O que te faz ser Brasileiro?



A valorização de uma pátria está intimamente ligada à ideia de exaltação das riquezas que esta possui. Esses bens podem variar muito de um país a outro, mas sempre são elementos simbólicos que caracterizam uma dada cultura. Por exemplo, na Espanha temos as touradas, Nos Estados Unidos o Beisebol, Na Argentina o tango, no Egito as Pirâmides, dentre tantas outras estruturas iconoclásticas espalhadas pelo mundo, que servem de instrumento para identificar uma determinada nação. Não diferente desses países, aqui no Brasil também temos os nossos ícones culturais que são impostos a cada cidadão como forma de nacionalizar a identidade destes. O problema é que quando há uma possível rejeição ao modelo vigente logo surgem os questionamentos sobre o que é realmente ser brasileiro, numa terra que tem como sobrenome a palavra pluralidade.

Cores, paladares, ritmos, ritos, tribos, diante de tanta diversidade o nosso país foi construído e hoje esse mar de culturas forma o Brasil que conhecemos. Mesmo assim, desde crianças “aprendemos” a gostar de certos símbolos nacionais, pois isso faz com que estejamos incluídos no que a sociedade espera de nós. O samba, nesse sentido, pode exemplificar um pouco toda essa discussão. Considerado como o ritmo nacional, a beleza musical dele é inegável e tem servido de referência para projetar a cultura musical do país para o resto do mundo. No entanto, visto de outro ângulo, a exaltação sulista desse gênero musical fez com que outros estilos não recebessem o mesmo reconhecimento da nação. Na verdade, gira em torno do samba uma áurea elitista que se estende a outros gêneros musicais, a qual tenta enquadrar o gosto do brasileiro naquilo que é considerado como “boa música”, ignorando outros estilos espalhados pelo país.

Gostar de futebol também está na lista dos pré-requisitos para ser brasileiro. Isto porque somos o único país pentacampeão mundial nesse esporte e por causa desse título devemos sempre estar unidos para torcer pelo time que irá nos representar. Isso não é uma tarefa simples, já que não é fácil nascer numa terra onde desde pequenos somos impelidos a torcer por jogadores semialfabetizados – ou quiçá pseudoalfabetizados – os quais recebem salários colossais, enquanto o resto da nação – os torcedores – se contenta com as migalhas ofertadas pelo governo. Na realidade, o futebol se configura como símbolo do patriotismo as avessas. Enquanto a copa do mundo de 2014 se aproxima, como maior evento esportivo do mundo, o qual receberá gigantescas quantias de dinheiro para estruturar, ou porque não maquiar o Brasil para copa, muitos dos nossos problemas básicos continuarão pulsantes, mesmo quando esse campeonato terminar. Porém, o povo prefere dar às mãos numa hipnose coletiva, da qual negros e brancos, pobres e ricos, homens e mulheres, religiosos e ateus, gays e héteros, são todos iguais, pelo menos até o final desse evento quando tudo voltar a ser como antes.

Ter uma religião é outro fator importantíssimo para a caracterização da nossa identidade como brasileiro. Num país onde a fé é multifacetada, devido, sobretudo a inserção de inúmeras culturas que aqui vieram, é inadmissível saber que um indivíduo não faça parte de algum segmento religioso, principalmente aqueles ligados ao dogmatismo Cristão, o qual nos foi herdado ironicamente pelos nossos colonizadores lusitanos. Isto é, ser ateu, ou seguir outras doutrinas que não estejam em total afinidade com o Catolicismo, pode ser um ato de heresia, sob pena de ser rechaçado preconceituosamente pela sociedade. Preconceito que não se limita apenas a religião. Num país onde a visão machista ainda é operante, não é de se surpreender que a mulher seja também um dos símbolos do nosso país. Cultuada de várias formas, algumas pejorativas, a mulher, no sentido hétero da palavra, é usada muitas vezes para justificar o preconceito contra os grupos que têm uma predisposição sexual diferenciada dos padrões. Ou seja, ser gay numa nação predominantemente feminina é quase como ser um estrangeiro vivendo de forma ilegal dentro de um país.

Esses são os principais símbolos da nossa cultura hipnótica, ou pelo menos alguns deles, mas não são os únicos. Desde pequenos somos obrigados inconscientemente a gostar de coca cola, de novela. Aprendemos também que a beleza não é interior, mas sim um rótulo de corpos malhados e rostos fotoshopados pelos programas de televisão. Entre tantos outros símbolos alienatórios que nos induzem a cultuar um modelo “perfeito” de existência e nem ao menos conseguimos nos dar conta dos perigos que isso acarreta para a nossas vidas. De fato, tudo isso faz de cada um de nós um pouco brasileiro, mas não é, e nem deveria ser os critérios principais para ser cidadão desse país. O que nos faz ser brasileiro é a nossa riqueza natural, desde a verdejante Amazônia até aridez do nosso nordeste. É a união de forças em prol da diminuição da desigualdade social a qual se configura como a uma das principais vilãs das nossas mazelas sociais. É cobrar dos representantes políticos escolhidos por nós um real comprometimento em solucionar os problemas vividos por nós, sobretudo aqueles ligados à educação.

Logo, ser brasileiro vai muito além do que torcer por um time, ser sambista, ter uma religião ou gostar de mulher. É, antes de tudo, um exercício de cidadania do qual cada um enxerga a nossa realidade e tentar de alguma forma mudá-la qualitativamente em benéfico do povo. Ser brasileiro é, ainda, exaltar o que realmente temos de melhor e não coisas supérfluas que não trazem benefício algum para a coletividade social, mas sim pequenos paliativos que com o tempo serão esquecidos. É também valorizar os grandes brasileiros, os anônimos e os notáveis, que fazem algo honrado por esse país. Mas, para isso, temos que começar a deixar o palco das marionetes, onde os grandes dominam os pequenos, e passarmos a ser agentes transformadores de nossas vidas. Só assim essas discrepâncias deixarão de existir e o que, ou quem, realmente vale a pena será valorizado.

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