesmo ritmo dançado pelo Douglas. Com batidas envolventes e letras retratando os dilemas da comunidade, essas músicas ganharam o país com funkeiros e os mais atuais Mcs. Nelas, a dor de um povo carente de tudo serve de repertório para extravasar os clamores dessa gente que não é ouvida. Dentre tantas, uma parece ser bem interessante para as mortes dos tantos Silvas: Rap do Silva. Parece apropriado retirar dela o verso que diz "era só mais um silva que a estrela não brilha, ele era funkeiro mas era pai de família".

E era mesmo. Douglas deixou uma criança que vai crescer sem pai, tudo porque esse rapaz nasceu numa sociedade onde ser pobre, negro e funkeiro é sinônimo de não ter direito. Além disso, ele era da Silva, sem eira nem beira, mais um entre tantos outros indigentes sociais, que ainda não morreram, mas quando chegar a hora, serão eternamente esquecidos. Pessoas de boa índole que são assassinadas e nada é feito para, pelo menos, criminalizar os reais culpados. Enquanto nada de significativo é feito, a sociedade assiste, chocada e passiva, a morte abrupta e prematura de rapazes e trabalhadores, como Douglas e Amarildo, de pés e mãos atadas.

Nesse emudecimento social, quem mais sofre com a insegurança são aquelas pessoas que, como os atores desse texto, nasceram pobres, negros e dentro de uma cultura que só é cultuada quando é conveniente. Já está na hora da população dar um basta nisso. Por isso, não dá mais para derramar lágrimas a cada novo cadáver inocente que ensanguenta a mídia. O que o dançarino queria, semelhante ao ajudante de pedreiro, era apenas liberdade. Ser livre para ser eles mesmos, com a simplicidade individual, características físicas e gostos culturais. Livres para ir r vir, nesse país onde a liberdade é para poucos. Eles queriam representar o refrão de outro funk que dizia "eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci, e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar". É, e o pobre tem um lugar, mas não é no topo da pirâmide do país, infelizmente.

Uma banana para o preconceito

By On 15:48

A manifestação do preconceito assusta por ser um ato de total ignorância e desconhecimento. Por causa desses dois ditames, muitos indivíduos diferentes servem de alvo para todo o tipo de violência, a qual geralmente não tem os reais culpados punidos. Nesse sentido, agir de forma preconceituosa contra quem quer que seja já é abominável e é ainda pior quando é praticado em espaços onde reina a confraternização. Um desses locais eram os estádios de futebol. O verbo no passado está bem empregado, porque infelizmente o campo deixou de ser um lugar amistoso para se tornar a arena do preconceito.

Era para ser apenas mais um jogo de futebol. Time em campo, torcedores lotando a arquibancada e então eis que surge algo no ar. Como uma granada arremessada para atingir um inimigo, alguém lança ferozmente um objeto que, comumente, não é utilizado como arma. Rapidamente o projétil chega perto do alvo, o qual resolve comê-lo. Para deixar mais claro, enganou-se quem pensou numa bala, ou qualquer outra coisa do gênero. O objeto misterioso foi uma banana. Isso, aquele fruto super nutritivo foi usado como arma contra o jogador Daniel Alves. Ele que não pensou duas vezes e engoliu a ofensa goela abaixo.

O jogador, que é negro, recebeu de um torcedor a ofensa racista na forma de uma banana. Fato este que, infelizmente não é isolado. Em times europeus, dos quais há uma predominância de atletas de cor branca, quando há um negro, este acaba se tornando alvo de racismo. Na europa, esse ato criminoso vai ser punido. Entretanto, a questão não se resume a uma punição. A incoerente atitude dos torcedores, que vivem entre a adoração e a repressão, denota que nem o futebol está imune de ser palco de violência, mesmo sendo conhecido por agregar pessoas de diferentes definições sociais.

Se em países de primeiro mundo isso ocorre, imagina no Brasil. Por aqui, atletas futebolísticos sofrem por serem negros e são agredidos verbalmente no exercício de suas funções. Numa busca rápida pela internet é fácil de encontrar jogadores de diversos times que passaram por situações como essa. Para ilustrar, muitos lembram do lateral esquerdo Roberto Carlos, que sofreu racismo quando atuava pela Rússia. O que ele tem de semelhante com Daniel, além da cor da pele, é a marginalização do seu trabalho baseado em uma ideia de raça, se é que tal palavra ainda exista.

Isso ainda acontece, porque infelizmente não há um trabalho voltado para a valorização da cultura e do povo negro. Ao invés disso, a negritude é vista como inferior, subserviente e marginal, bem como tudo o que está em sua volta. Ou seja, quando alguém de pele negra assume a sua identidade negróide, desde o cabelo afro, aos gostos musicais e religião, acaba sendo posta à margem, ou, no caso do Daniel, igualado a um macaco. Com isso, no futebol, testemunhar atitudes animalescas como estas de torcedores deixa claro que estes não sabem ou ignoram a origem dos seus atletas.

Os grandes ídolos desse esporte são negros, desde Pelé até o Neymar. Eles e muitos outros vieram de comunidades carentes e conquistaram um lugar ao sol se tornando grandes craques para muitos. Além disso, eles serviram e ainda servem de modelos para muitos, principalmente crianças, negras e pobres, que buscam um futuro melhor, longe de armas, drogas, violência e morte. Tudo isso com a garra de atletas negros, reconhecidos dentro e fora dos gramados nacionais. Ora, então quando algum torcedor ataca um jogador negro ele, incoerentemente, está violando o seu papel no campo de respeitar quem está jogando, independente da cor da pele, ao passo que também desrespeita sua herança histórica, já que na nação não há ninguém cem porcento branco ou negro.

Nesse Brasil repleto de preconceitos, a discriminação vivida pelos negros beira a burrice. Os indivíduos que nutrem esse tipo de pensamento ou vivem com a cabeça nos tempos nefastos da escravidão, ou são tão ignorantes ao ponto de desconhecer todo o trajeto dos negros no país, o qual inclui sofrimento e um riquíssimo legado. Pior ainda é quando esta conduta negativista é aplicada em jogos futebolísticos, onde deveria reinar o espírito de competitividade salutar. 

Então, quem quer jogar a favor do preconceito é bom saber que perderá a partida. As minorias ganham a cada dia o seu espaço na sociedade, e com os negros não serão diferentes. Eles não devem ser tratados como animais, apenas pela quantidade de melanina na sua pele. Nem como criminosos, confundidos duvidosamente como bandidos e mortos por isso. Na luta contra esse tipo de opressão, a sociedade deve dar uma banana para quem pensa que negro é bicho. Uma banana para quem desvaloriza o legado e a ancestralidade do povo negro. E uma palma de banana bem grande para o governo, que não investe em políticas afirmativas educacionais em prol desse povo. E, por fim, cartão vermelho e uma banana para quem insiste em dizer que negro é inferior. Qual é a sua real cor afinal?

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