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sábado, 25 de janeiro de 2014

Violência internalizada

By On 06:17

Sempre que leio uma notícia sobre um homem bomba, imagino a coragem que esse indivíduo teve para implodir o próprio corpo para levar a cabo sua ideologia. Não é para qualquer um realizar esse feito. É preciso, antes de tudo, ter coragem e convicção da complexidade desse ato. Por mais controverso e polêmico que ele seja, engana-se quem pensa que não há homens-bomba no Brasil. Infelizmente há. Não me refiro ao indivíduo suicida, falo daqueles que possuem uma violência internalizada, sem ideologia nem causa, a qual é diariamente manifestada, muitas vezes sem razões aparentes. É só a necessidade de bater no outro, de mostrar que é controlador, dominador e superior. Ou seja, diferente daqueles que entregam seu corpo por alguma causa, seja ela nobre ou não, no oriente. Por aqui, nossa brutalidade é pura e simplesmente fruto da ignorância, insensatez e de uma herança histórica que nos legou sementes violentas que germinam até hoje dentro de nós.
Baseado nisso, cometemos atos de violência por qualquer banalidade. Basta que alguém pise no nosso pé para que uma verdadeira fera seja despertada. Não há desculpa que dê jeito, o que resolve mesmo é revidar com outro pisão a altura. No trânsito também nos comportamos com brutalidade. Buzinadas furiosas, palavrões, xingamentos, fazem parte desse circo de horror. Os mais alterados, saem dos seus veículos e resolvem tudo ali na tapa, às vezes até a morte. Quando são abordados pela polícia rodoviária, são grosseiros, recusam-se a cumprir as exigências legais. Os que não possuem veículos particulares recorrem aos ônibus e outros meios públicos de transportes. Neles, passageiros se atritam com motoristas, com cobradores, com os próprios passageiros, geralmente pelas razões mais ínfimas.

Chegando ao trabalho, ao colégio, seja lá qual for o destino, um colega faz um comentário, que é mal interpretado, pronto, já é motivo para se iniciar uma briga. Nesse ringue, nem os chefes, ou superiores, escapam. Basta ser chamada atenção para que uma fagulha de discussão seja acesa e o fogaréu esteja formado. Impacientes, impassíveis e resilientes, muitos de nós deixamos o estresse do dia a dia dominar nossas emoções, despertando uma selvagem violência que poderia ser contornada se fôssemos educados a sermos pacientes e mais tolerantes com o outro e com a vida em si. Além disso, numa sociedade acostumada a bater e não dialogar, o resultado é o crescente índice de violência em diversas capitais, onde geralmente os crimes são cometidos pelos motivos mais insignificantes possíveis.
E engana-se quem pensa que essa avalanche de violência está apenas ligada ao estresse cotidiano. Nos momentos de lazer, em que se imaginavam pairar a paz suprema, eis que surge a violência para negritar aquele que parecia ser um instante de prazer. É muito comum, por exemplo, em shows ou ambientes repletos de pessoas, que a violência internalizada dê seu ar da graça. Basta que alguém derrube um gole de bebida em você, bata na sua mesa ou cadeira, esbarre quando você estiver dançando ou saindo do banheiro. Tudo isso já é motivo de sobra para tirar satisfação com o indivíduo que, desatento, irrompeu a fronteira do outro. “Não olha por onde anda, não?” Diz aquele mais alterado. “Tá cego, meu amigo?”, diz outro com o mesmo tom. Isso, é claro, quando palavrões e empurrões são usados para denotar a indignação daquele que se sentiu violado.

A coisa piora se o indivíduo estiver acompanhado. Se for homem com a sua companheira e um terceiro elemento ousar se direcionar para ela com um olhar, mesmo que não seja maldoso, ou simplesmente esbarrar nela, está feita a confusão. O mesmo acontece ao inverso, quando muitas mulheres saem irradiadas em cima de outras que ousaram invadir seu território, direcionando-se aos seus homens. “Tá olhando o quê?” Essa indagação é comumente usada nestas situações por aqueles que, diante de uma fúria incontrolável, não suportam nem sequer serem encarados. Isso se dá porque o ser humano, como qualquer outro animal, possui aquela ideia territorialista de posse. A mulher é minha; o homem é meu; esse é meu lugar; não invada meu terreno, ou verá as consequências. Com esse discurso extremamente egoísta, muitos acabam incentivando atos de violência que poderiam ser evitados, apenas conversando ou ignorando a existência alheia indesejada.
Se na rua, entre desconhecidos, a selvageria humana encontra terreno fértil, há de se pensar que em casa esse comportamento seja improcedente. Ledo engano. Mesmo entre amigos, conhecidos, familiares e parentes, qualquer bobagem pode acender a chama da violência. Uma fala dita de forma ambígua; um gesto duvidoso; um tom de voz fora do comum; tudo pode ser motivo para que o estresse se transforme em violência e, aqueles que deveríamos amar e respeitar, numa fração de segundos podem se tornar nossos maiores inimigos. Essa sensível propensão à violência é algo compreensível, a priori, em se tratando da realidade brasileira. Vivendo imerso no mar de inúmeras violências mais graves, seja no âmbito cultural, social e, porque não, governamental, o povo é tratado como animal e, esquecendo-se da sua real condição, atacam o seu igual como se isso fosse algo natural, pois se tornou banal, diria até factual, ver a brutal manifestação da bestialidade humana e agir como se isso fosse uma coisa normal.

Incentivando, direta ou indiretamente do outro lado, está à mídia. Promovendo aquele velho, mas certeiro discurso da lei do mais forte, a partir dela, somos ainda mais incentivados a bater, ofender, xingar e até matar aquele que resolve atormentar a nossa paz. Mesmo tentando disseminar a paz, muitas emissoras se contradizem nesse discurso, pois a todo o momento em sua programação a violência é destacada, seja como furo jornalístico, seja como espetáculo no atual modismo do MMA. Passivos, os telespectadores absorvem esses discursos e, muitas vezes inconscientes, repetem o que viram na sua realidade cotidiana. É por isso que assistimos em choque aos casos em que marido bate na mulher, porque ela chegou tarde a casa; na mãe que torturou seu filho porque este é desobediente; no amigo, que após umas cervejas num bar, desconheceu o outro e matou-o sem nenhuma motivação. São esses crimes absurdos, porém bastante corriqueiros, que são fruto dessa violência internalizada, a qual caminha lado a lado das outras violências já conhecidas por todos.
Essa cultura violenta, na qual a tapa substitui o aperto de mão e onde o diálogo é trocado pelas balas, não se pode esperar muita coisa, senão o crescente índice de violência, que avermelha em sangue as matérias jornalísticas. Mesmo sabendo que o trânsito é um caos; que o chefe não é a melhor pessoa do mundo; que pessoas indesejáveis sempre existirão; que a nossa família e amigos nunca serão perfeitos; nos esquecemos de tudo isso nessa sociedade do revanchismo, onde a melhor defesa é sempre o ataque.  Os mais esclarecidos, no entanto, ainda conseguem conter a besta embutida dentro deles, ao ponto de conversar antes de confrontar. Entretanto, num país onde ser esclarecido é lutar contra a violência governamental, a qual simplesmente ignora a existência da população, o resultado é a formação de um povo carente, entre tantas coisas, de educação e, consequentemente, respeito pelo próximo. Enquanto isso, continuamos à mercê dessas brutalidades banais que poderiam ser evitadas se violências maiores, aquelas que assombram nosso país há tempo, fossem resolvidas.

BBB e o facebook são a mesma coisa

By On 06:16


Todo ano é a mesma coisa. Quando começa as chamadas do BBB, os internautas mais cultos se apresentam para atacar esse programa. Eu, por exemplo, não sou muito fã desse reality show, mas já assiste no passado. Por isso, consigo ver nele dois lados, um até positivo, porém esse não é o momento para destrinchar tais questões. O foco agora, na minha opinião, é a hipocrisia de alguns em dizer que tal programa não presta, porque as pessoas estão ali para se exibir e ganhar dinheiro com isso. Ora, a mesma coisa rola no facebook, sendo que ao invés de dinheiro ganhamos curtidas, comentários, compartilhamentos e seguidores.


Vejo constantemente nessa rede social, as pessoas fazendo de tudo para se exibir, igual ao BBB. Se no programa da globo, a audiência gira em torno de pessoas em momentos triviais do dia a dia, por aqui algo semelhante acontece. São pessoas mostrando fotos no espelho do banheiro, exibindo seus corpos, iguais aos participantes do reality show, sensualizando para câmeras, postando fotos tão íntimas quanto aquelas imagens que elevam a audiência desse BBB durante esses 14 anos de existência. Porém, essas mesmas pessoas insistem em dizer que tal programa é ruim, porque ele não agrega valores e os participantes expõem suas vidas para todo mundo ver. Ora, acho que muitos de nós fazemos o mesmo por aqui.

Como disse há pouco, não curto o BBB e tenho minhas razões para isso, porém não sou de acordo bancar o politicamente correto e dizer que esse ou aquele quadro são de péssima qualidade, baseado apenas no senso comum. Me colocando no foco da questão outra vez, eu adoro programas da cultura que poucos assistem, mas também assisto, quando posso, aos programas que alguns diriam que não agregam conhecimentos. Certa vez, li que "a humildade é aprendida com aqueles que possuem menos conhecimento do que você". E, aproveitando essa máxima, acrescento que alguns programas poderiam entrar nesta lista, bem como tudo em nossa vida.

Não estou dizendo para que você do outro lado comece a ser um telespectador assíduo do BBB. Não disse e nunca direi isso, até porque não estou ganhando nada por isso. Apenas peço que antes de expor determinadas opiniões, textos, imagens ou o que quer que seja na internet, verifique se essa sua posição é real ou fruto de uma pseudointelectualidade, criada apenas para chamar atenção daqueles que estão do outro lado. Outro detalhe, de tanto falar nesse programa, positiva ou negativamente, é que parece perdura-lo ainda mais na tv. A globo sentiu há muito tempo o poder que ele exerce e continua lucrando com isso.

Povo, o BBB é a sociedade, nua, crua e cruel de sempre. Tanto ele como o facebook fazem parte do que Goerge Orwell, no célebre 1984, tratou como a cultura da confissão/exposição. Seres em busca da fama televisiva e/ou virtual, querendo a todo custo as luzes da ribalta. O BBB é a sociedade também porque não há maquiagem. Há apenas o ser humano real, nas suas carências reais, expondo, para isso, todo o seu arsenal de persuasão para conquistar o aclamado prêmio.


E vale tudo, mentir, enganar, falsear, ludibriar, brigar, trepar, rir e até chorar. Porém, no final desse rolo compressor, haverá um "campeão". Nesse aspecto, consigo enxergar umas das poucas coisas que diferencia o BBB do FACEBOOK. Enquanto o primeiro, os participantes tem coragem de se mostrar, no segundo as pessoas criam fakes, tão falsos quanto umas postiças. E, acrescento, enquanto no primeiro tudo o que é nocivo ao humano, recebe prêmios, no segundo nada se ganha. Portanto, você opositor do BBB, veja na sua timeline se a sua vida é cercada de sigilo ou exposta como no programa da globo e, antes de rechaçar isso ou aquilo outro, olhe para o seu próprio umbigo. Opa, perfil. 

Um amor de novela

By On 06:16

Quem nunca sonhou com um amor de novela? Pois eu já sonhei! Imaginava quando criança como seria o meu primeiro namoro. Se haveria aquela magia dos romances novelescos. Se eu sentiria meu coração palpitar ao ver a pessoa amada. Se eu encontraria, no primeiro olhar, a minha "cara metade".


Queria um amor. Um tipo novela das oito. Aquele que enfrenta tudo e todos para ser feliz. Um sentimento avassalador, capaz de nos fazer cometer as mais insanas loucuras. Sem precedentes, ilimitado, além da nossa imaginação. Aquele que nos cega, nos tira do chão nos perde no caminho certo.

Algum amor aventureiro, baldio, certo no meio de tantas incertezas. Esse amor personificado num único ser. Alguém que fosse capaz de, junto a mim, se entregar, se perder e desejar apenas multiplicar os sentimentos bons existentes naquele romance que eu idealizava nas novelas

Quando cresci, porém, vi que a realidade é outra. O amor existe, mas não como nas novelas ou contos de fadas. Ele também tem seus defeitos e, como uma pedra preciosa, ele é cada vez mais raro. Se você encontra-lo em alguma esquina, agarre-o com unhas e dentes, pois não faltará gente querendo ocupar seu lugar.


Sorte que o amor pode assumir outras facetas. Podemos canaliza-lo para a família, para os amigos, o trabalho, um hobby, ou tudo aquilo que nos faz bem. Enquanto isso, eu escrevo. Alguns leem e o tempo passa. Nesses tempos de sentimentos fugidios, onde o amor é aniquilado diariamente, não podemos nunca perder as esperanças. Nunca! Enquanto isso, procure algo ou alguém para amar, pois se depender da fantasia das novelas e do cinema, continuaremos totalmente solteiros.

Quando a vida é reduzida a pó

By On 06:15


Considerado como uma verdadeira bomba relógio, o sistema prisional brasileiro é conhecido nacional e mundialmente pela sua precariedade em todos os aspectos. Pavilhões lotados, celas com detentos além da capacidade, falta de carcereiros e pessoal habilitado para vigiar os presos, condições insalubres de higienização e, por isso, de saúde. Tudo isso constantemente é noticiado na mídia e nada foi feito até agora para mudar tal realidade. Sabendo disso, muitos presos encontram meios de viver confortavelmente dentro desses ambientes, através de ameaças, subornos e outras corruptelas típicas da cultura brasileira. O resultado disso é a binária divisão dos que nestes locais habitam: muitos vivendo amontoados como selvagens e outros desfrutando de regalias, como se estivessem hospedados em hotéis cinco estrelas.

Diante desse quadro, é de se esperar que, no caso do primeiro grupo, ocorram manifestações violentas, mas conhecidas como rebeliões. Motivadas por inúmeras razões, seja para melhorias da permanência deles nos presídios, seja para buscar formas de sair de lá, essas incendiárias ocorrências da brutalidade nas cadeias denota o quão frágil é a nossa segurança pública. Fragilidade esta que frequentemente é evidenciada quando os detentos resolvem confrontar a barreira policial. E tal embate independe se o preso está ou não encarcerado, visto que, muitos são aqueles que dentro do sistema penitenciário emitem ordem de comando, muitas vezes até através de aparelhagem eletrônica, para que atrocidades ocorram fora dos limites prisionais. Frente a essa falta de limites, no Maranhão, detentos emitiram uma ordem para incendiarem um ônibus na principal avenida da cidade, em retaliação a ação da polícia carcerária de lá. Resultado, gente inocente morta e alguns ainda feridos.

Entre as vítimas desse comando, estava a maranhense Ana Clara Santos Souza. Ela que lamentavelmente faleceu, depois de não suportar as queimaduras que estavam alastradas em 95% do seu corpo. Essa atrocidade, cometida por seres que já perderam a humanidade há muito tempo, chocou o país. Ficar chocado, porém, não trará a vida dessa garota de volta. Nem tão pouco do seu bisavô, que morreu ao saber do estado da menina. Essas vidas perdidas trazem à tona outra discussão pertinente: a falta de estrutura da segurança pública daquele Estado e do restante do país, tanto dentro quanto fora das unidades prisionais. Enquanto a nação se concentra social e midiaticamente falando, com a chegada da copa, mal podemos assegurar que fatalidades como essas continuem acontecendo. Ao invés disso, continuamos a direcionar o dinheiro público para fins hedonistas, enquanto vidas infanto-juvenis e adultas são ceifadas e nada é feito para reverter essa situação.

Não tem como não sentir um misto de indignação e revolta ao saber que uma menina de seis anos de idade teve sua vida interrompida abruptamente. Vergonha por ver que essa vida poderia ter sido poupada, se o nosso voto fosse mais bem direcionado e, se os governantes escolhidos tivessem um real compromisso com as prioridades existentes no país, as quais sempre se apresentam através da violência urbana, como no caso da falecida maranhense. Ou seja, se o sistema prisional brasileiro passasse por um processo digno de melhorias, talvez a ordem emitida para incinerar o ônibus, que reduziu a vida daquela garota a pó, não tivesse sido enviada. Também não tem como não sentir vergonha de um país que não investe no que, de fato, é essencial. Mesmo que o presídio não deva ser um local de luxo. Ele também não pode ser um ambiente onde homens entram humanos e se tornam verdadeiras bestas. No mínimo, um lugar onde a ressocialização seja capaz de dar uma nova chance àqueles que estiverem dispostos a mudar.

No entanto, infelizmente, esse processo de ressocialização dos presidiários está longe de ser concretizado. Convivendo com marginais de vários naipes, todos geralmente misturados, pois não há divisão para criminosos específicos, eles não encontram outra perspectiva a não ser potencializar a criminalidade que os levou até ali. Por isso que é comum o uso de drogas, muitas vezes até o tráfico destas. As armas também continuam sendo utilizadas, tanto entre os detentos quanto contra os agentes que cuidam da permanência desses indivíduos. Outras violências, como estupros, também são comuns nesses locais. Este último, por exemplo, chegou a ser ordenado no Maranhão por detentos, para que, fora da cadeia, seus emissários pudessem violentar as esposas dos seus rivais. Todo esse poder dos criminosos emana da falta de poder da segurança pública. Se os primeiros conseguem armas, drogas, munições, celulares e outros apetrechos, é porque o segundo, ou seja, a polícia, ou facilita a entrada disso, ou, mal aparelhada, não consegue conter a entrada. Talvez até as duas coisas.

Enquanto isso nas celas, os atos mais aborígenes do ser humano são despertados, visto que, como não foram condicionados a viver enjaulados, eles acabam despertando a fera oculta nesses locais, ou pior, ordenando crimes de dentro dos próprios presídios, onde se imaginavam que estariam e ficariam presos cumprindo as suas respectivas penas. O exemplo mais famoso do poderio desses criminosos está no lendário PCC (Primeiro Comando da Capital). Quem não recorda de nomes como Fernandinho Beira Mar, o qual já foi considerado como um dos homens mais procurados do país. Ele que, dentro dos presídios vivia como um marajá e continuava a praticar crimes, acionando seus compassas fora dos muros da cadeia. Impotente, a polícia teve que armar um verdadeiro projeto de guerra para desvencilhar o PCC, porém, volta e meia os criminosos se organizam a retornam a exercer seu poder e envergonhar a frágil segurança pública. Mais impotente ainda está à população, a qual, no meio desse fogo cruzado, paga as duras penas disso tudo, muitas vezes com a vida, como no caso da inocente Ana Clara.

Os caminhos para solucionar esse problema são antigos e bem conhecidos e se resumem em uma palavra: investimento. Investir numa polícia preparada dentro e fora do sistema prisional. Investir em cadeias seguras e, pelo menos, mais dignas onde o detento possa pagar pelos seus crimes como humano, não se tornando mais um dos muitos animais soltos por ai. Investir e assegurar que o dinheiro seja bem direcionado. Para isso, basta focar nas prioridades do país e não gastar milhões com futilidades passageiras que pouco trazem de benefício para a sociedade. Se, antes da copa do mundo deste ano, não conseguimos proteger os meros cidadãos brasileiros dos atos de violência que envergonham a nação, como protegeremos os turistas tão aguardados? É incoerente investi cifras milionárias para assegurar o bem estar de turistas, que passarão uma breve estada por aqui, enquanto o cidadão de fato brasileiro serve de alvo para criminosos inescrupulosos que a todo o momento estampam as manchetes policiais por mais um crime cometido.

Na realidade, no Brasil tudo se resumi a pó. O pó das drogas inaladas. O pó da pólvora engatilhada. O pó das vidas desperdiçadas. Reduzi o ser humano à poeira se tornou algo banal. É como fumar um cigarro e esperar que a nicotina vire cinzas. Tudo isso porque não somos capazes de combater, com ímpeto, essa criminalidade que ceifa vidas e desperdiça as verbas públicas a cada crime cometido, a cada rebelião, na qual camas, colchões, etc., são queimados e, com o dinheiro público, repostos. Seja como for, por causa desses descasos, livres ou não, os bandidos ainda tem voz e vez neste país, intimidando civis, ao ponto deles viverem à mercê da violência. Mesmo sabendo que a violência não vai acabar da noite para o dia, não podemos simplesmente chorar a morte daquela menina e de tantos outros inocentes e depois virá à página. Essa história só vai ter o final feliz quando a morte humana deixar de ser tirada abruptamente e continuar a ser como diz o famoso mandamento bíblico: “Viestes do pó e ao pó retornarás (Gênesis 3.19)”, e não reduzida a farelo humano por uma criminalidade que poderia ser contida, se houvesse mais empenho para isso.

O maior legado de Mandela

By On 06:14



O sentimento de pesar pela morte de Nelson Mandela ainda está latente em todo o mundo.  Ele que indiscutivelmente foi, e será, uma das maiores personalidades da nossa história. Com uma trajetória sofrida e cheia de conquistas, Mandela nos deixa na matéria, mas o seu legado viverá entre nós durante muito tempo. Quando falo de legado não me refiro apenas da inquestionável luta dele contra o racismo. Se pararmos para pensar um pouquinho, ele nos lega algo maior do que isso: a necessidade de se lutar por alguma causa. Num mundo onde o umbiguismo reina soberano, é difícil ceder um pouco do nosso tempo para reivindicar algo nobre. Acostumados a ficar refugiados na zona de conforto, não lutamos mais por um mundo melhor, onde discriminações e preconceitos possam ser significativamente diminuídos. Ao contrário disso, continuamos a semear tudo aquilo que Mandela durante toda a sua vida guerreou: o desrespeito ao ser humano.

Na carona do líder africano, dentre as inúmeras lutas que necessitam de fortes soldados está a que se refere ao preconceito racial. Mesmo sabendo que o Brasil é formado por um caldeirão de etnias, muitos ainda nutrem aversão aos negros, apesar da escravidão ter sido extinta há tantos anos. As razões para esse tipo de pensamento são muitas, porém incoerentes, visto que não há nada que nos diferencie enquanto seres humanos, muitos menos a cor de nossa pele. A herança de uma era de escravidão, a qual reinava o discurso do que os negros não possuíam almas, fez com que perpetuássemos a ideia de que esse grupo fosse inferior aos outros. Sem contar que além desse estereótipo errôneo, outros ligados a marginalidade e subserviência sobreviveram todos esses anos. Por isso que é comum presenciar situações das quais os afrodecentendes são agrupados entre aqueles que devem apenas servir, ou ser alvo da criminalidade crescente do país. Com isso, cotas são repudiadas, pois não fomos educados a dar direitos e quem infelizmente nunca os teve. Nesse momento, cabe seguir o exemplo de Mandela e lutar por um mundo multicolorido, onde não há soberania entre os humanos, mas sim igualdade, ou no mínimo tolerância.

Outra luta importante é a que se refere à discriminação de gênero. Historicamente, o machismo travestido de patriarcalismo fez com que a mulher demorasse a conquistar seu devido lugar na sociedade. Hoje, temos uma presidente no poder, mas nada disso parece ter sido suficiente para diminuir a violência contra essas que ainda trazem cravadas na pele a indelével marca do “sexo frágil”. Isso porque se aprende desde cedo que o sexo masculino é dominante, ao contrário do feminino, o qual ainda é educado com limitação e recato. Essa descabida diferenciação educacional acaba resvalando numa sociedade onde perdura o machismo, tanto entre os homens quanto entre muitas mulheres, as quais se “acomodaram” com o segundo plano do qual foram sentenciadas. Por essa razão, os índices de violência contra elas não diminuiu. Pelo contrário, recentemente foi divulgado que a Lei Maria da Penha não está contendo o número de casos de agressões e mortes contra as mulheres. Os motivos são muitos, desde falta de pessoal capacitado para atendê-las, até a falta de denúncia das vítimas. Porém, penso que o principal vilão ainda é a nossa falta de vontade, e de coragem, de lutar contra isso também.

A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”. Foram essas as sábias palavras ditas por Mandela e que me comoveram bastante. Como alguém que nasceu, cresceu e morreu num dos continentes mais degradados do planeta em vários sentidos, consegue perceber algo que o nosso país insiste em não enxergar? Educação, essa sim é uma grande causa para se lutar. Numa sociedade onde ser ignorante é natural. Ou pior, onde não ter conhecimento é o mesmo que servir de curral em período de eleição. Esse desrespeito com o saber é ignorado ano após ano e nada fazemos para mudar essa realidade. Esse descompromisso com o educar já é antigo e sabido por todos, porém poucas são as atitudes para revertê-lo. Cobram-se mais políticas públicas. Maior investimento governamental. Exige-se que uma maior parte do PIB seja direcionada para tal setor. São tantas as cobranças e metas e tão poucas as realizações que nos esquecemos de que a educação é um compromisso de todos. Do lar até a urna, da alfabetização à faculdade, somos responsáveis pela formação dos indivíduos que nos cercam. Por isso, cabe primeiro a nós nos transformarmos e, se possível, nos organizarmos para reivindicar melhorias nesse setor também. Quem sabe assim a arma que Mandela citou há pouco possa de fato modificar a triste realidade educacional e, portanto, social do país.

Nessa constante busca por um mundo melhor, é importante tocar numa outra questão bem conhecida, desde a África até o Brasil, a fome. Lamentavelmente, muitos são aqueles que nesse momento não possuem nada para servir aos seus filhos e parentes. Pessoas que por diversas razões foram esquecidas e que sobrevivem à míngua, geralmente em condições desumanas, onde a falta de comida é um desafio diário. Por aqui, mesmo com programas que visam minimizar essa inaceitável realidade, muitas pessoas ainda morrem de desnutrição, ou sofrem de doenças correlatas à falta de alimento. É contraditório saber disso num país rico em terras plantáveis, onde se cultiva tanta variedade alimentícia. Também é paradoxal saber que exista fome, numa sociedade que desperdiça toneladas de alimentos diariamente ao invés de direcioná-los a quem tanto necessita. E, por fim, é imoral saber que existam pessoas capazes de diminuir essa realidade com significativas doações, mas preferem deixar a cargo do governo essa responsabilidade. Nessa luta pela sobrevivência, o maior inimigo é, portanto, a disparidade social. Muitos com pouco e poucos com muito. Muitos discursos bonitos, mas poucas ações. Muitos desperdícios e muitos desnutridos. Muitos sacrificados, mas poucos sacrifícios. Muitos de boca cheia e outros muitos de barriga e futuro vazios.

Nesse mar de incertezas e violências cotidianas, eu não poderia deixar de mencionar uma das causas que mais tem ganhado à mídia e a sociedade como o todo: a criminalização da homofobia. Por mais que alguns considerem desnecessário criar leis específicas para assegurar a proteção dos homossexuais, destaco que no Brasil infelizmente as leis que prometem proteger toda a população infelizmente não são cumpridas. A prova está na Lei Maria da Penha, direcionada predominantemente para violência contra a mulher. A do racismo, contra a discriminação racial. Entre outras especificidades legais que são criadas para suprir a deficiência legal da nação no tocante às minorias. Então, porque não criminalizar a homofobia? Recentemente o projeto que tentava fazer isso foi arquivado. Líderes, de ideologia duvidosa, garantiram que direitos a favor da comunidade gay fossem indecorosamente arquivados e esquecidos.  E isso acontece porque o desconhecimento da sexualidade humana agrupa os homossexuais no gueto das anomalias, dos mutantes. Estes, portanto, não merecem ser vistos como cidadãos, mas como a escória de uma sociedade machista, fundamentalista e indiscutivelmente ignorante. Enquanto isso, nossos iguais são excluídos, feridos e mortos, contudo não nos importamos com a causa deles, pois fomos educados a ignorar isso também.

Seguindo a trilha do desrespeito, nossa saúde pública agoniza em filas de hospitais lotados ou nos seus insalubres corredores.  Faltam médicos e aparelhagem de qualidade. Faltam medicamentos e leitos adequados para os pacientes. Faltam investimentos e, sobretudo compromisso com esse setor. Com a segurança pública acontece algo semelhante. Ela que carece de pessoal qualificado e preparado para lidar com os diversos tipos de criminosos que insistem em exibir a real face da pobreza do país. Essas também são boas razões para se lutar. Nesse campo, nunca é demais reivindicar melhores instalações para os presidiários, para que eles possam ser ressocializados e não ensinados a serem piores do que já eram. Outras lutas são aquelas que se referem à corrupção, que insiste em macular a imagem já manchada do país. Sem se esquecer de lutar pela proteção e preservação do meio ambiente. Pela garantia dos direitos da criança e do adolescente. Pelo respeito ao idoso na rua, nos coletivos, nos hospitais, dando-os a preferência merecida. Por um transporte público decente. E pela assegurada regulamentação dos nossos direitos e deveres.

Lutar contra o trabalho escravo, seja ele infanto-juvenil ou sexual. Lutar pela melhoria das condições salariais do trabalhador brasileiro. Lutar para que o professor, espinha dorsal da metamorfose social, seja bem gratificado pelos seus feitos. Lutar para que o voto valha a pena. Lutar para que as religiões aqui existentes sejam respeitadas. Lutar pelo respeito aqueles que não possuem religião. Lutar por um Estado de fato laico. Lutar pelos índios e sua perpetuação. Lutar contra a violência em todas as suas instâncias. Lutar contra o consumismo. Lutar contra o consumo excessivo de drogas, seja lícita ou não. Lutar contra esse sistema engessado que não apresenta melhoras. Lutar por uma vida mais digna. Lutar pela felicidade, pela liberdade, pelo amor e pela justiça. Lutar pela utópica paz. Lutar contra qualquer tipo de intolerância, discriminação ou preconceito. Lutar contra essa falta de coragem de lutar e, enfim, ir à luta contra toda a ausência de direito que nos acomete ou aos nossos semelhantes. São tantas causas a serem seguidas. Tantas reivindicações necessitando de vozes para serem ecoadas. Tantos caminhos para transformar nossa existência, que eu poderia fazer um livro só sobre isso. Mas, prefiro encerrar esse texto com uma magnífica mensagem de Mandela: “A luta é a minha vida. Continuarei a lutar até o fim dos meus dias”. Ele cumpriu a parte dele. Falta a sua, a minha e a nossa parte. Então, vamos à luta, povo, pois ser feliz é ser livre!

Lugar de artista é no armário

By On 06:13


Ao pensar no armário, lembra-se instantaneamente de um local onde se guarda coisas. Fugindo dessa óbvia conceituação, metaforicamente o armário também serve de lugar para se esconder os mais periculosos segredos. Aqueles que podem denegrir a imagem do indivíduo, caso seja revelado. Durante anos, e até nos dias de hoje, é lá que se guarda um dos maiores tabus da humanidade, a sexualidade. Esta que, quando foge do padrão, deve ser guardada a sete chaves. Se possível com trincas bem fortes, cadeados, correntes e, caso haja modernidade, vale também um sistema de monitoramento computadorizado e com uma senha indecifrável.

E porque esconder a própria sexualidade? Quando se trata da homossexualidade, os motivos são infinitos. Esconde-se por causa do preconceito familiar, da rejeição. Esconde-se para manter o cargo tão desejado. Esconde-se para continuar indo ao futebol, a igreja, as reuniões com os amigos héteros nas mesas de bar. Esconde-se, portanto, para se manter uma rotina social nesse universo dominado pela heteronormatividade. Então, revelar-se gay é o mesmo que perder tudo isso, para um indivíduo comum. Mas, quando ele é famoso, parece que as perdas são maiores. Vai da falta do tão sonhado prestígio ao tão cobiçado, mas pouco vivido, respeito.

Sempre que surgi uma polêmica em torno da sexualidade de alguém, isso acaba sendo manchete de jornais e virais nas redes sociais. Parece que o simples fato de não seguir a risca os padrões heteronormativos sentencia o indivíduo ao cárcere social, servindo de alvo para chacotas e especulações alheias. O pior de tudo é quando a pessoa em questão tem uma imagem pública. Para estas, por exemplo, assumir uma talvez homossexualidade resulta na auto exclusão e/ou redução a grupos específicos. Reduzir, nesse sentido, significa polarizar os artistas entre aqueles que correspondem ao grupo dos héteros e os do não héteros, ou de sexualidade “duvidosa”. Sem contar que, quando há incerteza nesse tocante por parte de uma determinada celebridade, o público instantaneamente revela seus preconceitos que pareciam embalsamados.

Há poucos dias, o cantor sertanejo e ídolo de muitas adolescentes, Luan Santana, teve sua integridade posta à prova nas redes sociais. A questão envolvia o cantor e o seu personal trainer, que segundo as más línguas, estariam tendo um caso. Semelhante a isso, outros artistas tiveram sua sexualidade na berlinda. O cantor Júnior, que fazia par com a sua irmã Sandy, já foi alvo de comentários desse tipo. Outra cantora, dessa vez Luiza Possi, foi questionada se estaria tendo um Love affair com a cantora, assumidamente gay, Maria Gadú. E não faltam exemplos: Ivete Sangalo com Xuxa. Ray com Zeca Camargo. Marlene Matos mais uma vez com Xuxa. São tantas as suspeitas, mas tão poucas as evidências que só resta um questionamento: e se eles fossem gays mudaria alguma coisa?

A resposta infelizmente é sim, mudaria. A mudança reside no velho preconceito que existe em torno da homossexualidade. Mesmo sabendo que no meio artístico a homossexualidade, bem como a homoafetividade, rolam soltas, ninguém está disposto a aceitar a orientação sexual do seu artista como de fato ela é. Quando a aceitação acontece acaba aparecendo os guetos, onde pequenos grupos que são diferenciados dos demais gêneros musicais se encontram para curtir sua celebridade favorita. Ouve-se, então, que os fãs da Ana Carolina são predominantemente gays. Enquanto os do Marcelo D2, por exemplo, são héteros. Será que ninguém se perguntou o porquê dessa polarização? Simples, porque o preconceito da sociedade infiltra-se no seio artístico de uma forma que mesmo admirando um determinado ídolo, muitos temem ser identificados como alguém próximo da homossexualidade porque ouve, canta e gosta de um determinado cantor, o qual é assumidamente gay ou no mínimo bissexual.

Com isso, muitos artistas preferem esconder sua própria condição sexual a ter que fragmentar seu público. Porém, nem sempre o armário consegue conter a homossexualidade contida em cada um deles. Sempre há uma perna fora do lugar. Um braço que escapole. Uma pluma que voa sem querer. Seja como for, não há escapatória. E o público “fiel” não perdoa. Ataca nas redes sociais assim que alguma dúvida surgi. Manda emails ora reclamando ora pedindo explicações. Deixa de ir aos shows e de comprar os CDs e DVDs do seu “artista favorito”. Quando não, segue seu ídolo, programa ataques verbais na rua e até agride se for o caso, pois a mente psicótica de algumas pessoas, o seu artista não pode ser gay. Tudo por causa de uma suspeita infundada, a qual nada vai interferir no talento que determinada celebridade possua.

Nesse ínterim, percebe-se que a polêmica ganha maiores proporções quando direcionada a celebridades masculinas. Tanto faz ser ator, apresentador, cantor, jogador de futebol, ou modelo, o ideal é que seja hétero. O discurso ignorante e implícito diz que os gays não pertencem a essa atmosfera. E, se caso pertençam, devem ser feios ou no mínimo engraçados para compensar. Artista masculino bonito tem que ser macho, pois neste caso a beleza também é reduzida a questão de gênero. Por isso que o cantor Luan Santana vem sendo alvo de críticas por causa de uma possível homossexualidade. Ele que é famoso, rico e bonito, não pode ter acrescido a essa lista o adjetivo gay, pois isso seria um descrédito a tudo o que ele lutou para conquistar até hoje.

Nesse tocante, ser gay parece anular os talentos do ídolo, pois para ser símbolo midiático não pode ser homossexual. Tem que ser hétero, viril, pegador e com cara de cafajeste, feito o ator Caio Castro. Ou, se for mulher, bonita, inteligente, comportada, boa dona de casa, como a apresentadora Angélica. Não que essas últimos papéis nãos ejam importantes, mas isso não significa ofuscar os tangenciar os outros. Na história brasileira, muitas foram às celebridades que assumiram sua homossexualidade e que deixaram um grande legado para sua e outras gerações. Nomes como Cazuza, Cássia Eller, Renato Russo, são alguns exemplos pontuais. Em vida, nomes como Maria Gadú, Ana Carolina, Daniela Mercury, Adriana Calcanhotto, são outros. Mesmo essa listagem sendo predominantemente feminina por causa do machismo operante, sabe-se que muitos são os artistas que vivem no limbo, seja na música ou na teledramaturgia. Seja como for, o fato de serem gays, bissexuais ou héteros não é argumento suficiente para reduzir seus talentos e seus legados. Contrariamente a isso, muitas dessas e outras celebridades que virão estão cheias de talentos, capazes de clarear o obscuro preconceito que neblina as mentes desses falsos fãs.

Fãs esses que fazem jus ao fanatismo, etimologia da palavra que lhe deus origem. Cegos por um ideal idólatra, eles não conseguem enxergar seu amado ídolo como um ser humano qualquer: que sofre, sente desejos. Que é hétero ou gay, ou pode ter dúvida nesse sentido (Por que não?!). Contrário a isso, pois hipnotizados pela indústria midiática, a qual vende muitas vezes produtos irreais, eles, os fãs, não aceitam que seus ídolos mudem “de repente” sua sexualidade e, impiedosamente guilhotinam o seu artista favorito para que ele sirva de exemplo para os outros. Intimidados, muitas celebridades guardam sua real sexualidade, e outras coisas humanas, no armário, pois sabem, ou foram abruptamente avisados que caso fujam do padrão perderão tudo o que conquistaram: a fama, a riqueza e o amor dos seus amados e compreensíveis “fãs”. Sem ter para onde fugir, só resta a essas pessoas viver uma vida de aparências o mundo imaginário de ilusões de indivíduos que foram criados e replicados para apenas gostar do que é padronizado. Felizmente, alguns artistas conseguem enfrentar toda essa barreira de preconceito e viver como de fato a vida deve ser vivida: livre e feliz. Por mais que essa liberdade e felicidade não façam parte daquilo que se convencionou chamar de “normal”.

Da palmatória ao WhatsApp

By On 06:12


Infelizmente, vivemos na era da indisciplina. Jovens cada vez mais insubordinados crescem sem a devida delimitação necessária para se tornarem adultos conscientes e responsáveis pelos seus papeis em sociedade. Rebeldes desde muito tempo, hoje eles contam com um forte aliado para se desviarem dos estudos e, consequentemente do respeito ao ser humano, a tecnologia. Não que os recursos tecnológicos tenham sido negativos para as práticas educacionais, mas sim a forma como eles vão sendo utilizados e presenteados por pais e familiares, como forma de agradar ou “punir” seus filhos. No meio disso tudo, a escola é a maior vítima dessas mudanças juvenis, pois tenta educar esses jovens, garantindo-lhes um futuro promissor, ao passo que enfrentam o desinteresse estudantil proporcionado pelas inovações tecnológicas. Presos a redes sociais e ao mundo virtual, essa juventude adentra as salas de aula, alheios ao mundo real. Então, muito antes deles serem classificados como indisciplinados há outros rótulos possíveis e passíveis de análise, nesse contexto.
Se antes, o professor dizia em sala de aula “cala a boca menino!”, “Fulano, preste atenção na aula!”, “Beltrano, sente-se corretamente na carteira”, “Sicrano, faça as tarefas, ou vai ficar de castigo!”. Hoje, essas expressões ganharam o acréscimo das novas tecnologias. Agora, o comum é ouvir “Menino, desligue esse celular!”, “Saia dessa rede social!”, “Tire o fone do ouvido!”. De fato, o advento tecnológico modificou profundamente a nossa relação com o mundo e a escola não poderia ficar de fora disso. Acontece que ela ainda não sabe utilizar corretamente os recursos advindos da tecnologia, nem tão pouco consegue conter o uso demasiado e descontextualizado de celulares, Tablets, Iphones, Ipads, e Ipods em sala de aula. Devido a essa dicotomia, os jovens sentem-se livres para usar esses recursos irresponsavelmente tanto fora quanto dentro do ambiente escolar. Intensamente aprisionados a esses meios virtuais, os jovens estão sendo vitimados a se viciar cada vez mais pela tecnologia deturpada e menos pelos estudos, os quais já ocupam o terceiro ou quarto plano em suas vidas.
Por essa razão, antigos males escolares acabam sendo potencializados por causa da utilização errônea da tecnologia. O primeiro deles é a demasiada preguiça. Em sala de aula, ela se personifica na forma de sonolência, a qual obriga os estudantes a dormirem, às vezes profundamente nas aulas. Esse sono exacerbado não é fruto de noites de estudo ou madrugadas mal dormidas, mas sim de muitas e muitas horas navegando nas atrativas redes sociais, geralmente em pesquisas de conteúdos inapropriados ou de pouco valor intelectual. O segundo ponto nesse âmbito é a rebeldia. Acostumados a viverem no mundo sem fronteiras da internet e, consequentemente sem limites, muitos jovens não estão dispostos a acatar as regras impostas pelo colégio, nem tão pouco pelo professor. Logo, a autoridade exercida pela escola é vista como uma afronta a esses infantes, que aprenderam a ser livres em suas páginas virtuais, onde com pseudônimos e “fakes”, eles podem ser o que querem sem o comando ou orientação de ninguém. Por causa dessa conduta, o terceiro ponto dessa questão é a violência escolar praticada por muitos jovens. Sejam entre eles, ou contra professores, diretores, gestores e funcionários em geral, os jovens atualmente não se intimidam mais com o adulto que está na sua frente, nem tão pouco os enxergam como responsáveis pela sua formação educacional, mas sim como inimigos que querem ferir a sua intocada liberdade.
Entretanto, resumir essa questão apenas ao âmbito tecnológico é ignorar um fenômeno que também está imbrincado a tais aparelhos, a permissividade familiar. No passado, por exemplo, cabia aos pais à tarefa de castigar seus filhos por algum delito praticado por estes, geralmente privando-os de certas regalias para, assim, obter a obediência deles. Com o tempo e as modificações pedagógicas, há quem diga que bater numa criança, mesmo que seja apenas uma palmada, não é a forma mais adequada de educar. Os moldes sociais trataram, então, de mexer nessa questão e hoje dar uma tapa num infante é o mesmo que açoitar um negro nos tempos tórridos da escravidão brasileira. De fato, bater ao ponto de torturar esses pequenos seres humanos não resolveria o problema. Mas, será que a palmadinha não é realmente necessária? Numa época onde o diálogo parece não ser a arma mais adequada para conter a insubordinação juvenil, talvez recorrer aos moldes mais antigos pareça ser o mais acertado em alguns casos. Ou, unir estratégias que deram certo no passado com as do presente, sobretudo se estas estiverem aliadas com a escola, podem ser uma possível solução para tal problemática.
Enquanto isso não acontece, as palmadas continuam sendo substituídas por celulares de última geração. Os castigos, por Tablets. Os internatos, por viagens a Disney. E se antes a autoridade dos pais prevalecia, hoje ela é questionada, pois seja através de lágrimas fingidas, egos inflados e chantagens mil, jovens teatralizam protagonistas no palco onde os familiares são meros e passivos espectadores. Sem domínio sobre seus filhos, coube a escola a tarefa de resgatar essa juventude do abismo que inconscientemente foram lançados. Contudo, as raízes do desinteresse são tão profundas que dificilmente serão arrancadas sem deixar significativas ramificações. Sem contar que o ambiente escolar nada mais é do que o reprodutor dos estamentos vividos pela própria sociedade. Ou seja, como ensinar o gosto pela leitura a jovens que vem de famílias que não leem? Como criar o interesse pela escrita num mundo virtualizado, onde os caracteres delimitam a expressão verbal? Como fazer pequenos cálculos, analisar mapas, entender conceitos históricos e filosóficos, se a juventude não tem a consciência da importância de tais disciplinas? E, por fim, como disciplinar esses infantes num ambiente escolar que vive, ao mesmo tempo, longe e próximo da palmatoria e do Whatsapp?
O desinteresse juvenil pelos estudos parte da família, que não toma as devidas rédeas sob os seus filhos e que não vê a escola como instrumento de aquisição de conhecimento, mas sim como um local onde a juventude vai aprender algo que deveria ser prioritariamente ser aprendido e apreendido em casa, a educação. A culpa também é da escola, que não é capaz de criar um modelo pedagógico que possa de fato transformar a realidade juvenil, ao passo que acompanha as modificações sociais vividas por ele. Não adianta dá Tablets aos jovens, se não é ensinado previamente qual é a melhor forma de usa-lo. Também não é bacana criar espaços virtuais, quando falta um projeto real que integralize essas tecnologias com as práticas educacionais e, consequentemente a aquisição e conhecimento. Vale lembrar também da parcela de responsabilidade governamental, visto que, mesmo sabendo de toda essa realidade, pouco tem feito para modifica-la de fato. São tantos culpados conhecidos, tantos caminhos possíveis para modificar essa realidade, mas pouco fazemos enquanto família, educadores e, sobretudo eleitores. Por isso, talvez o caminho para reverter isso tudo seja a consciência do papel que cada um de nós, adultos, exerce na educação juvenil. Não adianta voltar a palmatoria, pois os tempos mudaram. Também não precisamos ver o WhatsApp como inimigo. Se ele está ai, bem como as outras tecnologias, que então pelo menos adentram no espaço escolar como ferramenta para o conhecimento de todos e não apenas uma mera distração, como tantas outras do gênero.

Corpo Fechado

By On 06:12

Mesmo sabendo que a única certeza que temos é a da morte, passamos a existência inteira achando que estamos imunes às intempéries que a vida pode nos proporcionar.  São tantos caminhos possíveis, tantos perigos em cada um deles, que a melhor escolha é sempre aquela que irá afugentar as coisas más, ruins, que tragam desgraças para nossas vidas. De fato, instintivamente buscamos nos proteger dos males que criamos, para manter uma vida longa e, se possível, bem vivida. Para isso, muitas vezes a religião serve de bussola, nos guiando para os caminhos mais viáveis, nos afastando de todo o mal a que estamos expostos aqui na terra. Contudo, penso que a nossa sensação de imunidade é puramente uma mentira reconfortante criada sobre vários pilares para ludibriar a dolorosa verdade que circunda a nossa existência: a de que não estamos e nem somos imunes a nada. Pelo contrário, pois nos momentos mais distintos do nosso dia a dia, a mortalidade do nosso ser se manifesta para desconstruir a nossa pretensa ideia de superioridade.

Por mais que exista uma crença cultural de que “tudo só acontece com os outros”, nada pode justifica-la, a não ser a prepotência humana de querer ser superior aos outros da sua própria espécie. E essa superioridade se manifesta dentro de grupos sociais distintos, em culturas também distintas, mas sempre com a mesma idealização de blindagem. Explico do que se trata isso. Acredito que somos educados erroneamente a não esperar pelo pior, a não acreditar que alguns fatos podem nos acontecer e que devemos estar preparados para eles. Ao invés disso, preferimos a ideia romântica de que nada irá nos atingir, de que não podemos nos machucar, nos ferir, matar ou sermos mortos. De que é sempre o outro que deve sofrer por essa ou aquela razão. Com isso, crescemos e passamos a vida inteira achando que um raio não pode nos atingir, de que o avião que estamos não pode cair, ou a pessoa que amamos não pode nos decepcionar. Com esses enganos, buscamos de inúmeras formas o corpo fechado, uma verdadeira muralha que impedirá a entrada dos periculosos obstáculos que a vida pode nos proporcionar. Porém, do que temos tanto medo?

Tememos, a priori, uma vida miserável, financeiramente falando. Por isso que o dinheiro é tão valorizado entre nós. Não se trata apenas de uma vida de pompa e riqueza, mas sim uma existência onde possamos comprar a segurança e o conforto desejados, capazes de nos afastar dos males da pobreza. Tememos a inveja alheia, o mau agouro, o olho gordo, pois estas manifestações nefastas podem interferir na realização dos sonhos que tanto lutamos para realizar. Temos medo também da morte. Numa cultura tão apegada a vida, morrer significa o apagar da luz, o fechamento das cortinas, o encerramento do espetáculo do qual protagonizamos. Por isso nos apegamos a religiões diversas, seja para encontrar conforto em rituais ou amuletos da sorte que nos afastem do fim, seja para garantir que a nossa passagem para o outro plano seja feita da melhor forma possível e que do outro lado exista um local acolhedor, ou não, dependendo das nossas ações feitas aqui na terra. Em todas elas, o mesmo ideal: o corpo fechado.

Tal ideia de fechar o corpo, ou de possuir uma massa corpórea imbatível, faz com que muitos acreditem que nada de ruim possa lhes acontecer. Recentemente, por exemplo, li no jornal local a noticia de que num determinado bairro aumentou os índices de assalto à mão armada. Aparentemente, algo comum nas grandes cidades brasileiras, onde a desigualdade social leva muitos indivíduos a cometerem atos animalescos para sobreviver. Acontece que, na ocasião, uma colega proferiu o seguinte comentário: “nunca fui assaltada e nem serei. Desde sempre tenho o corpo fechado para essas coisas”. Imediatamente, a indaguei sobre o porquê de tamanha certeza. Ela, no entanto, não soube responder, apenas disse que tinha o corpo fechado e ponto. Nesse momento, minha mente tentou investigar se ela fazia parte de algum segmento religioso, o qual fortalecia a sua certeza de imunidade, mas não encontrei respostas. O caso da minha colega, como o de muitas outras pessoas, é bem parecido. Trata-se da inconsciente sensação de que nada de ruim pode nos acontecer.

Por causa desta sensação, acreditamos cegamente que nunca sofreremos de algo grave, como um câncer, ou outra doença terminal. De que jamais seremos vítimas de um assalto, um estupro, um sequestro relâmpago, uma bala perdida. Não acreditamos na possibilidade de abortar um feto, mesmo que esse tenha sido concebido através das mais sórdidas relações humanas. Classificamos como fatalidades, o fato de um poste repleto de fios de alta tensão desabar em cima de transeuntes, ou desses mesmos passantes serem vítimas de um buraco que surgiu do nada numa rua. Nem cogitamos a possibilidade de sofrer algum acidente no trânsito, por que faltou freio, ou por que as condições da pista não eram favoráveis. Ignoramos as inúmeras chances dos acidentes domésticos acontecerem conosco, pois aprendemos que incidentes nesses locais dificilmente aconteceriam com nós mesmos. Tentamos inesgotavelmente sermos precavidos, porém a fragilidade de nossa existência a todo o momento nos prova o contrário.

Esses “perigos” aos quais estamos sujeitos são pequenos e poderiam ser encarados com maior naturalidade, se a idealização do perigo fosse colocada em nossas vidas também de forma natural. Atrelado a isso, a desconstrução de ideia de que só o outro pode sofrer ou passar por mais bocados, nos ajudaria a perceber que somos todos iguais, na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza e, sobretudo, na vida e na morte. Evidentemente que isso não extingue a fé individual de possuir ou não uma blindagem religiosa. Se você acha que possui o corpo fechado, parabéns. Aproveite essa barreira para se proteger e, quem sabe, os demais a sua volta. Entretanto, tente encontrar dentro de si essa crença como algo real, caso contrário estará apenas se enganando, ao passo que passa a vida toda acreditando que os perigos acontecem apenas com quem “merece”. Quem determina esse merecimento? Se ele existe, porque uns merecem mais e outros menos? Existe uma vida sem perigos? Para as primeiras perguntas, as respostas residem dentro de cada um de nós. Já para a última, me atrevo a dizer que não, pois é o perigo que nos faz crescer e nos dar força para continuar, tendo o corpo fechado ou não.

Dia do professor: o que temos para comemorar?

By On 06:10

Todo ano é a mesma coisa. Chega o mês de outubro, mas precisamente no dia 15, e as pessoas se entregam as manifestações de agradecimento e carinho aos milhares de professores que compõem o corpo docente brasileiro. Nada mais que justo, visto que vivendo durante quase todos os dias do ano no esquecimento, essa classe de trabalhadores merece, no mínimo, ser lembrada e condecorada com uma data especial. Entretanto, para além das homenagens, bem como as demonstrações de afeto de colegas de trabalho e alunos, o que mais se pode comemorar nesse dia? Com baixíssimos salários, trabalhando em condições desumanas e com um diminuto reconhecimento da sociedade, poucos são aqueles que são presenteados com a honra de serem professores nos dias atuais, já que devido e esses e outros problemas, essa classe vem paulatinamente deixando essa honrosa carreira para se aventurar em outros caminhos onde o dinheiro e o prestígio social de fato existem.

Ser professor. Ser pai e mãe ao mesmo tempo. Ser amigo, confidente e psicólogo. Ser educador. Ser assíduo. Ser responsável. Ser coerente. Ser inteligente. Ser dinâmico, atualizado e vanguardista. Ser firme e, ao mesmo tempo, dócil. Ser, estar, parecer e nunca padecer.  Esses são alguns dos muitos verbos que predominam na vida daqueles que enveredam pelos caminhos do ensino. Para esses, ser é estar pronto a enfrentar a dura realidade da educação brasileira que perdura há gerações. Uma educação secundarizada, a qual o ensinar é colocado em segundo, terceiro, derradeiro plano por aqueles que regem o poder econômico e político da sociedade. Ser é estar disposto a trabalhar de mão atadas, sem os instrumentos corretos para salvar o alunado do abismo de que são obrigados a caminhar desde o seu nascimento. Ser é estar preparado para lutar contra as presas da ignorância que a todo o momento insistem em confinar nossos jovens direcionando-os, muitas vezes, à marginalidade. Ser professor é estar preparado para tudo isso e ainda amargar o desrespeito cultural de um país que não valoriza como deveria esses profissionais. Se ser professor é ser tudo isso e muito mais, por que sua existência é invisibilizadas por nós?

Entre tantas respostas possíveis, a primeira delas se refere a nossa cultura histórica. Nossa nação nunca deu o devido valor a esse profissional no passado e, atualmente, tenta reverter essa situação com mecanismos paliativos, que não resolvem de fato o problema. Fala-se sempre que o país está investindo mais em educação. Mais escolas estão sendo construídas. Mais alunos estão matriculados nesses espaços, alguns até de forma integral. O material escolar e a merenda são melhores e de melhor qualidade. Tudo isso é indiscutivelmente benéfico para o ambiente educacional brasileiro, que durante anos viveu grandes lacunas nesse sentido. Agora, quando o assunto é investir no professor a história muda completamente de rumo. Esses profissionais ainda são os mais mal remunerados do país. Na realidade, há quem discorde dessa verdade, contradizendo que muitos profissionais da educação recebem bem e vivem confortavelmente. Porém, o que é viver bem? O que é também, nesse contexto, viver confortavelmente? Nesse âmbito, vale acrescentar outra questão: como esses ditos professores conseguiram viver bem e confortável? As respostas para tais indagações se resumem em apenas uma frase: anos de trabalho árduo.

Para aqueles que conseguiram se estabilizar nessa área, parabéns. É um feito digno de reconhecimento. No entanto, não é essa a mesma realidade de tantos outros docentes espalhados pelo país. Isto porque, as constantes paralisações da categoria mostram claramente à dura vida de quem tenta sobreviver com a educação. São greves, passeatas e, infelizmente, até depredações e pancadarias realizadas por esses indivíduos, que perdem a sensatez para serem notados pela sociedade e, consequentemente pelo governo. Se vão as ruas em mais de um estado brasileiro é porque os problemas vividos por eles, dentro e fora de sala de aula, já chegaram e um ponto insustentável. Entre as reivindicações, o aumento salarial é sempre o principal. O valor da hora aula é simplesmente desumano, obrigando muitos deles a dobrar, triplicar, quadruplicar..., a rotina em sala de aula, para terem uma vida digna e uma aposentadoria decente no fenecimento da vida. Enquanto esses heróis, que formam todos os profissionais do mundo, recebem esmolas em forma de salário. Outras “personalidades” desfrutam de milhões por mês, sem ter, muitas vezes, terminado o colegial. Os exemplos são muitos, desde jogadores de futebol a celebridades relâmpagos. Entretanto, a nação pouco se importa, pois se acostumaram com essa dicotômica realidade e pouco se mobilizam para muda-la.

Além disso, os professores ainda são obrigados a trabalhar em condições precárias. Mesmo com os avanços educacionais brasileiros, muitas escolas do país pecam no quesito estrutura. Faltam carteiras confortáveis para alunos e professores. A água e alimentação nem sempre chegam para alimentar e saciar esses alunos carentes e famintos de nutrientes e saber. Não há bibliotecas apropriadas para aulas dinâmicas ou laboratórios para experimentos extra sala. O material didático é de baixa qualidade, reduzindo ainda mais o nível das aulas. Somado a isso, estratégias governamentais para atenuar essa realidade acabam assumindo outros efeitos colaterais. As inúmeras “bolsas” ofertadas pelos políticos, para manter o alunado na escola, não surtiram os efeitos esperados. Contraditoriamente, financiar a permanência de jovens na escola serviu apenas como potencializador de gravidezes entre miseráveis, que encontram nessas migalhas a chance de usufruir do dinheiro público e também ampliar a já gritante taxa de natalidade no país. Nesse sentido, vale pontuar a criação das escolas integrais e semi-integrais, que tem como finalidade manter o aluno na escola, com aulas dinâmicas e produtivas. Contudo, a falta de fiscalização governamental mostra que, em muitas instituições, a teoria não vem sendo aplicada a prática, pois a construção do saber desses jovens integralmente não vem sendo realizada como se desejara.

Em meio a isso, o professor ainda é obrigado a conviver com um fenômeno antigo, mas que vem protagonizando o palco escolar com cada vez mais veemência: a violência. Ela que não se restringiu aos limites externos da escola e conseguiu adentrar em seu espaço. Fruto da árvore genealógica da desigualdade social, muitas crianças e jovens trazem na bagagem a brutalidade de que foram e são vítimas fora da atmosfera de ensino. Então, inconscientemente acabam muitas vezes agredindo colegas, professores, entre outros profissionais. No Brasil, cresce exponencialmente os casos de agressão escolar entre alunos e professores. Ao mesmo tempo, o Bullying vem se popularizando entre os corredores de colégio e a sociedade, omissa, deixa para o educador o papel de solucionar essas lacunas. Diante desse quadro violento, os educadores são obrigados a ministrar suas aulas, tentando salvar muitos jovens da selvageria de que foram raptados. Tudo isso sem proteção, nem respaldo escolar, visto que muitos alunos agridem professores e nada de fato é resolvido em prol desse profissional. Sem contar que, devido a acumulo de tarefas, esgotamento, fadiga, e doses cavalares de desrespeito, muitos educadores perdem os sentidos e acabam ferindo aqueles alunos que violam a fronteira entre eles e aqueles profissionais. Todo esse caos é fruto do descaso que o governo e a sociedade exercem sobre o professor. Enquanto o país não se conscientizar da importância desse docente para a construção de uma nação mais rica, em múltiplos sentidos, não poderemos sonhar com o real desenvolvimento da pátria.

Diante desse quadro, não há muito que se comemorar, mas sim, o que melhorar. Melhorar o salário desses profissionais, para que eles recebem o valor digno pelos seus esforços e possam se aposentar confortavelmente no fim de suas carreiras.  Melhorar a estrutura física das escolas e todos os instrumentos compostos por ela, para que o educador se sinta apto a exercer sua função da melhor forma possível. Melhorar a relação professor e sociedade, perpetuando uma cultura social da qual a família tem o dever de ensinar aos seus filhos desde cedo à importância de se respeitar essa figura, não apenas por ser alguém que vai lhe passar um dado conhecimento, mas porque o professor é a segunda família daquele indivíduo e que sua contribuição mudará a vida daquele jovem. Melhorar também e, sobretudo, o reconhecimento midiático desses trabalhadores, para que a sociedade valorize esses educadores que passam anos estudando numa faculdade, fazem pós-graduações, mestrados, doutorados, porém são esquecidos e invisibilizados no cotidiano, pois não fazem parte do grupo das profissões mais prestigiosas e/ou privilegiadas do país. Se estes e outros pontos foram significativamente melhorados, poderemos cogitar e quem sabe pensar numa nação desenvolvida e rica em vários sentidos. Se isso for feito, então teremos muito que comemorar e a quem homenagear de verdade nos próximos 15 de outubro.

Trair é uma necessidade humana

By On 06:09
Sempre que se fala dos desejos humanos, inevitavelmente se trafega por áreas perigosas. Esse movediço terreno conta, entre outras coisas, com os tabus sociais, sobretudo no que diz respeito à realização sexual e a busca de prazeres fora dos “convencionais”.  E quando tais vontades extrapolam a convivência monogâmica de um casal, o debate ganha estratosféricas proporções. Nesse sentido, para aqueles que são impulsionados a encontrar sua “alma gêmea”, nada é mais imperdoável do que a traição. Trair significa quebrar com o estabelecido pelo santo sacro matrimônio religioso. É romper a tênue linha da fidelidade. É desonrar o compromisso firmado desde o primeiro encontro, do primeiro beijo, da primeira noite de amor. De fato, quando se encontra alguém de que se gosta é importante manter um vínculo de lealdade, mas entre ser leal e fiel há uma quilométrica barreira, da qual poucos enxergam.
Na verdade, há algumas possíveis explicações para que isso ocorra. A primeira delas reside na idealização do amor romântico propagado em filmes, novelas e seriados de televisão. A construção midiática do casal apaixonado, que enfrenta tudo e todos para manter seu amor, quase que irreal, afronta a vista dos telespectadores, enchendo-os de esperanças. Em todas as cenas, casais enamorados trocam juras de amor eterno, se entregam loucamente a paixão e, principalmente, não traem. Isto porque, a traição colocaria a perder a estabilidade da relação conjugal e reconfiguraria o modelo padronizado de conduta esperado pela sociedade. Por essa razão, os personagens que desejam se infiltrar na impenetrável monogamia são tachados de vilões, ou seja, trair ainda é visto com antagonismo nestes contextos. Do outro lado, muitas vezes passivo, o expectador é levado a acreditar cegamente que a traição nesses moldes é algo nefasto e que o ato de realizá-la o enquadraria ao patamar de vilão.
Infelizmente, tal postura resulta de outra negativa: a de que o ser humano ignora, ou tenta manter no limbo, o seu lado mais animal. O mesmo extinto voraz de matar a fome e a sede, de defender sua cria, de marcar e demarcar território, de se sobrepor a outros grupos, de copular com mais de um membro da mesma espécie, não está limitado ao ambiente dos animais irracionais. Todos os humanos diariamente manifestam similares características quando desejam saciar suas vontades e com o sexo não é diferente. É por isso que, mesmo acompanhados, não deixamos de olhar para aquela garota de corpo escultural que passa ao nosso lado. Nem tão pouco aquele rapaz, com pinta de galã, não passa despercebido por algumas mulheres. Em ambos os casos, não há a concretização, a priori, da traição, mas a manifestação dela em pensamento que será ou não realizada. Então, porque desejamos o outro mesmo estando comprometidos? Simplesmente porque estamos vivos e, como outros seres vivos, necessitamos manter contatos mais íntimos com o outrem antes de firmar algo mais sólido.
Famintos, ou no mínimo curiosos, nos sentimos atraídos por outros quase que inconscientemente, mas somos impelidos de manifestar nossas fantasias, pois aprendemos que trair é pecado. Essa áurea pecaminosa é fruto de uma cultura religiosa a qual perpetuou o casamento monogâmico como via de regra, que deverá ser firmado na presença divina, com direito a juras eternas e, se possível com pares de aliança, vestido branco e uma inesquecível lua de mel. Se isso tudo fosse suficiente, muitos casais que se casam nesses moldes não traíram. E porque traem? Por que faltou amor? Por que o amor não era verdadeiro? Não. Se a relação não deu certo e desembocou numa possível traição, entre outras razões, foi porque o lado animalesco de uma das partes não se prendeu as simbologias pregadas pela sociedade. Nestes casos, houve a manifestação do real animal que existe dentre de nós, mas que adormecemos para fazer parte de determinadas culturas. Padrões estes que são relativizados em vários pontos do globo, pois enquanto em alguns países orientais homens podem manter relações com várias mulheres, desde que possam cuidar de todas. No ocidente, em especial no Brasil, ainda há essa discussão rasa sobre os relacionamentos conjugais.
Devido a isso, cabe pontuar também a cultura do pertencimento. Aprendemos desde cedo que a vida nos proporcionará uma alma gêmea, a outra metade da laranja, o príncipe ou princesa que sempre esperávamos. Por causa desses devaneios, ao iniciarmos uma relação, dizemos abertamente frases do tipo: “você é só meu”, “Você nasceu pra mim”, “eu não consigo viver sem você” e outras pérolas do gênero. Sem perceber, ao dizer isso, estamos criando uma teia de interdependência, a qual o desejo de possuir o outro como um objeto sobrepõe-se ao amor e outros sentimentos benfazejos que deveriam fazer parte dos verdadeiros romances. Isso acontece porque casamentos ou simples namoros são construídos na ideia egoísta de que o outro nos pertence e, por isso, deve seguir regras preestabelecidas por nós para manter a salvo a relação. Como o ser humano, entre outros animais, não nasceu para viver enjaulado, logo trata de buscar na clandestinidade da vida a liberdade necessária para viver intensamente. É, então, que surge a traição, pois ela, neste momento, representa o autêntico humano que existe dentro de nós que, por diversas razões é enclausurado.
Nessa desconstrução dos contos de fadas, no mundo real, há uma gritante diferença entre ser leal e ser fiel. A primeira palavra denota franqueza, honestidade, compromisso. Diferente da segunda, a qual significa decente, casto, justo, verdadeiro e outras designações do gênero. Só nessa breve conceituação dá para perceber a distância entre ambas. Porém, para clarificar a questão, dentro do contexto em voga, vale uma explicação mais acurada. Quando se firma uma relação com alguém se cria um compromisso com o outro, este que requer horários para encontros pré-determinados, andar de mãos dadas, sair para jantar, e outras formalidades do gênero. Logo, a deslealdade se dá quando uma das partes não cumpre com esse compromisso oficializado desde o momento em que ambos decidiram manter uma relação em comum. Entretanto, infidelidade se refere ao ato de não ser verdadeiro com o outro nem consigo mesmo. É enganar o companheiro (a) com falsas promessas de amor e companheirismo que na verdade não poderão ser cumpridas. Nesse sentido, numa relação muitas vezes confundimos tais palavras e trocamos fidelidade por lealdade e virse-versa.
Por tudo isso, se a sociedade e, porque não a humanidade, continuar com esse byronismo em busca de um romance do qual a traição leva ao divórcio e ao ultimato dos relacionamentos, então é melhor rever a forma com o encaramos esses dilemas o quanto antes. Infelizmente, querendo ou não, concreto ou não, flagrando ou não, todos inevitavelmente traem seus companheiros (as) e são traídos por estes. Seja num singelo olhar para aquele indivíduo que se mostrou mais interessante. Seja na idealização de um parceiro (a) mais atraente, inteligente..., mesmo que o indivíduo já possua um alguém em sua vida. Seja também em pensamento, porque mesmo enamorados, ou com longos anos de casamento, podemos até fingir para o outro do nosso lado que ele é a única pessoa de nossas vidas, mas ao cair da noite o desejo de estar em outros braços atormenta nossos corpos. E na hora do sexo também há traição, quando estamos ali apenas cumprindo um papel, mas com a mente vagando em outros planos. E tudo isso é possível com a presença do amor, sim, basta que se entenda a diferença entre ser leal e fiel e, ao mesmo tempo, que se compreenda a traição não apenas como algo pecaminoso, similar ao beijo de Judas em Jesus Cristo. Trair, nesta atmosfera, quer dizer estar vivo, pulsante e pronto para renovar nossas escolhas. Claro que há exceções. Porém, não podemos deixar escapar a chance de ser feliz apenas porque dizem que isso e aquilo é bom ou ruim. Viver é um exercício de libertação.

Like A Virgin

By On 06:08

É incrível como tabulamos certos assuntos. Mais incrível ainda é saber que esses mesmos assuntos geralmente giram em torno do sexo e seus “mistérios”.  Mistérios que vendem livros, ganham quadros em programas de auditório, circulam em mesas redondas e tantos outros debates pelo país; entre outras pautas importantes sobre esse tema.  Em meio a isso, a virgindade surge como um mito. Ser virgem numa sociedade que apela, grita, vocifera por sexo é o mesmo que não ser desse planeta, ou, é como se o indivíduo possuísse algo de especial, divino, sacralizado no meio das pernas. Nos esquecemos, porém, que uma coisa necessariamente não tem nada a ver com a outra. Na verdade, por diversas razões santificamos o nosso corpo nesse aspecto para ludibriar nossos reais pensamentos lascivos. Geralmente para passar a falsa ideia de pureza para o outrem. Ou, entregamos abruptamente nossa virgindade, movidos pelas pulsões intimamente humanas ou pelas constantes imposições sociais. Nisso tudo paira a dúvida: quando é o momento certo para se fazer sexo pela primeira vez?

Ser ou não ser mais virgem, eis a questão. Inevitavelmente, todos nós passamos por esse dilema na construção da sexualidade humana. A tão temida primeira vez é ansiada por alguns e procrastinada por outros, por razões diversas em contextos também variados. Se no passado possuir o corpo intocado significava ter maiores chances de construir uma família pautada na decência e nos bons costumes, hoje a realidade é bem diferente. Não que a decência e os bons costumes tenham sumidos por completo. Entretanto, não há mais esse peso na responsabilidade matrimonial que obriguem casais de se unirem totalmente intactos no tocante sexo. O que há hoje é algo bem mais perigoso: a utilização maniqueísta da virgindade. De um lado, meninos e meninas pressionados pelas esferas sociais a romper essa fase a todo custo e, do outro, um pequeno grupo utilizando a virgindade como uma relíquia moralizada que deve ser preservada até o altar.
Nesse embate, as meninas são as que mais sofrem. Tolhidas desde cedo por essa sociedade ainda machista, elas são bloqueadas de manifestar suas vontades sexuais pela família, pela sociedade, pela religião e tantas outras esferas que secundarizam os desejos femininos. Sem dúvidas, a pressão familiar, imposta pela sociedade para que a menina se torne uma mulher direita, de bem e honesta, aparece como uma das principais causas disso. Muitos lares ainda educam suas filhas a serem e se casarem virgens, como se isso indicasse honestidade e honradez plena. De fato, quando se quer esperar um pouco mais para se concretizar tal feito, isso deve ser respeitado. Mas, não podemos, enquanto familiares, impor que a virgindade seja encarada como uma honraria ao macho alfa, que terá o maior prazer em desvirginar a sua amada, como num ritual. Ao fazer isso, estaremos regressando a outros tempos, dos quais meninas serviam de oráculos em cerimônias mágicas ou sagradas.
Na verdade, a teatralização em torno do primeiro ato sexual é fruto de todo esse misticismo que envolve a liberação sexual. Acreditava-se, e ainda acreditamos que, entre as mulheres, a pureza deve ser guardada até os últimos instantes. Alimentando isso vem à idealização da virgem Maria servindo de modelo para que meninas se inspirem nisso como devoção. Por isso que muitas sonham em casar-se de branco, pois pretendem fazer parte desse sonho imposto pela tradição religiosa, mesmo que por dentro a vontade de romper esse paradigma seja imensurável. E muitas acabam perdendo sua virgindade de outra forma. Para deixar de ser virgem basta perder a pureza, a inocência e isso muitas delas já não possuem mais, já que há outras formas de se fazer sexo, sem necessariamente ter a penetração pênis e vagina. Além disso, nossa cultura do sexo trata rapidamente de introduzir, muitas vezes de forma errônea, essas jovens no submundo do prazer. É por essa razão que muitas garotas subvertem esse sistema e se entregam deliberadamente aos prazeres, trazendo consequências como gravidezes indesejadas e até doenças. Então, era melhor esperar a hora correta? O melhor era ensinar a essas jovens a ter autonomia e maturidade sobre o seu corpo. Só assim evitaríamos puritanismo e promiscuidade exacerbados.
Na outra ponta do iceberg estão os meninos. Para quem não sabe, eles também sofrem e muito quando o assunto é virgindade. Mesmo vivendo numa sociedade onde o macho dita costumes e regras, quando o assunto é virgindade, nem mesmo ele escapa. Não é muito comum encontrarmos rapazes, nesta sociedade que o inicia cada vez mais cedo no sexo, virgens. Quando isso ocorre rapidamente tratamos de elaborar teorias mirabolantes para justificar o fato. “Acho que ele deve ter algum problema de saúde”; ele pode ter vergonha do tamanho do pênis, só pode!”; “talvez ele seja gay e não quer assumir e fica inventando essa de virgem”. Essas e outras atrocidades são proferidas por muitos ignorantes ao discutir esse tema sob o enfoque masculino. Isso porque, se a mulher sofre para manter a sua virgindade até a data “correta” eles penam para iniciar o quanto antes a vida na cama. Para isso vale tudo: comprar filmes e revistinhas estimulantes, levar a prostíbulos, contratar prostitutas, tudo para que o varão perpetue os estamentos sociais sobre o sexo dominante de que faz parte. Devido a essas atitudes, muitos deles enveredam pelos prazeres sexuais de uma forma incompleta e, muitas vezes perigosa.
No meio disso tudo, há aqueles que se utilizam da virgindade para moralizar a vida social. Numa cultura onde o sexo é altamente banalizado, quem consegue conter seus desejos se torna emblematicamente sacralizado. De certo modo, aqueles e aquelas que escolhem resguardar suas intimidades para momentos mais específicos, com pessoas criteriosamente escolhidas e em momentos planejados, devem ser indiscutivelmente respeitados por isso. No entanto, certos indivíduos usam sua assexualidade para tachar o outro de lascivo, promiscuo e vulgar. Ora, se uns tem o direito de esperar um pouco mais, outros podem realizar tal feito quando assim desejarem. Essa postura conservadora de alguns em relação ao desejo alheio é fruto, sobretudo, da influência religiosa na sociedade. Muitas igrejas pregam filosofias castas, as quais restringem o sexo apenas ao momento do casório. Certo ou errado, alguns absorvem esses conceitos distorcidamente e desconsideram o instinto animal existente em cada um de nós. Em outras palavras, por mais racionais que sejamos na hora da cópula somos tão ou mais selvagens que muitas feras indomáveis.
É por essa razão que os índices envolvendo traumas na primeira relação sexual são bastante comuns. Depoimentos de meninas frustradas com a primeira vez mal realizada, antes ou depois do casamento, brotam aos montes. Da mesma maneira que rapazes despreparados para o ato sexual guardam os constrangimentos e traumas desse momento pelo resto da vida. Diante de tudo isso fica claro que o problema não está em perder ou não à virgindade, nem o melhor momento para tal. A discussão maior gira em torno do sexo. Ele que ainda não é debatido de forma madura entre pais, educadores e religiosos. Por essa razão é que existe essa bifurcação na sociedade: de um lado os que sacrificam seus prazeres e sensações em prol de uma virgindade longínqua e, do outro, aqueles que subvertem esses ditames, nem sempre da melhor forma. Enquanto nada de significativo é feito em torno dessa problemática, a sociedade segue seu curso sexual conturbado e distorcido. Mais e mais jovens são impelidos a seguir um desses caminhos, os quais muitas vezes não levam a felicidade sexual tão desejada por muitos. Dessa forma, o mas prudente é desmistificar a áurea de pecado e santificação sobre a virgindade humana e tentar criar caminhos menos traumáticos para aqueles que cedo ou tarde trilharão o inevitável caminho do prazer.

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