Enter your keyword

domingo, 30 de março de 2014

Você gostaria de ser estuprado?

By On 17:04

Vamos imaginar a seguinte situação, muito comum em várias partes do Brasil. Uma moça, sem nenhum ligação com a prostituição, resolve sair de casa vestida com trajes mais leves. Uma blusa mais ousada, mais um short, sandália de dedo e uma bolsa. Ai, ao passar pela rua, alguém se sente no direito de atacá-la, de despi-la, de usufruir do seu corpo, apenas porque seus trajes eram “convidativos”. Disto é que são vítimas muitas meninas país afora. Nossa cultura patriarcal e indiscutivelmente machista propaga a ideia de que elas devem ser recatadas no quesito roupa, pois ao transgredir essa regra a penitência é ser estupradas, verbal ou fisicamente na rua, ou olhadas de soslaio por homens e mulheres que agregam valor ao ser humano, a partir de sua aparência.

Após a liberação sexual feminina, esperava-se que a sociedade se encaminhasse para rotas longe desses ditames, que inferiorizavam as mulheres no passado. Elas que conquistaram arduamente o direito de usar anticoncepcionais, de votar e de serem eleitas, mas, na atualidade, ainda sofrem com o estigma das vestes. Se antes a polêmica era em torno do biquíni, da minissaia, hoje tais peças não incomodam os presentes. Porém, outras indumentárias mais decotadas, ou com um que de sensualidade, denotam a vulgaridade existente na pessoa que as usam, alçando-as ao patamar de presas fáceis nessa sociedade onde ser mulher significa alvo fácil na mira dos caçadores; muitos deles homens. Sem contar os moralistas, que se apoiam no exterior do ser humano feminino para rotula-lo erroneamente, a partir da roupa que se usa.

E para quem duvida, o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgou há poucos dias um estudo dizendo que 65,1% dos brasileiros acreditam piamente que uma mulher vestida com roupas curtas “merece ser estuprada”. A palavra merecimento é muito perigosa nesse contexto, pois dá ideia de que elas conquistaram o direito de serem violadas, sem defesa nem questionamentos, visto que estão trajadas de uma forma que desatina as normas sociais. A meritocracia, defendida por alguns, coloca mais uma vez as mulheres na antagônica posição do “sexo frágil”, aquele que deve se calar diante do “sexo forte”, de seguir seus preceitos, ou apenas servir aos desejos dos homens, seres superiores em tudo, inclusive no sexo. Este último quesito é um dos principais tabus enfrentados por elas na sociedade. Educadas a não sentirem nem terem prazer, as mulheres nascem, crescem e se reproduzem mecanicamente na sociedade sob a sombra dos homens, já que a elas foi facultado apenas servir, sobretudo na cama. Ou seja, fugir disso é ser chamada de vadia, e derivados do gênero.

Esse levantamento traz à tona também outra questão: a persistente perseguição da sociedade contra a mulher. Se antes elas eram bruxas, queimadas na fogueira, agora a penalidade é o estupro. Tal violação, segundo a maioria que opinou na pesquisa do IPEA, é algo natural, visto que muitas procuram ser agredidas nas ruas. Estes indivíduos parecem que não tem uma noção plena do que é ser estuprado. Vítimas dessa atrocidade relatam ser uma das piores experiências em vida que um ser humano pode passar. Ter alguém rasgando sua roupa, penetrando seu corpo, posse esta que ocorre de forma selvagem, pois quem é adepto dessa prática pouco se importa com a vítima, apenas quer saciar sua vontade, não importando a que preço. Mais preocupante ainda é saber que entre os defensores desse horror estão muitas mulheres. Na realidade, isso só evidencia o grau do machismo operante no país, do qual nem elas estão imunes.

Vale ressaltar, nesse sentido, o moralismo hipócrita de que se valem alguns para defender a tese de que mulher vestida sensualmente deve ser estuprada. Muitas vezes, os indivíduos que se sustentam em ditames tão rasos como esses, o fazem por puro recalque. Não se pode classificar alguém de vadia baseado só na roupa que ela usa. Há tantas pessoas por ai que se vestem de paletó e gravata e roubam, matam, cometem atrocidades mil, sem precisar tirar nenhuma peça do corpo. Há aqueles e aquelas que, trajados do pé a cabeça, são bem mais promíscuos do que aquele rapaz sarado que se mostra na praia ou da garota que se exibe na rua com trajes minúsculos. Logo, se ancorar no externo para desvendar o interno de uma dada pessoa é uma tática perigosa e passível de erro, uma vez que, muitas vezes nem tudo o que parece é.

Aos moralistas, ainda, cabe outras colocações. Exigir que nossas garotas andem com roupas mais compostas não vai resolver a promiscuidade feminina, nem tão pouco masculina. Nossos jovens precisam é de um trabalho voltado para a sexualidade humana em toda a sua pluralidade. Se, desde cedo, eles fossem ensinados a respeitar os gêneros opostos, talvez essa soberania masculina não existisse. Talvez o ser mulher não fosse subjulgado por coisas tão supérfluas. Entretanto, o que a nossa cultura herda é o modelo feminino estigmatizado, ora a dona de casa, comportada e recatada, ora aquela que foge a regra, a prostituta, desvairada, sem eira nem beira, a que serve apenas para ser usada, xingada, humilhada e, por que não, estuprada por aqueles que perpetuam esse maniqueísmo. Por causa disso, outra pesquisa feita pelo IPEA em 2013 relatou que mais de 50 mil mulheres foram mortas no país. Depois de ouvir a naturalização do estupro da boca de alguns fica fácil entender a razão de tantas mortes.

Ora, no país onde elas são musas de times de futebol, de campanhas de cerveja, estrelam capas de revistas voltadas ao nu masculino, estão na praia em micro peças, se incomodar porque estão com roupas sensuais é um tanto controverso. Os que julgam esse quesito não são tão atentos como deveriam, pois basta ligar a TV ou passear por pontos badalados para verificar que os temos mudaram e, com ele, a quantidade de roupa. Por essa razão, é contraproducente taxar nossas moças, que vivem no meio dos trópicos, a se vestirem de forma mais “adequada” para não serem agredidas. O que deve aumentar não é a roupa feminina, mas o respeito masculino. Eles devem ser orientados a não invadir o espaço delas, sem permissão. Aprender que elas são independentes nas suas escolhas e não seres que existem apenas para o usufruto deles. Perpetuar para elas também essa autonomia e autoconfiança, pois só assim conseguiram se firmar nessa terra sem lei e dominada pelos homens.

A posteriori, essa pesquisa teve pontos importantes. O primeiro deles foi constatar que existem pessoas que vivem no século 21, mas com a cabeça no 16. Bom saber que a ignorância no Brasil é medida em número, já que mais da metade dos brasileiros opinaram a favor do estupro e não do respeito e da tolerância. Bacana ver que por mais que haja esforço das ONGs em desconstruir o preconceito e a violência contra as minorias, há centenas e milhares de pessoas nadando contra a maré. Essas ironias servem apenas para que possamos refletir sobre o modelo de sociedade que estamos deixando para as futuras gerações. Uma sociedade limitada, desinformada, preconceituosa e assumidamente violenta. Agora já temos ciência das deficiências do país nesse sentido, basta potencializar a educação para reverter tal realidade, mesmo que seja a longuíssimo prazo.

Portanto, sentenciar alguém ao estupro é um ato falho, que vai de encontro aos direitos humanos e, sobretudo com o dever universal de respeitar o semelhante, independente da postura que ele exerce na sociedade. Mais importante ainda é valorizar o ser mulher e destacar que ela não é fantoche dessa sociedade centrada no macho, para ser vítima de violência gratuita e despropositada. Antes de tudo, é preciso entender que cada pessoa tem a autonomia de se vestir como quer, pois isto não vai caracterizá-lo como inferior ou superior. No caso das mulheres, o fato de uma usar trajes mais sensuais não dá abertura para ninguém bulinar seu corpo ou taxa-la de vadia. Mais respeito com as prostitutas, pois elas são honestas e pagam suas contas sem precisar inferiorizar ninguém. Mais respeito com as mulheres que se sentem livres para usar o que querem e se arriscam nesse país que vive uma eterna incoerência: apela constantemente para o sexo na música, na mídia, na cultura em si, porém, paga de bom samaritano quando alguém usa algo “fora do comum”. Dessa forma, antes de ser algoz se coloque no lugar da vítima e se faça a seguinte pergunta: Você gostaria de ser estuprado? Com certeza, não! Sair da zona de conforto é estar no lugar do outro, experienciar a sua dor, vivenciando-a. Só assim entenderemos o que é ser minoria.

domingo, 23 de março de 2014

Guardado a sete chaves

By On 15:09

Certa vez, um amigo me telefonou dizendo que queria conversar algo comigo. Curioso, perguntei prontamente do que se tratava. Ele, no entanto, limitou-se a dizer que era algo muito sério e que só poderia me contar pessoalmente. Fiquei superaflito e imaginei zilhões de coisas. Será que ele está com uma doença terminal? Será que cometeu algum crime e agora quer se confessar? Será que ele é gay e resolveu sair do armário? E as perguntas continuavam a brotar da minha mente, ao passo que eu esperava o grande dia da revelação do meu amigo.

Sua ligação foi numa segunda pela tarde, mas o nosso encontro só aconteceria no sábado de manhã, pois nem eu nem ele tínhamos tempo para nos ver antes disso. Fui trabalhar e a ligação dele ficava martelando na minha cabeça. Comentei com alguns amigos em comum para saber se eles poderiam adiantar o teor da conversa. Nada. Ninguém sabia o porquê da repentina ligação. Outros, porém, arriscaram alguns palpites, mas todos semelhantes aos meus.

Acho que qualquer mortal fica agoniado com a possibilidade de saber de um segredo. Quando alguém diz: “Eu preciso falar algo com você” é como se estivesse ligando o botão da curiosidade existente em cada um de nós.  Depois de acionado, esse mecanismo nos atormenta até que seja revelado o tal segredo. E comigo não foi diferente. Passei a semana toda sem dormir direito. No trabalho, fiquei várias vezes disperso, imaginando o que ele tinha para me contar. Em casa, minha família percebeu a minha inquietação e começou a perguntar a razão da minha ansiedade. Respondia vagamente que estava bem. Mas não estava.

Ansiosamente incontrolável, o desejo de desvendar o papo que só teríamos no sábado me levou a procurar meu amigo antes da data. Liguei para o telefone dele e nada. Apenas a chata caixa postal e a sua entediada mensagem. Sem pensar em desistir, fui até a casa dele a noite pós o trabalho. Não era tão longe, apenas algumas quadras da minha casa. A cada passo, podia sentir o meu coração bater em compasso com meus pés. Me aproximo da casa dele e bato a porta. Bato uma, duas, três vezes, e ninguém responde. Bato com mais força, tão forte que uma vizinha assustada aparece e diz que não há ninguém na casa.

Frustrado, mas ainda curioso, fiquei me perguntando aonde teria ido parar meu amigo. Ele não tinha hábitos inusitados. Pelo contrário, costumava ir de casa para o trabalho e não era do seu feitio não atender o telefone e não está em casa aquela hora. Então, perguntei à vizinha se ela tinha notícias do paradeiro dele. Desconfiada, ela perguntou quem eu era. Respondi que era amigo dele e me apresentei para a senhora. Após isso, ela resumiu-se a dizer que meu amigo tinha entrado num estranho carro pela manhã e ainda não tinha voltado. Indaguei se ele estava acompanhado. Ele disse que não viu ninguém, apenas o carro de portas abertas e meu amigo entrando nele.

Ao sair de lá, pensei com mais calma e disse para mim mesmo que não era nada de mais. Talvez uma nova namorada que foi buscá-lo em casa para sair. Talvez um homem importante para um jantar de negócio. E fiquei fazendo especulações para enganar a minha mente e desviar a minha curiosidade sobre tudo isso. Tentei também de todas as formas diminuir a minha ansiedade. Estava muito tenso com a possibilidade de saber algo inusitado sobre o meu amigo. Não que eu fosse fofoqueiro. Longe disso. Pouco me importa a vida alheia e os seus segredos guardados a sete chaves, porém, desde quando recebi aquela ligação, percebi que faço parte do grupo das pessoas que, se não são curiosas, tem todo o aparato para ser.

E passou a quarta, a quinta. Quando chegou a sexta feira a noite, a minha curiosidade estava no limite. Não aguentava mais. Contava as horas para que o dia amanhecesse e eu pudesse enfim ouvir da boca do meu amigo a bombástica revelação que tinha para me fazer. Para minimizar a minha agonia, tomei suco de laranja com calmante para dormir bem. Pelo menos essa noite eu tinha que dormir direito, já que nas outras eu embolava pela cama de curiosidade. Até porque não podia causar uma má impressão ao meu amigo, depois de tanto tempo sem vê-lo.

Chega o grande dia. Mal consigo comer direito. Quando estava trocando de roupa meu telefone toca. Ao olhar para o telefone, reconheci o número. Era meu amigo ligando. Com o coração aceleradíssimo, atendi o aparelho. Do outro lado ele me diz que está me aguardando em casa para me revelar algo muito importante. Coisa de vida ou morte. Já meio sem pensar, disse-lhe que estava a caminho e que chegaria à sua residência num piscar de olhos. Rapidamente me vesti e caminhei a passos largos em direção à casa do meu amigo. Chego na quadra onde ele mora, depois na rua, depois no quintal dele, depois finalmente na porta. Bato pausadamente a residência que em dias anteriores estive lá para matar a minha curiosidade.

Do outro lado da porta, escuto vozes alegres e passos vindo na direção da porta. Meio sem entender o motivo de tanta alegria, fico prostrado lá esperando que alguém me receba. Quem aparece na porta não é meu amigo. É um senhor, bem vestido e de aparência distinta que me cumprimenta e pede para que eu entre. Não era alguém do nosso hall de amizades e fico desconfiado da sua presença ali. Na sala do meu amigo, outra figura que eu também nunca vi. Uma senhora com as mesmas características do homem que abriu a porta. Com uma pequena exceção para as plásticas andrógenas no seu rosto. Ao seu lado estava enfim meu amigo com um ar semelhante ao de sempre. Não tinha preocupação no seu rosto, nem nenhum que de mistério. Apenas o meu bom e velho amigo.

Sem muita demora, perguntei o que ele tanto tinha para me contar de especial que mereceria um encontro no sábado pela manhã. Antes de me responder, meu amigo olhou para o casal presente e fez sinal para que se pronunciassem. Ambos, com sorrisos calmos e uma serenidade fora do comum, disseram que estavam ali por minha causa. De imediato, me assustei com a revelação. O que aqueles dois poderiam querer comigo? Ainda sem entender, perguntei do que se tratava. Eles se entreolharam e disseram que o segredo do qual o meu amigo iria revelar mudaria minha vida. A cada palavra e olhar a minha curiosidade aumentava. Rispidamente, pedi para que acabassem com a minha angústia.

Meu amigo então levantou, caminhou até a minha direção e disse a seguinte frase: “segue o teu caminho”, e apontou para o casal. Confuso, senti uma grande energia vinda daqueles dois. Não sei bem o que era nem como explicar, mas trazia consigo uma paz incomensurável. De repente, meu amigo deu as mãos aos visitantes e se desfez num luminescente clarão. Fiquei prostrado sem entender tudo aquilo. Será que ele queria me dar um aviso? Qual? Será que tudo aquilo foi real? Pouco importa agora. Também pensei em contar para alguém, mas quem? Quem acreditaria nisso? Prefiro guardar mais esse segredo a sete chaves até chegar a minha hora. Quem sabe no fim de tudo eu possa repassar o que vi para alguém.

Anos depois do ocorrido, eu já mais velho, contava essa história acrescentando outros detalhes, reais e imaginários, para enriquecer à narrativa. Meus netos adoravam e sempre me perguntavam se eu tinha revisto o meu amigo depois disso. Respondia-lhes que não, mas que um dia iria revê-lo com certeza. Numa bela tarde de outono, quando as folhas seguem a inércia e forram o chão das ruas, um casal aparece na minha porta. Ao vê-los, reconheço prontamente de quem se tratava. Um deles era o meu amigo. Ele então me diz que é chegada a hora e me pede para ligar para a pessoa mais especial da minha vida e dizer a ela que tem um segredo para contar-lhe. Emocionado, sem medo, nem agonia, obedeço e faço a ligação. E o segredo da vida continuou eternamente guardado.

domingo, 9 de março de 2014

Quando a diferença mata

By On 15:57

“Enfrentar preconceitos é o preço que se paga por ser diferente”. Este pensamento de Luiz Gasparetto sintetiza bem o dilema vivido por aqueles que vivem sobre o estigma da “diferença”. Pessoas que, por diversas razões, não se enquadram nos modelos pré-determinados pela sociedade e que sofrem toda a sorte de dissabores para sobreviverem dia após dia. Nesse sentido, infelizmente a citação dele ganhou altas doses de realidade, visto que quanto mais diferenciado for o indivíduo na atualidade, mais próximo da morte ele estará. Ou seja, se a pessoa não seguir à risca o padrão ensinado e perpetuado pela sociedade, o preço a ser pago é enfrentar o preconceito, o qual muitas vezes resulta no aniquilamento daquele que usou romper os padrões estabelecidos. Dentre os condenados à guilhotina estão os homossexuais, os quais são desde cedo vistos como verdadeiras ameaças à vida e às regras estabelecidas pelos ditos “perfeitos”.

Mesmo com tantos avanços, a sociedade ainda trata como tabu às práticas homossexuais. Ensina-se ainda na infância quais são os papeis sociais que cada indivíduo deverá seguir durante toda a vida. Separando o que é de menino e o de menina, muitos pais acreditam blindar o seu rebento de uma possível homossexualidade. Outros, mais enérgicos, tentam introjetar esse discurso na marra, através da violência física ou verbal. Atormentados, desorientados e temerosos, as crianças sequer entendem o porquê de tanta revolta e, por imposição, aprendem rapidamente a abominar homossexuais, pois assim foram educados. Ou, há aqueles que, por total incompreensão, seguem seus instintos e são penalizados duramente pelos seus responsáveis. A estes os castigos variam. Vão desde espancamentos a rejeição familiar. Foi o que talvez tenha acontecido com o menino Alex, de oito anos de idade, morto há poucos dias.

Ele que não era homossexual, até porque não há como definir sexualidade nessa idade. Era apenas um garoto, como muitos outros, porém, com apenas uma diferença: ele gostava de lavar louça. Num primeiro olhar, tal ato não caracteriza nada de mais, entretanto, numa sociedade que dita o que deve ser de homem e de mulher, assumir que gosta de serviços esteriotipadamente femininos foi o maior erro de Alex. O pai dele, réplica perfeita do machismo e da virilidade estúpida existe no Brasil, torturou esse menino até ele chegar a óbito, porque não admitia ter um filho gay. Lamentavelmente, esse crime não é um caso isolado. Muitas crianças são assassinadas nos quatro cantos do país, por possuírem marcas que diferem daquilo que é esperado pela sociedade normativa. Quando conseguem chegar à idade adulta, vivem como mortas-vivas, perambulando pelas ruas ora dentro do armário, conservadores, pois foram tão reprimidas que não admitem a homossexualidade alheia; ora na forma de homofóbicos violentos, que descontam suas frustrações atacando o seu semelhante.

Tudo isso porque na infância foi criada uma barreira em suas vidas. Carrinho é coisa de menino, boneca é coisa de menina, azul para eles, rosa para elas. Por causa dessa educação limitada, as crianças crescem e se tornam homofóbicas, pois não aprenderam a respeitar as diferenças no seu período de formação. Meninos, então, viram homens brutos, fechados, sem espaço para dialogar sobre a sexualidade, pois eles aprenderam a ser héteros, nos moldes da sociedade, e como machos, eles dominam o sexo. As meninas também carregam consigo as sequelas desse modelo educacional antiquado. Muitas se tornam a dona de casa, a Amélia, apanham dos seus companheiros, são submissas na cama e perpetuam o controverso rótulo de “sexo frágil”. Isso porque foram condicionados a repetir os ditames sociais para serem aceitas. E nesse processo de aceitação, logo alguém terá que ser excluído, é o que sobra para aqueles que não passam nessas etapas, mesmo que nem de longe se tornem homossexuais.

Tal formação humana distorcida tem inúmeros culpados. O primeiro deles é sem dúvida o grau de desinformação da sociedade. Num país onde a educação é tangenciada, não é de se admirar que garotos de oito anos sejam assassinados por gostarem de lavar louça. A ignorância tem levado muitas vidas LBGTs e nada é feito para conter isso. Apenas ensina-se que ser gay é errado e ponto. Não são ensinadas que sexo, sexualidade, orientação sexual e identidade de gênero são coisas completamente diferentes. O segundo ponto que crucifica a homossexualidade é o fator religioso. Num país historicamente marcado pela fé cristã, a bíblia soa como o livro de razão inabalável quando diz que ser gay é pecado. Qualquer segmento religioso tem o direito de expor o que pensa sobre a sexualidade humana, agora não pode usar as suas verdades como verdadeiras armas para inferiorizar os homossexuais. Seu papel principal deveria ser pregar o amor, em todas as instâncias, e não o contrário disso.

Por último, não se pode esquecer a falta de legislação em prol dos homossexuais no país. Por mais que muitas conquistas tenham sido concretizadas ao longo dos anos, infelizmente a criminalização da homofobia ainda é uma utopia. O projeto que visava isso foi arquivado há poucos meses, enquanto mais LGBTs são sacrificados pelo país. Sem proteção legal específica, os gays servem de alvos fáceis para a fúria daqueles que se acham no direito de tirar a vida de alguém apenas porque ela não faz na cama o mesmo que muitos fazem. Pior ainda é a situação das crianças com trejeitos afeminados ou masculinizados. Para elas as leis são decididas pelos seus responsáveis que muitas vezes são carrascos ao ponto de humilhar, torturar e até matar o jovem que apresentar alguma característica fora do “normal”. Sem o poder e o direito de defesa, muitas crianças têm suas vontades reprimidas e se tornam seres humanos com graves dificuldades de se relacionar e, sobretudo entender as diferenças sociais e sexuais.


Disso tudo, o que deve ser revista é a forma como as crianças estão sendo educadas. Não é salutar continuar perpetuando essa ideia de que há coisas de menino e de menina. Quando isso é feito, a família está fabricando possíveis homens machistas e homofóbicos, ao passo que se criam mulheres submissas e estereotipadas. Também é importante repensar o tipo de ser humano que está sendo preparado para viver em sociedade. Não é bacana tolher do infante o direito de conviver desde cedo com as diferenças que ele verá na vida adulta. De forma assistida, é possível mostrar-lhes que muito além dos ditames homem e mulher, há outras multifacetadas questões envolvidas que se referem à complexa sexualidade humana. Não seria uma aula para se aceitar a homossexualidade, mas sim de como conviver com ela com respeito e sem tabus. As crianças precisam desse diálogo para que na adolescência, ou na vida adulta, não vejam seus semelhantes como extraterrestres. Se o diferente é mostrado como humano, logo as crianças entenderão que não há diferenças pois somos todos humanos, iguais enfim.

segunda-feira, 3 de março de 2014

(In) justiça com as próprias mãos

By On 15:46


A nova onda de violência no Brasil não é fruto do crime organizado. Nem tão pouco dos clichês políticos, que envergonham há tempos o país. Também não é decorrente de assalto, atropelamento, estupro, dentre tantos outros crimes comuns por aqui. Nada disso! O que está em alta são os justiceiros, pessoas que se sentem no direito de fazer “justiça” com as próprias mãos. Seres que, por diversas razões, perderam o conceito de humanidade e tomaram a liberdade de resolver seus problemas diários a bel-prazer. Indivíduos, outrora pacatos, se mostram verdadeiros capatazes em situações das quais o poder público não toma as devidas providências legais. Com isso, o povo desamparado se acha no dever de subjulgar seu semelhante sem garantir-lhe aquela defesa professada pelos Direitos Humanos.
Na verdade, esse pseudo-olho por olho, dente por dente, tem criado uma Lei de talião à brasileira. Ou seja, diferente do Código de Hamurabi, nossa sociedade repaginou tal regimento, fazendo com que certos criminosos sofram mais do que o equivalente pelos seus crimes. Tudo isso começou quando um jovem foi acusado de cometer pequenos furtos na zona sul do Rio de Janeiro. Tal ato desencadeou a fúria de algumas pessoas, que amarraram o adolescente num poste, despiram-no e ainda o feriram de faca. Com esta atitude excessiva, percebe-se o quanto a injustiça social prevalece diante da sensatez humana em direcionar o malfeitor para ser penalizado pelas vias legais. Ao mesmo tempo evidencia o caos da segurança pública, pois se o povo se sentisse realmente amparado pelas esferas legislativas, tais barbáries não se tornariam corriqueiras.
Seja como for, imediatamente, o caso ganhou grande repercussão nacional. Logo, a sociedade ficou dividida entre defender ou rechaçar a postura dos “justiceiros”. Entretanto, a questão não se encerra aí. Há outros pormenores que merecem uma acurada análise. O primeiro deles é, sem dúvida, a questão da justiça. Esta palavra tem múltiplos sentidos, muitos abstratos e de constantes controvérsias, porém,conceitualmente significa o respeito à igualdade de todos; a manifestação máxima da equidade entre os indivíduos. No entanto, no caso do adolescente enjaulado em praça pública, não houve a presença desses conceitos. Na realidade, ele foi isento de todos eles, pois alguns veem a justiça como querem e decidem o destino destes a partir das próprias convicções. Com isso, assaltantes são torturados, estupradores mortos, criminosos, que não são julgados, enfrentam a revolta de indivíduos injustos, nessa selva chamada de Brasil.
Se essa moda pegar, não serão mais necessários policias, cadeias, presídios, nem juízes, já que o povo irá, com ira, decidir a pena mais “adequada” a cada meliante. O problema é que essa moda já pegou. Depois do açoite do adolescente, outros casos se proliferaram pelo país. O mais recente deles foi o de um auxiliar de serviços gerais, de 31 anos, acusado de um estupro não comprovado. Ele foi assassinado com dois tiros por causa de tal acusação e a suspeita é que tenha sido cometido pelos próprios moradores. Ou seja, o povo não quis esperar a sentença legal e deferiu a sua, a qual para eles é a mais justa e equivalente ao ato cometido pelo acusado, que nesse caso não cometeu nada. Percebe-se, então, neste exemplo, a gravidade que está tomando a insensatez humana em julgar os delitos alheios, sem critérios aparentes.
No entanto, o segundo ponto importante dessa polêmica mora na herança escravocrata brasileira. Em todos os casos mostrados pela mídia há peculiaridades em comum que chamam atenção. A primeira delas é a forma como são capturados. Os acusados são amarrados, geralmente em postes em áreas públicas para que todos vejam quem são os criminosos. Depois o açoite, o sangue derramado, a humilhação ao vivo para todos verem sem distinção de idade. Com esta atitude, os justiceiros querem dar um aviso: “estão vendo? isso é o que acontece com quem faz algo errado”. Como se fossem bruxas perseguidas na inquisição. Outra marca interessante é a cor de pele predominante entre os acusados. Por mais que muitos neguem o racismo como justificativa para defender os ditos criminosos, não se pode negar sua predominância entre os açoitados.
Ora, se esses atos têm acontecido com mais frequência, deve haver alguma explicação no mínimo plausível para tal. O que muitos alegam é que o país vive uma crise de autoridade. Sem uma política pública enérgica, o povo fica à mercê da criminalidade e se vê diante de atitudes desumanas como única válvula para sanar seus problemas diários. Outros afirmam que não dá para esperar pelas vias legais, já que elas são morosas e, lamentavelmente só são acionadas com eficiência quando direcionadas às camadas endinheiradas da população. Do outro lado, os pobres, a grande massa da nação, se veem encurralados diante das injustiças legais, sobrando apenas à sobrevivência através da tirania dos justiceiros, estes muito comuns em grupos de extermínio ou caçadores de recompensa que atuam em diversas comunidades pelo país. Tudo isso não justifica os julgamentos impróprios ocorridos no país, mas servem de pressupostos para analisar com calma a questão.
Nesse embate entre bandidos e mocinhos, justos e injustos, não há vencedores. O povo, muitas vezes inconsequente, não ganhará nada sujando as mãos de sangue ao penalizar um dado criminoso. Apenas irá se igualar a ele, ou superar seus crimes, já que em muitos casos, a população cometeu atrocidades dignas de um verdadeiro serial killer. A mídia também não conquistará nada endossando a violência através de opiniões polêmicas. Ela apenas atiçará negativamente esse povo desenformado e carente de proteção a fazer coisas das quais irão se arrepender no futuro. Nem tão pouco a sociedade ganhará com essas injustiças cometidas por ela mesma. Se o sistema de segurança pública é deficitário, então cabe ao povo exigir melhorias significativas nesse setor, e não fazer justiça com as próprias mãos, como se a violência gratuita e recíproca fosse um dever de cada cidadão. O que é dever de todos é lutar pela cidadania, pelo respeito e pela aplicabilidade das leis e isso só será possível quando o povo passar a usar com mais eficácia o cérebro e menos a força bruta.

Popular

Categories