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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

E o Oscar vai para?! Os brancos!

By On 13:46

O preconceito não escolhe hora, lugar, classe social e, pelo visto, nem cerimônia para se manifestar. A listagem do Oscar 2016 comprova essa máxima. Ao divulgar uma lista com seus concorrentes todos de pele clara, aquele evento anuncia para todo mundo ver que o racismo não está limitado as baixas classes econômicas, ou a um assombramento histórico, visto por muitos como ontológico. A diferenciação racial encontra terreno fértil, sobretudo nas camadas mais favorecidas, das quais o acesso a bens de consumo, inclusive a arte, são restringidos aos majoritariamente favorecidos: os brancos. Embora seja uma verdade quase que incontestável, há sempre aqueles contrários a existência do racismo, como tentativa de deslegitima-lo e/ou silenciá-lo. Muito embora seja impossível extirpar o preconceito da sociedade, e por essa razão o preconceituoso, é sempre pertinente resgatar a temática racial na esperança de desconstruir futuros preconceitos em torno desse assunto. Foi o que talvez despretensiosamente a polêmica do Oscar tenha feito.

Curiosamente, quando li sobre a hashtag #OscarsSoWhite, não culpei, a priori, os organizadores da cerimônia por não colocarem em sua listagem deste ano algum ator negro como possível concorrente a estatueta. Pensei que a banca não tivesse encontrado candidatos de cor a altura de competirem com atores de pele mais clara. Entretanto, por outro lado, conjecturei: por que isso ocorreu pelo segundo ano consecutivo? Será que por falta de atores competentes de pele negra? Não. Numa segregação racial menos velada do que a Brasileira, da qual negros e brancos não se homogeneízam, acharam por bem deixar isso ainda mais evidente ao excluírem atores e atrizes negros de sequer comporem o quadro dos seletos escolhidos da premiação 2016 do Oscar. O problema é que com essa atitude, o próprio Oscar ingenuamente deixa claro o que no Brasil já é uma realidade há tempos: a cultura erudita, bem como as consideradas “boas artes”, não estão abertas aos negros, muito menos em premiá-los. 


videntemente que essa demonstração de preconceito não passaria despercebida por outros artistas. O boicote foi a arma utilizada por atores, cantores e diretores de protestar nas redes sociais contra a soberania branca no Oscar. Achei a alternativa válida, sobretudo porque é no levante que nasce a discussão e, geralmente, a problematização do tema. É preciso falar sobre o racismo que corrompe vidas nos espaços público, privado e agora midiático internacional, já que aqui no Brasil isso já vem ocorrendo há anos em nossas telenovelas. Muita falação veio à tona, ao passo que muito preconceito foi jogado no ventilador até mesmo por algumas celebridades que classificaram o boicote como “racismo contra brancos”, alegando que a premiação do Oscar se dá por merecimento e não por melanina. Ora, é indubitável que os mais talentosos devem ser agraciados por seus méritos. Porém, é inquestionável o erro que há nos critérios de avaliação desse prêmio, dentre tantos outros, que há anos vem prestigiando, em sua maioria, celebridades brancas e quase ninguém questiona o porquê disso.

Fiquei pensando também nas implicações desse acontecimento por aqui onde o racismo é ensinado, naturalizado, midiatizado e institucionalizado. Lembrei imediatamente em filmes nacionais como Cidade de Deus e Tropa de Elite, dentre outros, cujo pano de fundo é a marginalização negra na periferia simplesmente mostrada e não aprofundada, colocando o espectador na posição de perpetuador dos discursos de sempre em torno dos negros. O reflexo disso é toda uma herança negra deturpada e obscurecida. É por isso que não se destaca a cultura desse grupo na mídia como se deveria. Quando o faz é com chacota, geralmente atingindo sua religião ou atribuindo-lhe o estereótipo do malandro. Falta também representatividade para romper esse discurso. Atores como Lázaro Ramos precisam suar muito a camisa para fugir desse padrão e conseguir algum destaque midiático que não se restrinja a novelas de época, tendo o negro interpretando mais uma vez o papel exaustivo de escravo. Casos como o dele, porém, são minúsculos se comparados com a quantidade imensurável de negros subalternizados dentro e fora da mídia. Fica claro que o que é de negro não merece ser reproduzido, tampouco premiado.


Ao segregar o negro ao patamar sempre de coadjuvante, isso quando este não é obscurecido totalmente, Hollywood, e porque não o mundo, impuseram a ele a criação de uma subcultura, nascida da revolta de um grupo desprovido de oportunidade de fazer e mostrar sua arte. No Brasil, não faltam exemplos nesse sentido. Da capoeira, ao Candomblé, do samba ao maracatu, do funk ao hip hop, os negros foram limitados a expressar sua arte em guetos e, a partir da intervenção branca, é que algo poderia ser alçado ao limiar de cultura de qualidade, como é o caso do samba. Ou seja, o que a cerimônia do Oscar fez não foi apenas limitar a presença negra em sua premiação, mas sim ratificar a limitação da mídia como um todo em retratar esse negro em sua tela, respeitando entre outras coisas a sua ancestralidade e herança cultural. Digo isso porque todas as vezes que uma minoria ganha espaço na grande mídia, surgi também as causas de um grupo, suas conquistas e demandas. É como se aquele indivíduo representasse mesmo que silenciosamente uma massa. Agora entendemos por que a ausência de negros entre os candidatos ao Oscar incomodou tanto nas redes sociais, pois muitos não se viram pertencendo ao padrão exposto pela premiação.

Esse foi o tiro pela culatra dado pela premiação. Acredito que eles pensaram que ao anular a presença negra da premiação, pela segunda vez consecutiva, não iria ser notada por aqueles que vivem o preconceito na prática. Depois de evidenciada a inescrupulosa ação do Oscar, o próprio evento se prontificou em fazer ajustes na premiação ao longo dos próximos anos, agregando com mais cuidado negros e latinos à premiação. Ora, com tal atitude, o maior prêmio cinematográfico do planeta assume para a grande mídia o equívoco cometido em selecionar apenas atores em uma indústria fílmica claramente heterogênea? Será que abrir uma “cota” para negros, dentre outras etnias, é a ideia mais acertada nesse sentido, do que reconhecer a cultura desse grupo, seus talentos, bem como a sua influência para formação cultural do mundo, trazendo tamanho legado para dentro da grande tela sem vitimismos nem pieguismos? Ou será que tudo isso não passou de mais uma estratégia de marketing para atrair mais holofotes para àquela celebração, da qual a vaidade é a única protagonista? Certamente, não é possível mensurar as reais intensões do Oscar diante ao espetáculo que se criou em meio a essa polêmica, mas é pertinente especular.


O cinema hollywoodiano é, sem dúvidas, uma grande indústria de arrecadação monetária. A festa do Oscar configura-se como o ápice dessa celebração. Toda publicidade a mais é bem vinda para atrair a atenção da mídia internacional para tal evento, cada vez mais previsível e repleto de clichês. Foi o que talvez toda essa polêmica tenha proporcionado ao Oscar: mais publicidade gratuita, dando visibilidade a festa que a cada ano tenta surpreender, mas peca pela previsibilidade nas premiações. Além disso, ao proporcionar, depois de protestos, uma fissura para que artistas negros tenham maior presença entre os futuros indicados a tal festa, não pense que estão fazendo isso para agregar valor ao Oscar. Pelo contrário, é mais uma tentativa fracassada da academia de não entender que não é preciso “facilitar” a entrada de qualquer grupo étnico no seio das mais aclamadas celebridades mundiais. Não é isso que os atores e atrizes negros estão buscando. Eles precisam de roteiros que os protagonizem cinematograficamente frente ao mundo externo, onde eles são figurantes de suas próprias realidades. Os artistas negros precisam ser premiados não pelo o que são, mas pelo que estão fazendo e vivendo em suas realidades, dentro ou fora da tela, bem como mulheres, gays, judeus, índios, pobres, dentre outras minorias, vivem suas mazelas e não as veem sendo devidamente representadas pelo próprio cinema.

Se não há uma representação real para esses grupos, nos quais o negro se tornou protagonista em 2016, o que será dos anos seguintes. Percebam que a mesma lista que cunhou a polêmica atual não contém nenhum artista pobre, gay, nem de descendência claramente indígena. Ou seja, o cinema que deveria ser responsável por prestar um serviço à sociedade - ao retratar a realidade além das metáforas existentes, contradições e exclusões-, com os recursos linguísticos/literários/artísticos capazes de repaginar aquelas realidades, numa outra mais possível, subversiva e transgressora, caminha à marcha ré disso ao impedir que tais dicotomias invadam as fronteiras do cinema afim de ressignificá-las. Em outras palavras, o Oscar deixa claro o desserviço das artes para com aqueles que historicamente foram, e ainda são, invisibilizados pela grande massa a partir de preconceitos históricos pré-concebidos, em um panorama educacional que não inclui, mas sim reproduz os estamentos de sempre sobre quem pode ou não fazer parte da seleta lista dos majoritários; assim como dos que podem ou não ser premiados com a estatueta brilhante.


A despretensiosa atitude do Oscar 2016 trouxe ao jugo popular a necessidade urgentíssima de se validar a cultura e herança dos negros no cinema, e nas artes em geral. É preciso resgatar o diálogo de que se precisa para entender melhor o que é o racismo, sua manifestação em públicos diversos, a participação dele nas mais diversas esferas sociais, para enfim lidar com esse problema da melhor forma possível no cinema. Mesmo que muito chorume tenha sido derramado em forma de palavra – já que não é possível impor limites para a ignorância alheia -, é na discussão entre mentes distintas que se encontram as armas para a construção de um debate mais salutar sobre esse e tantos outros temas. Talvez essa tenha sido a principal lição deixada por tudo isso: o empoderamento de diversas pessoas em prol de uma causa tão antiga, quiçá ultrapassada, mas que insiste em ressurgir para deixar bem claro como o ser humano é regredido no que se refere à questão racial. Também é válido mencionar o papel da grande rede em propagar os discursos que viralizam na internet causando uma grande repercussão e, com isso, possibilitando novos diálogos. Obviamente, tais discursos devem ser antes filtrandos, separando as impurezas da intolerância a qual infelizmente domina o meio virtual.

Ainda há muito a ser feito para que “falhas” como a do Oscar não voltem a se repetir. Como disse Viola Davis “a culpa não é do Oscar”. Concordo plenamente com ela. Porém, vejo esse evento como possível modificador dessa realidade e, ao invés disso, ele prefere reproduzir os mesmos dilemas da realidade. Por quê? Porque o preconceito insurge no desconhecimento. A academia não sabe o que é ser negro. Não conhece suas lutas e dissabores diários. Não vê a realidade com os olhos dessa minoria. Nem sequer sabe o que é ser minoria. Por isso é difícil reproduzir fidedignamente os negros, da mesma forma que presenteá-los. Como premiar a quem cujo talento não foi dado espaço? Sem essa avaliação, coube ao cinema Americano a triste ideia de reproduzir a sua realidade branca nas milhões de salas de cinema espalhadas pelo planeta, esquecendo-se das inúmeras demandas vivenciadas pelo seu público heterogêneo. Por isso, quando anunciarem: E Oscar vai para?! Nem se entusiasme, pois levará tempo até que o cinema, e as artes no geral, protagonizem aqueles que estão penando como figurantes na sociedade.



“O enfrentamento do preconceito deve começar ampliando essa visão do outro, preferencialmente nesse caso com óculos 3D, para não restar nenhuma dúvida de sua existência”. 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Todo mundo nu(des)

By On 11:41

A nudez tem sido encarada de diferentes formas ao longo da história. Desde o mito de Adão e Eva até as atuais praias de nudismo, a visão da sociedade em torno da exposição do corpo ganhou novas conotações, muitas delas, porém, ainda ligadas à luxúria e ao pecado. O que não mudou foi o gueto onde a nudez é apresentada. Antecedente ao sexo, o nu, fortemente censurado pelo conservadorismo social, continua sentenciado aos prostíbulos, bordeis, revistas e sites de sacanagem, onde os interessados podem realizar suas fantasias mais lascivas, satisfazendo-se às escondidas. Entretanto, é na vigente geração celular que tal prática ganhou visibilidade. O fenômeno do mandar nudes vai muito além do envio de fotos íntimas. Representa uma transformação das relações interpessoais, também no modo como o indivíduo sente e dar prazer. Ao mesmo tempo, traz à tona problemáticas ligadas a abusos, constrangimentos e violências sexuais, numa sociedade carente de diálogo sobre sexo.

Justiça seja feita, essa conduta do nu pessoal não é mérito prioritário desses novos adventos tecnológicos. A história do Brasil começou a se desnudar, a princípio, com o choque entre os lusitanos e os nativos indígenas, no interessante embate entre a moral portuguesa e a amoralidade da nova terra. Anos depois, veio a controversa visão da inferioridade negra na escravidão, quando a nudez dos escravos era usufruída pelos senhores de engenho também para fins sexuais. O nu já foi tema de quadros e esculturas famosas. Esteve presente em histórias míticas como a do paraíso. No entanto, a nudez tal qual se conhece hoje em países ocidentais como o Brasil foi adquirida a duras penas. As peças foram diminuindo até que fosse possível o indivíduo ser visto com poucas roupas ou quase nada. O espartilho e pesados vestidos foram anos depois substituídos pelos tomara-que-caia e as minissaias. Depois vieram os biquínis, o topless, o carnaval escandalizando tudo ao trazer a nudez à avenida. O cinema, a moda, a música, as artes em geral, simultaneamente deram sua parcela para esse fenômeno que sempre esteve entre a inovação e a transgressão. O que o nudes tem de novo é a afronta a moralidade do país.

Em uma sociedade educada a não externalizar seus desejos, é no mínimo interessante saber que o nudes esteja acontecendo nesse momento em milhares de aparelhos celulares pelo país. Isto porque, aprende-se desde cedo a “esconcer as vergonhas”, até mesmo diante de familiares e amigos, para que só seja vista no ato conjugal, sobretudo após o matrimônio. Esse recato, porém, parece ter sido vencido pelas redes sociais, e os novos meios de interação. Por ser individual, rápido e discreto, o celular se tornou o meio pelo qual as fantasias se realizam. O indivíduo pode photoshopar as imagens antes de manda-las. Pode escolher qual parte do corpo ficará melhor na foto, bem como que ângulo vai valoriza-la. Pode enviar para mais de uma pessoa aumentando seu êxito na paquera. Ainda tem a opção de esconder as fotos pessoais e guardar as alheias, evitando que alguém tenha acesso a esse conteúdo. Os locais também variam: desde de clichês como quartos e banheiros, a exóticos como ônibus, praças e até em espaços teoricamente proibidos como jurídicos e religiosos.

Em todo lugar é possível posar sensualmente para as lentes de um aparelho eletrônico e enviar fotos picantes para futuros pretendentes a namoro, ou apenas a um sexo casual. Ou seja, a piscada no olho, o toque nas mãos, o assovio, até mesmo a velha cantada, parecem estar com os dias contados. A frase “vamos nos conhecer melhor” transformou-se em “manda uma foto da tua...”. O nu volta a ser exaltado. Ele é a porta para a complexidade do outro, uma espécie de convite ao prazer subentendido. Os obstáculos morais e sociais são ignorados. Há uma troca de etapas. Antes se conhecia o parceiro para depois se chegar aos finalmente. Hoje o finalmente é o princípio. O sexo se realiza agora na velocidade de um byte. Não é preciso mais tantos diálogos. As pessoas se mostram umas às outras como em um menu, esperando para serem consumidas. É o prazer pelo prazer. O sexo como protagonista. O ser hedonista sem máscaras nem amarras. Sem perceber, a prática do manda nudes resgatou dois pontos caros à humanidade: o nu e o sexo, ambos poucos discutidos e muito polemizados.

Em contrapartida, não adianta resgatar essas questões sem problematiza-las no tempo e espaço em que elas ocorrem. Na realidade, mesmo com o conservadorismo político-religioso e social, nunca se mostrou tanto o corpo, e de forma tão precoce, do que na atualidade. Há muita orientação contra doenças venéreas, mas pouco se fala sobre sexo, sexualidade, orientação sexual, identidade de gênero, consciência corporal, dentre outras pautas pertinentes ao entendimento do prazer humano. Sem esse conhecimento, jovens crescem à mercê das influências a sua volta, numa sociedade palpavelmente ligada ao sexo. A sociedade cheira a sexo. Na mídia, na música, na moda, na escola, na rua.... Nas proibições não explicadas. Tudo é um convite ao sexo desinformado. O nudes é uma prova disso. Não é difícil encontrar na rede blogs e sites destinados a mostrar fotos de meninos e meninas em poses eróticas, ou até fazendo sexo. Ou seja, indivíduos que mal se apoderaram da própria sexualidade são levados a fazer parte de um mundo onde o exibicionismo gratuito é confundido com liberdade sexual.

Numa sociedade imagética, o ideal é parecer ser. Por isso que as redes sociais são tão populares e ganham tantos adeptos. As pessoas ali conctadas muitas vezes desconhecem os dilemas vividos pelo país na atualidade. Elas estão mais preocupadas com sua própria imagem, literalmente falando. Saõ fotos ousadas mostrando muito mais do que o corpo pode oferecer. Diante de tanta exibição, muitos indivíduos, sobretudo jovens, são sexualizados por cliques e comentários elogiosos sem perceber o perigo que reside nisso tudo. A sexualidade só pode ser exercida em plenitude a partir do momento em que o indivíduo passa pela maturação necessária para se entender enquanto sujeito sexual, dentro de um espaço plural onde a sexualidade dele faz parte de uma pluralidade maior e legítima. Sem esse entendimento, a sexualidade fica incompleta, deturpada, o que pode resvalar em problemas ligados a baixa estima, inaceitação, frustração, dentre outras patologias sociais e biológicas. Nesse sentido, o manda nudes tem se configurado, na vida desses jovens incipientes e despreparados para a iniciação sexual,  mais como um contato narcisistico com sexo, e por isso perigoso, do que como uma prática salutar.

Ao mesmo tempo que o manda nudes fez uma reviravolta na vida sexual das pessoas, possibilitando-as novas experiências, também mexeu com questões ainda pendentes na sociedade. Um delas diz respeito a corporificação da mulher. Elas infelizmente são os principais alvos e vítimas da violência sexual na rede. Geralmente, quando fotos íntimas são enviadas numa interação virtual não há garantias de que estarão seguras. A prova disso é que a prática do Sexting, o vazamento de imagens íntimas, que tem trazido graves prejuízos as vítimas. Nos EUA, por exemplo, há inúmeros casos envolvendo suicídios por constrangimento. No Brasil, há diversos casos parecidos, envolvendo até invasão de contas privadas de  personalidades, como o que ocorreu com a atriz Carolina Dickman e que resultou numa lei de mesmo nome. O problema se agrava ainda mais porque jovens moças, em sua maioria menores de idade, tornam-se presas fáceis da violência sexual na internet. Vítimas do sexismo que impera na sociedade, elas se veem encuraladas pelo machismo que dita até onde a sexualidade delas pode ir. Quando há qualquer transgressão, mesmo que inconsciente, elas são penalizadas pelo discurso facista da moral e dos bons costumes.

Para completar esse lado negativo do manda nudes, há a proliferação das Infecções Sexualmente Transmissíveis – IST e a AIDS. Recentemente, uma pesquisa feita pela Unicef na região entre o Pacífico e a Ásia constatou a proliferação de diversas infecções sexuais em função da popularidade dos aplicativos de paquera. Na verdade, paquera aqui é um eufemismo para pegação e sexo casual. Em muitos destes dispositivos, no momento em que a interação acontece, o manda nudes se materializa e, depois, acontece o sexo, muitas vezes sem proteção e com mais de uma pessoa. O resultado disso é o aumento de indivíduos infectados com o vírus da AIDS, principalmente na faixa etária entre os 15 aos 29 anos. Engana-se quem pensa que as únicas vítimas sejam homossexuais, embora estes ocupem a liderança no percetual dos infectados em decorrência do uso de aplicativos de “paquera”. Há muitos heterossexuais, idosos, pessoas casadas, enfim, uma grande variedade de pessoas que usufrem desses mecanismos. Por aqui, apesar de não haver até o momento pesquisas que liguem o crescimento das infecçlões sexuais com o uso de aplicativos, já há levantamentos informando um crescente índice de doenças sexuais entre jovens, possivelmente ligados à rede. A nudez quando mal administrada deixa significativas marcas, difíceis de serem esquecidas.

Outro ponto a ser citado envolve a influência das celebridades nacionais e internacionais flagradas em momentos íntimos. São muitos os artístas na lista: Jared Leto, Justin Bieber, Luana Piovani, Carolina Dickman, Stênio Garcia, Carlos Machado... entre outros nomes do show business tendo suas vidas privadas expostas em fotos ora hackeadas, ora expostas por livre e espontênea vontade. Nesses casos há um maniqueísmo que deve ser analisado. De um lado, é importante saber que não só os meros mortais são passíveis de terem imagens publicadas na rede. Artistias de renome também podem ser violados nesse sentido. Também é importante para naturalizar os corpos desses indivíduois, muitas vezes endeusados pela mídia. Do outro lado, porém, quando uma celebridade é exposta dentro da sua intimidade, em meio a um mundo amplamente conectado à internet, abre-se um leque de discussão em torno da privicidade alheia; da postura que se espera de um artista frente a seu público; da forma como a nudez se deu, pois muitas celebridades encontram no corpo a chance de se manter em evidência na mídia; e como o público receberá aquele ídolo depois de vê-lo em tal condição. Como a nudez ainda é um tabu, provavalmente a sociedade veja o nudista de forma apelativa, execrando-o. É como Nelson Rodrigues disse “Toda nudez será castigada”.

Talvez ele tenha razão, já que a sociedade vive numa palpável ambiguidade, a qual se resume a uma frase do célebre Machado de Assis: “O problema não é o pecado, mas a sua exposição”. Pode ser, mas reduzir o nu total a guetos não resolverá os problemas ligados ao sexo. Pelo contrário, é preciso cada vez mais naturalizá-lo, sabiamente, para que se desfaçam as barreiras em torno desse assunto. Falar disso não é o mesmo que criar praias de nudismo, nem incentivar a criação de novas produtoras especializadas nesse tipo de trabalho, como as saudosas Play Boy e a G magazine; embora não seja uma má ideia. É tratar a nudez como parte da realidade humana. Encontrar nela a beleza que muitos escultores, pintores e escritores encontraram para retratar a suas musas. Evidentemente que a nudez não deverá ser reduzida a um gênero. Não se pode desgastar a imagem da mulher, mas do que já está. É usufruir de todas as nudezes, além de gênero, cores, formas, padrões. Buscar encontrar a essência do nu, sua relevância e importância, ítens claramente esquecidos nesse amontoado de nudes, muitas vezes mandado sem sentido.

Libertino na visão de muitos, e libertário na de outros, a nudez atual não pode ser condenada ao julgo do pecado sem ser levado em consideração todos os elementos transversais e antepostos a tal tema. Há um longo caminho a ser trilhado para que se compreenda as facetas da nudez. Faces essas que podem se apresentar de diversas formas: através de um protesto, ou de um discurso meramente apelativo; de alguém buscando encontrar um encaixe, um romance, ou apenas sexo sem compromisso; quem sabe em forma de arte para ser cultuada, ou apenas para transgredir como no carnaval ou na exibição de corpos sarados à beira mar; no cinema, num filme como Ninfomaniaca, lá no fundo, no escuro da sessão, ou em casa assistindo as Brasileirinhas e se resolvendo como pode; num poema, numa música, ou nas dúbias propagandas midiáticas; e no manda nudes, por que não, desde que se tenha consciência dos prós e contras que tal atmosfera pode proporcionar. Seja como for a forma de nudez, que seja feita com naturalidade, discernimento e respeito entre as partes. Em se tratando ainda do nudes, não se pode esperar que seja um fênomeno passageiro, já que as inovações tecnológicas chegaram para ficar. Entretanto, antes que a paquera se reduza de vez a “emotions”, é importante fortalecer na sociedade, através da educação, que o fato do sexo contar com o aliado virtual não quer dizer que isso trará sempre malefícios como os citados. Na verdade, antes de fazê-lo é preciso entender o que é o sexo, como ele surge, materializa e se concretiza nas suas diversas ramificações. Tendo esse conhecimento prévio, transformado em respeito, o sexo deixará de ser polêmico e voltará a ser o que sempre foi: natural.


“Quando o nu deixar de ser uma arma de sedução, e for visto de forma natural, o todo mundo nu(des) deixará de ser uma utopia”

M - DE MARIA, M - DE MULHER, M - DE MINORIA, M - DE MORTE!

By On 11:40

"Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta [...]
O verso da Música de Milton Nascimento realmente traz um alerta para a sociedade pernambucana e brasileira, de que "é preciso ter força, é preciso ter raça" para suportar a perda brutal de mais uma de suas Marias. Desta vez, a jovem Maria Alice Seabra barbaramente assassinada aos 19 anos confirma o que eu já sabia há tempos: o machismo mata. Isto porque, a figura do padrasto e algoz da vítima, o Gildo, é similar, quiçá igual, a de muitos outros homens nascidos e criados no Brasil. Infelizmente, ensina-se a eles que mulher é mercadoria e que, por isso, é de propriedade indiscutível deles.
Essa ideia de posse é defendida pelo machismo e resulta em crimes dessa natureza, uma vez que muitos homens sucumbem ao desejo e violam o corpo alheio desrespeitando a integridade física e moral da vítima. Com as mulheres o machismo age diferente, ora recatando-as entre as "mulheres de respeito", ora vulgarizando-as através da roupa, do modo de falar, agir ou de se comportar. É desse modelo sexista de sociedade que várias Marias são mortas, apenas por serem bonitas, femininas, jovens, desprendidas, ou pelo simples fato de terem nascido mulher. É importante lembrar que mesmo após a sansão da Lei Maria da Penha, os índices criminais em torno da violência de gênero não tiveram mudanças positivas.
Para os mais informados, não é surpresa saber que no Brasil os maiores casos de violência contra a mulher ocorram em casa, geralmente por pessoas bem próximas da vítima, como maridos, pais, padrastos, irmãos, etc. Crimes estes silenciosos, já que a vítima, devido a proximidade com o agressor, não se sente segura e confortável para denunciá-lo. Foi o que talvez tenha ocorrido com Maria Alice, que antes de ser morta, resolveu sair de casa a ter que enfrentar mais uma vez o padrasto "protetor". E quem não tem essa opção? Resta suportar as humilhações, cantadas e assédios de homens asquerosos, que aparentemente passam por meros "cidadãos de bem" no dia a dia. Nesse exato momento, por exemplo, talvez outra garota esteja sofrendo violência de gênero em casa, ou pior, sendo estuprada impiedosamente por aquele que deveria ser seu maior protetor.
Na verdade, é complicado esperar alguma transformação nesse sentido enquanto o machismo é naturalizado em casa, na escola, na mídia, na religião e em todos os lugares. Os perfis de menino e menina personificados pelas cores azul e rosa já dão os primeiros indícios da dominação de um sobre o outro. Depois vem a ideia de fragilidade, do sexo forte em detrimento do fraco. Os colégios, ao invés de desconstruírem tais papeis, acabam perpetrando-os ainda mais. Por sua vez, os segmentos religiosos dominantes no Brasil reduzem a mulher a um objeto de procriação e somente só; ou reduzem-na a um pedaço retirado da costela de Adão.
A lista piora quando a mídia coisifica a mulher nos comercias de bebida; romantiza o gênero como excessivamente sentimentalista em suas tramas; vulgarizam-nas em suas músicas ou ainda insistem na ideia de "Amélia", mesmo que elas hoje tenham conseguido se libertar desse rótulo. O fato é que desse tratado histórico/sociológico nascem vários "Gildos" capazes de assediar, invadir, bater, machucar, trair, violar e até matar mulheres se for necessário para saciar suas vontades mais lascivas. Em meio a isso, Marias, Alices, Brunas, Carlas, Fernandas e Terezas são criadas para servir aos caprichos desses indivíduos, sob pena de serem mortas caso não sigam à risca tudo o que está na cartilha do ser homem e do ser mulher.
É lamentável constatar tais posicionamentos numa era cercada pela informação. É uma pena saber que há mortes derivadas do machismo ainda hoje no brasil. É triste saber que uma jovem de 19 anos teve todos os seus planos interrompidos apenas porque os papeis de gênero ainda se dividem entre os músculos e não pelos méritos. Mais triste ainda é saber que Maria Alice Seabra não foi e nem será a última e que outras, neste momento, podem estar perto de ter um fim semelhante ao dela. Marias de idade semelhantes ao dessa jovem, talvez mais novas, mais velhas, talvez que não tenham nem nascido ainda. Marias que se tornarão estatísticas da violência de uma sociedade sexista, onde as minorias morrem diariamente e pouco é feito para se reverter esse quadro. Marias que não devem ser lembradas apenas na dor, mas como disse Milton nascimento, lembrada como:
''Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta''



Legalize o orgasmo

By On 11:40

Transar depois do casamento pode. Perder a virgindade antes disso não pode. Masturbação na adolescência pode. Mas se você for menina não pode. Sentir atração sexual por alguém pode. Manifestar esse desejo em público nem pensar. Levar camisinha na bolsa pode. Só não é permitido deixar ela amostra por aí. Sexo só pode com o gênero oposto, pois o inverso é pecado. Assistir a filmes pornôs pode. Mas ficar animado com cena de sexo no cinema está fora de cogitação. Assumir o gosto pelo sexo pode, porém, colocar isso em prática com várias pessoas é ser assumidamente desavergonhado. Diante de tantos pode e não pode, não é de se surpreender que ainda hoje aja tantos tabus em torno do sexo. A mesma sociedade que busca regozijar-se entre quatro paredes é a mesma que cria os próprios limites em torno do prazer. Com isso, gerações vão perpetuando a ideia de que o sexo deve ser limitado, privado a atmosfera matrimonial. Porém, tudo isso poderia ser diferente se, entre tantas proibições, houvesse a legalização do orgasmo, pois muitos problemas ligados ao sexo seriam previamente solucionados.

Parece irreal, mas muitos dilemas da sexualidade humana estão relacionados ao gozo alheio. Seguindo uma ordem cronológica, é perceptível que isso tenha início já na infância. Numa sociedade onde as crianças são divididas por cores, como representação dos seus gêneros, o resultado é a herança de padrões sexuais limitados. Azul e rosa representam bem mais do que a distinção de gênero neste sentido. Elas representam a sinalização que deverá ser seguida por quem as representa. Ele, o azul, terá cartão livre para se conhecer, tocar e experienciar tudo o que quiser sobre sexo. Já ela, a rosa, não terá a mesma chance. Sua sexualidade será regrada pela delicadeza desta cor. Seu orgasmo será contido, regulado por uma cadeia de sistema que definirá com quem ele poderá ou não transar. Em contraponto a isso, muitos adultos, atraídos pela pureza pueril, aproveitam para erotizar precocemente essas crianças. Ou seja, mesmo sem ter nenhuma noção de orgasmo, muitas delas são comercializadas por aqueles, que vindos de um contexto semelhante, canalizam suas frustrações para quem não tem noção alguma de sexo e sexualidade.

Na adolescência não é muito diferente. Nesta fase da vida, quando os hormônios estão em efervescência, jovens começam a se descobrir sexualmente. Vem aquela vontade instintiva de conhecer o próprio corpo, tocá-lo, sentir as possibilidades que ele oferece. Aliado a isso, vem a menstruação, a barba, os seios, a polução noturna. Entretanto, neste mar de descobertas, a sociedade dá o primeiro de muitos cartões vermelhos ao orgasmo, a partir do momento que segrega o prazer dos meninos e das meninas. Eles são ensinados a serem predadores, insensíveis e cruéis, buscando de forma egoísta o própria gozo independente do alheio. Já elas reprimidas, descobrem o orgasmo de forma errada, são geralmente usadas e se tornam objetos sexuais. Por essa razão, muitos contraem doenças sexualmente transmissíveis, se tornam pais antes do tempo, ou abortam irresponsavelmente, pois não foram devidamente educados a gozar. Ou seja, mais uma vez a falta de orientação sobre orgasmo, prazer em si, fizeram com que mais problemas derivados do sexo surgissem.

 Chega a fase adulta, e acredita-se que agora as pessoas serão mais livres para realizar suas fantasias sexuais. Todavia, ocorre o contrário nessa fase da vida. Sem muito diálogo, muitos se frustram logo nas primeiras relações, buscando nos braços alheios a satisfação desejada. Para estes surgem logo os rótulos de infiéis e imorais, apenas porque resolveram realizar suas fantasias nos braços de quem realmente tinha competência para fazê-lo. Porém, aqueles que resolvem aventurar-se ao se relacionar com alguém, precisam de muita liberdade, e certa dose de coragem, para dividir na relação os desejos mais lascivos que estão guardados. Dos dois modos, as pessoas que buscam o orgasmo a todo custo são crucificadas. Se o indivíduo não se contenta apenas com uma só companhia é chamado apontado pela sociedade, se é reprimido dentro desta relação, idem.

Depois de uma longa jornada de privações em torno do sexo, eis que surge a velhice, fase da qual nada mais preocupe, a não ser a saúde. Agora, os indivíduos que foram reprimidos a vida toda a respeito do sexo, podem se manifestar livremente nesse sentido. Ledo engano. É nesse período que a sociedade amplia os tabus em torno do sexo, ratificando aquela máxima de que ele tem prazo de validade e, por isso, deve ser realizado até certo período da vida. Ora, disso tudo é possível encontrar várias incoerências. A primeira, se a velhice é limitada nesse sentido, porque os remédios contra a impotência sexual, conhecidos como azuzinhos, continuam sendo vendidos e elaborados? Segunda, baseado nos estudos científicos, o ser humano, em especial os homens, foi projetado para fazer sexo a vida toda. Então, porque determinar o fim de suas atividades, quando o corpo tem plenas condições de realizar o ato?

As respostas se resumem a palavra tabu. É ele que limita as ações humanas, baseado geralmente em preceitos anacrônicos de certo e errado. Também não há uma naturalização em torno do sexo. O que há é ora uma banalização em torno dele, ora uma proibição, causando inúmeras incoerências e problemáticas sociais. Muitos dilemas nesse sentido, ligados ao prazer humano, poderiam ser solucionados apenas com o maior entendimento do que é o desejo, o sexo e o orgasmo em si. Não apenas uma descrição biológica, mas todo um tratado cultural e sociológico das satisfações sexuais da humanidade. Atrelado a isso, as mesmas bases legais, que são capazes de criar leis contrárias ao sexo e a sexualidade em si, deveriam ser as primeiras a legalizar o orgasmo no Brasil. Aquele realizado sem neura nem bloqueios, apenas o sexo como tem que ser, natural, animal em sua essência. Talvez assim, muitos debates enfadonhos sobre esse ou aqueles assuntos cairiam por terra. Talvez...



Sexo vende

By On 11:39

Há uma incoerência antiga em torno das relações sexuais. O que deveria ser gratuito, é na verdade o produto mais caro do mercado. Isto é o sexo, que desde a antiguidade é consumido como produto e comercializado como tal. As pessoas não aprenderam ainda a trata-lo com a naturalidade que lhe é peculiar e isso deu vazão a atravessadores, que se aproveitam dos tabus alheios para lucrar. Em meio a isso, pessoas são privadas dos seus prazeres, porque a moral e os bons costumes reduziram o sexo à procriação e não ao prazer. Devido a essa redução, indústrias e instituições poderosas ganham muito em torno dessa questão, enquanto a sociedade, que deveria regozijar disso sem bloqueios, é ensinada a ser limitada nesse sentido, quando poderia já ter evoluído no quesito sexo e tudo que gira em seu entorno.

Nas negociatas a respeito do sexo, a história prova que o surgimento da família é, talvez, o marco primário dessa discussão. Quando, por questões meramente econômicas, o homem cria a ideia de família, no período do surgimento da agricultura no mundo, o foco estava na perpetuação dos bens entre os familiares e parentes. Nasce também a ideia de casal, de que ele é dela e ela é dele, como se existisse fidelidade total entre ambos. Porém, a questão maior é que devido a tais mudanças, ao longo da história casamentos foram criados, romances foram escritos, novelas, filmes, e uma série de coisas atrativas foram comercializadas, nas quais além de criar um modelo romanesco clichê, acaba privando o sexo ao matrimônio, ao passo que demoniza quem o pratica fora desses moldes.

Como o ser humano é, por excelência, transgressor, eis que a prostituição surge para afrontar a padronização existente. Ela é antiga. Estudiosos relatam que tal prática data de muito antes da era cristã, mas com nomes e maneiras diferentes em tempo e espaço. Entretanto, há algo que não mudou. Tanto no passado quanto no presente, prostituir-se é um ofício lucrativo. Basta passar em muitas ruas e ver estampadas nas bancas de revistas livros e exemplares especializados nesse gênero. O mundo pornô, responsável pela popularização da prostituição, também invade o campo dos filmes, da mídia aberta e, com o advento da tecnologia, é também disseminado pela rede. Exemplos não faltam, desde filmes como 50 Tons de cinza, passando pelas Brasileirinhas, séries como Gabriela, sites pornográficos diversos, etc.

As ruas também contam com profissionais dispostos a tudo por alguns trocados. São mulheres, homens, travestis, prontos para aliviar as carências dos seus clientes por quantias que variam muito. O sexo é muitas vezes mecânico. Não existe afeto, nem muitos carinhos. Só um enlace de pernas e braços, membros que se encontram e se encaixam para satisfazer suas carências. De um lado pessoas que não encontraram outra alternativa a não ser vender o próprio corpo por dinheiro. Do outro, pessoas infelizes, incompletas e insatisfeitas com as suas vidas sexuais, dispostas a pagar um preço alto para apenas gozar. Sabendo disso, clubes de stripper, de swing, saunas, prostíbulos, puteiros, e uma infinidade de locais emergem do nada para atender a demanda daqueles que preferem a segurança e o sigilo que a rua as vezes não dispõe.

Falar de sexo vendido é lembrar das excentricidades de que muitos são capazes de fazer, apenas para ter poucos minutos de orgasmo. Há poucos anos o Brasil serviu de exemplo para isso, quando uma catarinense resolveu vender a sua virgindade na internet. Na ocasião, uma longa discussão foi feita na rede. Pessoas acharam absurdo que alguém fosse capaz de uma atitude dessas, mas ninguém se choca ao pagar por uma Play Boy, nem por alugar DVDs pornôs para menores, ou por arriscar a vida nas madrugadas atrás de sexo. Coisas essas que são tão excêntricas quanto se vender na net. Ou seja, o que muitas pessoas não perceberam ainda é que todos pagam para fazer sexo, direta ou indiretamente, quando ele deveria ser totalmente filantrópico.

Entretanto, por viver nessas incoerências, a indústria pornográfica é uma das que mais cresce no mundo. Na verdade, ela esbofeteia a cara da sociedade no seguinte tocante: como se aprende a reduzir o prazer a gestação, o sexo só por sexo, sem compromissos nem amarras, choca porque não está dentro do que foi determinado como correto. Ai vem o universo pornô dizer que é possível sim ter prazer, orgasmos diversos, das maneiras mais esdruxulas possíveis, muitas vezes até com mais de uma pessoa. A mídia indiretamente também cumpre um papel semelhante, sobretudo quando coisifica as relações conjugais em suas telenovelas, comerciais de bebidas alcoólicas, Reality Shows, permitindo que o sexo livre seja concretizado, de modo que do outro lado o telespectador, dentro dos seus limites, faça a sua avaliação. É claro que ambos abalam a sociedade mais conservadora, a qual não aprendeu a fazer sexo de graça, mas pagando preços altíssimos para realiza-lo.

Não se pode ignorar também o papel das religiões, sobretudo aquelas de origem cristã. Nelas, temas transversais ao sexo, como aborto, autonomia, prazer, orgasmo, homossexualidade, identidade de gênero, orientação sexual, entre outros, ainda são tratados com muito recato. Há uma repressão sobre tais temas, pois eles desrespeitam os preceitos defendidos por muitas congregações religiosas. Ora, é inegável que não se pode confrontar os pilares de nenhuma religião, por se tratar de espaços com ideologias para muitos sagradas, porém, muitas delas sem notar também lucram com a questão do sexo. Por defender um modelo de vida menos lascivo, muitas religiões galgam fieis prontos para defender e propagar suas ideias, mesmo que isso custe tempo e, em muitos casos, dinheiro. Por isso que se vê hoje muitas igrejas e templos com estruturas colossais, pois são, antes demais nada, fruto da luta delas contra o sexo e sua pluralidade.

Em face a esta questão, há aqueles que rompem com todo esse sistema opressor, defendendo a ideia de um amor livre, livre de leis, regras, das imposições do Estado e da Religião. Por ignorância, muitos classificam como obscenidade, promiscuidade, imoralidade e outras insanidades do gênero. O amor livre, bem como o poliamor, guardadas as suas proporções, são estratégias válidas para desmontar esse comércio imoral do sexo, que precocemente induz as pessoas a pagar por algo que a natureza nunca cobrou: o prazer. Em contrapartida, muito antes de defender a conduta liberal do sexo, é preciso que ele passe a ser ensinado mais naturalmente. É quando a escola se torna imprescindível para a desconstrução de tal tema. A ela cabe naturalizar o sexo, repassando o discurso de que se for feito de forma segura, a pessoa pode e deve conhecer mais de um corpo, antes de decidir se firmar com alguém. Também é papel dela desmistificar os tabus que giram em torno aos temas que resvalam do sexo e de como há pessoas, que por razões diversas, praticam sexo fora do convencional, mas não há nada de anormal nisso.


A anormalidade reside nessa indústria por trás do sexo que faz com que Governo, mídia, mundo pornô e religiões lucrem com o prazer, ou desprazer alheio. Não se pode, após saber disse, perpetuar o sexo fadado ao casamento e a procriação apenas. Quando se faz isso, ignora-se que crianças e adolescentes são explorados sexualmente; pessoas são contaminadas com doenças veneras; mais homens, mulheres e travestis encontram na prostituição uma profissão; a mídia enriquece o seu ibope; o cinema leva mais gente as suas salas cada vez mais cheias; os filmes pornôs passam a ser mais educativos do que prazerosos; buffet de casamentos se proliferam; virgindades continuarão a ser vendidas e corpos serão tratados como objetos, coisa que, infelizmente, já ocorre na prática. Então, sem perceber, um dos maiores prazeres humanos passará a ser disputado na bolsa de valores. Não será surpresa se isso começar amanhã... 

Olhômetro

By On 11:38


Chego na casa de um amigo que não vejo há semanas. Logo no portão, percebo que ele não está só. Tem uma turma como ele, provavelmente colegas de trabalho. Como manda a boa educação, o meu amigo me apresenta a todos os seus colegas. Aperto a mão deles, são três no total, e ao olhar para cada um, um em especial não me agrada. Nunca o vi antes, não sei o que faz da vida, mas a forma como me olhou não foi do meu agrado. Um olhar meio altivo, por cima da carne seca, desconfiado, impreciso, distante, vago... tentei classificar, porém foi difícil demais. Era um misto de coisas.

Entrei e acabei me acomodando, meio desconfiado ainda. Conversa vai, conversa vem, o indivíduo que me desagradou começou a falar com os presentes. Sua voz não tinha nada de anormal. Sua postura também era comum. O papo era até interessante, mas, dentro de mim crescia uma antipatia incontrolável. Não sabia dizer porque mas quando bati o olho nele, nossos santos não se cruzaram. Meu olhar fez um juízo dele que era impossível buscar naquele instante uma absolvição. Resolvi não lutar contra o que estava sentindo. Se meu olhar sentenciou que ele não era flor que se cheire, então deve ser verdade.

O meu olhômetro nunca falha em casos assim. Quando bato o olho em alguém, procuro ir além do globo ocular. É como se ao olhar para o indivíduo, eu estivesse vasculhando seus segredos, desvendando os seus defeitos e qualidades. É uma tarefa árdua, nem sempre exata. O olho humano é uma ilha cheias de armadilhas, cada passo em falso pode resultar numa escolha errônea. É preciso discernimento, calma e muitos e muitos anos de experiência para entender seus mistérios. Qualquer olhadela errada pode culminar numa relação desgastada, num convívio desarmonioso entre pessoas que não se enxergaram como deveriam. Foi o que aconteceu com o colega do meu amigo. Não sabia explicar, mas naquele momento não gostei dele e não queria ele perto do meu amigo.

Depois de uma tarde toda de conversa, risos e petiscos, já era chegada a hora de me despedir. Só em pensar nisso eu fiquei furioso, pois teria que voltar a falar com aquele estranho. Não teve jeito. Antes do anoitecer, eu abracei meu amigo num anúncio de que a minha partida já era agora. Os outros, vendo aquela cena, se anteciparam a se despedir de mim também, dentre eles o tal rapaz que não simpatizei. Apertei sua mão friamente. Queria deixar bem claro que ele não me conquistou, nem um pouquinho. Quando estava a poucos passos do portão, o dito cujo me chama. Um calafrio tomou conta da minha espinha. O que será que aquele sujeito, que mal me conhecia, queria comigo?

Virei e atendi ao chamado, com um sorriso aguado no rosto. Ele caminhou até mim, olhando-me com profundidade. Senti que não era o mesmo olhar de quando nos conhecemos horas atrás. Agora era me enxergava de forma firme, como uma autoridade pronta para me sentenciar. Tentei responder com o mesmo olhar, mas não sei se fui convincente. Ao começar a abrir a boca, no entanto, ele me surpreendeu. Disse que não me conhecia, e que não foi com a minha cara quando me viu hoje pela primeira vez. Ele falou que meio altivo, por cima da carne seca, desconfiado, impreciso, distante, vago... disse que tentou me classificar, porém foi difícil demais. Era um misto de coisas.


Foi como se ele estivesse lido a minha mente. Fiquei imóvel com as palavras dele. Cada verso atacava minhas certezas, que agora estavam mais para erradezas. Por fim ele me disse que o olhômetro dele nunca erra, mas que naquele dia tinha cometido uma falha. Ele me achou simpático, inteligente e bom de papo. Disse ainda que queria ser meu amigo e pediu desculpas pelo juízo de valor que fiz dele. Meio gago, procurando as palavras certas, apenas disse algo como, “tá certo!” e o abracei. Fui para casa, arrasado com tudo aquilo e resolvi reler o meu material de história da época do colégio. Abri uma página aleatória e me deparei com a famosa lei de talião: “olho por olho, dente por dente”. Fixei nesse ponto e li. Era preciso ampliar mais a mente.

Jesus, ele tinha apenas 10 anos

By On 11:37

Em meio ao banalizado cenário de violência do Brasil, parece que a equação (polícia + arma de fogo = bandido morto) se tornou ultrapassada. No faroeste à brasileira, não é só criminoso que encontra seu fim nos tiros disparados pela polícia. Crianças e adultos, que ficam no meio do fogo cruzado, também pagam com a vida. Dessa vez, a vítima que chocou o país foi o jovem Eduardo de Jesus Ferreira, morto aos 10 anos de idade por policiais no Rio de Janeiro. Sua morte traz à tona uma discussão antiga sobre os excessos daqueles profissionais que são pagos para manter a ordem da sociedade e não para ceifar a vida de inocentes. Entretanto, o cerne da questão não se resume a isso. O cenário de pobreza que alguns vivem; o descaso governamental; a negligência midiática e a cultura de banditismo das periferias também contribuíram para que aquele garoto tivesse sua vida interrompida precocemente.

As forças militares infelizmente pecam na sua função primária que é a de proteger a população. Despreparados, agora estes que deveriam servir de escudo a sociedade da violência estão fazendo o inverso disso. São instituições corrompidas pelas negociatas, com transações feitas com traficantes e outros meliantes. Sem equipamento de ponta e contingente suficiente para atender a população como um todo. Realidades estas que foram muito bem retratadas no premiado filme Tropa de Elite. Além disso, o principal ponto reside na falta de preparação destes profissionais para distinguir quem é ou não bandido. Em meio a essas carências, homens com armas, estrelas e distintivos no corpo, são lançados à própria sorte em comunidades onde há indivíduos mais bem equipados para ataca-los. O resultado disso é a não distinção de quem deve ou não morrer.

Longe de qualquer justificativa, mas é complicado cobrar dos policiais militares proteção total a todos, quando eles próprios estão totalmente desprotegidos ao exercerem seus trabalhos. Assim, sem humanidade ou preparo para trabalhar, eles não conseguem diferenciar a morte de um traficante adulto de uma criança inocente, porque não foram educados para tal. Quando não ocorre dessa forma, muitos policiais, desumanizados pela rotina de trabalho, acham-se no direito de decidir quem deve ou não viver, quando na verdade tal tomada de ação muitas vezes está fora da sua alçada. É por isso que erros lamentáveis continuam acontecendo. Antes do Eduardo, a sociedade cobrou satisfação sobre o desaparecimento do trabalhador Amarildo, também vítima dos excessos da polícia da sua conduta cheia de enganos que poderiam ser evitados.

Um desses ledos enganos, que resultou na morte do menino Eduardo, conta com outro vilão além da polícia. Ele, como muitos outros garotos, nasceu na pobreza, num panorama onde falta tudo: comida, dinheiro, educação, segurança, saúde... E sobram oportunidades para ingressar no banditismo, criminalidade e no tráfico de drogas e armas. Nesse contexto, sempre houve dois caminhos para o menino morto: ou ele seguia sua vida miserável e, quando crescesse, exerceria algum cargo desprivilegiado socialmente; ou seria seduzido pelas vantagens do mundo do crime, dando seguimento a marginalidade que há em muitas periferias. Eduardo, no entanto, parecia desejar mais que isso, mas foi privado de realizar seu sonho de ser bombeiro. Sonhos estes que morrem com muitas outras crianças, que como ele, não terão futuro, ou tem sem desejos mortos ainda em vida pela pobreza extrema, bem como a falta de acesso a serviços essenciais à vida.

Aliado a isso está o abandono governamental. Políticos que a cada eleição se comprometem a reduzir a violência no país, mas não cumprem o acordado com a sociedade. Pelo contrário, pois o que há são projetos assistencialistas que pouco fazem pelo povo, sobretudo no que se refere a ascensão social. Silenciada pelo governo nacional, que oferta migalhas em forma de bolsas, essas pessoas são obrigadas a não ter futuro, e caso desejem ter um, muitas vezes o encontram na criminalidade. Então, como forma de sobrevivência, adentram nesse mundo e fazem como que aqueles que estão fora sejam penalizados indiretamente. Numa busca rápida pela rede, é possível encontrar estatísticas que mostram o número de inocentes, sobretudo crianças, que morrem apenas porque o governo não propiciou que elas tivessem futuro. Enquanto nada é feito, outros garotos de 10, 12 e 15 anos têm as suas vidas apagadas pela marginalidade.

Abandono também midiático, em noticiar o que ocorre, de fato, nessas comunidades. No caso do garoto Eduardo, houve um silencio criminoso, típico da negligência do nosso país, a qual só dá destaque a crimes que acontecem com quem mora no litoral e em bairros nobres, em detrimento dos milhões que são fuzilados nas comunidades e favelas brasileiras. Felizmente, o protesto dos familiares do garoto, e a indignação nas redes se sociais, se encarregaram de fazer justiça ao crime que tirou a vida daquele jovem de apenas 10 anos. Crime este que choca a nação, não só pela forma como aconteceu, mas também porque há pouco tempo foi aprovado a lei da palmada, a qual pune quem feri qualquer criança. Sem contar que a mídia, muitas vezes obscurecida por questões econômicas e políticas, é a primeira a, implicitamente, defender a redução da maioridade penal, quando muitas já estão sendo levadas a morte, muito antes da lei ser aprovada.

Em meio a todos esses pontos, vale ressaltar que há por trás disso uma forte cultura do banditismo, a qual é fomentada pela mídia, pela música, pela cultura de massa enfim. São jovens que, mesmo não sendo criminosos, mas nascendo no mundo da criminalidade, são induzidos a acreditar que a postura do criminoso, com seus trejeitos, modo de se vestir e andar, são banais e assim começam a se portar igual a eles. Isso tem tudo a ver com a morte de Eduardo, pois, mesmo não possuindo tais características, ele vem de um ambiente onde muitos são impulsionados a perpetrar esse modelo, então a polícia, cega e despreparada, não consegue diferenciar bandido de cidadão. Por isso que nas redes sociais criaram uma foto falsa de um garoto, que foi supostamente atribuído ao menino Jesus morto pelos policiais. A intenção era “justificar” a ação da PM e dizer que a morte não foi um crime, mas um favor. Talvez falte em muitas letras do funk ostentação, e em muitos discursos midiáticos, a máxima de que, de um lado: não é correto exaltar a bandidagem. E, do outro: não se pode maquiar o problema quando este é real.

Por todas essas questões, em plena semana santa de 2015, um garoto de 10 anos, que sonhava em ser bombeiro, não vai mais realizar o seu sonho. Jesus, seu sobrenome, morreu de forma irônica, numa época em que há milhões de pessoas em comunhão com o Divino. No entanto, outros iguais a ele morrem cotidianamente pelo Brasil afora e pouco se faz para que isso não aconteça. Sobra indignação e revolta, e falta ações eficazes para que outros garotos não venham ter o mesmo fim. Atitudes como diminuir a pobreza, preparar melhor os policiais, cobrar ética dos setores políticos e midiáticos, já seria um bom começo para evitar que novas famílias sofram a desgraça de ter a vida de alguém tão puro ser interrompida por nada. Também não se pode apenas ficar em choque, é preciso cobrar, exigir através do voto consciente uma real mudança pela sociedade. Toda transformação surge de uma tragédia, porém infelizmente tragédias já se tem aos montes, falta apenas alguém capaz de fazer essa transformação.

Você já percebeu a minha cor?

By On 11:37

Antes de mais nada, é preciso contextualizar essa indagação. Ao ligar a TV hoje me vi assistindo a uma cena da nova formatação do folhetim infantil Chiquititas. Nela o personagem Cirilo fez a tal pergunta acima e imediatamente o meu cérebro tratou de elaborar possíveis respostas para ela. A primeira conclusão a que cheguei é de que muitos de nós não se percebem em quanto negros, ou ignoram a existência dessa classe na sociedade. No primeiro caso há o embranquecimento individual para ser aceito socialmente, ao passo que no outro fica a irrelevância de quem não é branco. Trocando em miúdos, a humilde pergunta do ator mirim me fez perceber que poucos de nós faz esse autoreconhecimento racial.  Bradamos aos quatro ventos que somos todos negros, muitas vezes para sair bem na foto, porém, quando acontece uma situação concreta de preconceito racial, damos outra classificação a cor da nossa pele.

De fato, é preciso ter coragem para afirmar que se é negro no Brasil. Digo isto porque esta palavra traz em si toda uma carga negativa perpetrada ao longo história do nosso país. Não é de se surpreender, portanto, que muitos de nós não se sintam à vontade, ou não se reconheçam como tal. Assumir a afrodescendência é se agrupar a marginalidade e ao banditismo, ambos guetos criados pelo senso comum para inferiorizar os negros. Infelizmente, tais conjunturas ainda não são irreais. Nascer de cor escura faz com que o indivíduo seja localizado em tempo, espaço, classe social, quando não gênero e identidade de gênero. Simples, a maioria são pobres, mulheres, sobrevivem de programas assistencialistas e, muitas vezes, são fisgados pela criminalidade e acabam engrossando as estatísticas nesse ínterim.

Mesmo compondo mais da metade da população, na prática, poucos são aqueles que se autoidentificam negros. Vejo esta atitude ser fortemente influenciada pela cultura de massa. Artistas negros, que deveriam ser os primeiros a levantar a bandeira da cor, remam contra a maré nesse sentido. Há diversas celebridades visivelmente negras, que com o passar do tempo embranquecem o tom da pele, renegam os cabelos crespos, bem como toda a sua ancestralidade cultural e religiosa. Diante de uma lista enorme, cito a diva americana, Beyoncé, e de como a mudança da sua aparência foi gritante desde do início da sua carreira até a atualidade. O reflexo disso é sentido em países como o nosso onde há um significativo contingente afrodescendente clareando-se dos pés à cabeça para serem aceitos.

Muito antes disso, a mídia televisiva já ditava qual era o devido lugar dos negros. Em teledramaturgias famosas, atores brancos ocupavam, e ainda ocupam, papéis centrais enquanto os outros são destinados a papeis subalternos e de caráter duvidoso. Porém, alguns podem afirmar que houve ligeiros avanços, visto que na atualidade há alguns artistas não brancos em destaque na telinha. De fato há mesmo, mas não totalmente negros. São indivíduos que, regulados pela soberania branca, clareiam seus cabelos, alisam seus cachos, usam maquiagens destoantes, tudo para não serem vistos como são na verdade. Outro ponto que gosto de citar são os jornais televisivos, dos quais a presença de negros é quase inexistente. Parece que a intenção é deixar claro que negro não é, e nem pode, ser informado, ou não é capaz de ocupar aqueles recintos.

Se no mundo fantasioso da mídia os afrodescendentes não são percebidos, a coisa fica muito pior quando se trata do mundo real. A sociedade absorveu a ideia de que os negros são burros, ladrões, marginais, submissos, mesmo que haja raríssimas exceções. São pessoas que, no seu dia a dia, propagam essas visões, muitas vezes deturpadas em torno daquele grupo. Por não enxergarem os negros além da sua cor, acabam contribuindo para os índices de mortalidade em torno deles. Não tenho estatísticas claras para justificar neste momento o meu ponto de vista, mas acredito que qualquer um mais cético pode confirmar isso numa rápida busca virtual. Em muitas pesquisas, além do negro morrer bem mais que o branco, eles morrem de forma mais brutal, tendo como cenário a pobreza e a violência. Cenários estes que contam ainda com o descaso governamental, pois as políticas públicas em prol dessa classe são poucas e controversas, visto que não há um trabalho de base para oportunizar um futuro para quem nasce negro no Brasil.

Sofre também aquele indivíduo que, mesmo enfrentando todos os males da discriminação racial, consegue galgar seu lugar na sociedade. Há exemplo disso, posso exemplificar os poucos negros que conquistaram uma vaga nas universidades públicas do país. As cotas ainda não são entendidas por muitos, sobretudo aqueles que não são negros. Mesmo assim eles, os negros, estão mostrando que além de qualquer brecha há pessoas capazes que precisam de oportunidades para mudar a realidade onde vivem e serem ouvidas. Infelizmente, muitos campos não estão prontos para esse público, pois falta um trabalho voltado para inclusão das minorias, que seja capaz de, dentro da universidade, diluir esses e outros preconceitos.

Seja na metáfora televisiva, seja na realidade vivida dentro e fora das universidades do Brasil, o preconceito racial é um fato. Conceito pré-concebido que ocorre primeiro na linguagem. Morenos, pardos, mestiços, sarara crioulos, tudo, menos negro, afrodescendente, e preto, esses são os rótulos impostos. Imposição essa que carrega a perigosa ideia da não identificação do negro na sociedade. Se eu sou negro e não me enxergo como tal, ou até mesmo se eu sou branco e faço a mesma coisa, estarei contribuindo para a exclusão desses seres humanos que sofrem apenas porque possuam um pouco mais de melanina que os outros. Não podemos permitir que isso aconteça. Cada pessoa de se perceber e perceber o outro no mundo, pois só assim poderemos contribuir positivamente para resolver os problemas de quem sofre apenas por ser, nascer ou desejar ser diferente.



A minha luta é a tua luta

By On 11:36

Luto pelo respeito, pelo direito, pelo dignidade...

Luto pela igualdade, pela diferença, pela diversidade...
Luto pelo ser, pelo crer, pelo compreender...
Luto pela mulher, pelo homem, pelo que vier...
Luto pelo gay, pelo hétero, pelo o que deve ser...
Luto pela honra, pela conquista, pela vitória...
Luto pelo individual, pelo coletivo, pelo nacional...
Luto pela pluralidade, pela cultura, pela verdade...
Luto pelo negro, pelo branco, pelo índio...
Luto pela mistura, pela miscigenação, pela pureza da nação...
Luto pelo pobre, pelo rico, pela classe C...
Luto pela vida, pelo morte, pelo alvorecer...
Luto pelo idoso, pela criança, pela esperança...
Luto pela religião, pela ancestralidade, pelo cristão...
Luto pelo povo, para o povo, e por o povo...
Luto pela política, pela democracia, pela cidadania...
Luto pelo nordeste, pelo sudeste, pelo país...
Luto pela mudança, pelo amanhã, pela perseverança...
Luto pelo dia, pelo sol, pela manhã...
Luto pela margem, pela encosta, pelo arrecife...
Luto pelo recife, pelo nordeste, pelo Brasil...
Luto pela minha família, pela sua, por todas as outras
Luto contra...
Luto a favor...
Luto, apenas...
Luto, por quem não luta...
Luto por quem está de luto...
Luto contra esse luto...
Luto, então, pela vida...Pela felicidade...Pela liberdade...

A MINHA LUTA É A TUA LUTA
Ou, pelo menos, deveria...



É burrice medir a inteligência

By On 11:35

O que mede o grau de inteligência de uma pessoa é, sem dúvidas, o dinamismo. Alguém que é dinâmico consegue não só fazer e ser muitas coisas ao mesmo tempo, mas também tem o dom de se adequar as várias realidades da vida e as pessoas a sua volta. É um ser que não menospreza o outro, mesmo sabendo que esse outro seja de um nível intelectual “inferior”. Afinal, infelizmente, aprendemos que ser inteligente é está dotado de um currículo que comprove isso, quando na verdade a inteligência vai muito além de uma folha de papel. Inteligência é sensibilidade. Quem é sensível é capaz de se perceber no mundo e, por essa razão, capaz de perceber o mundo em si. Essa autorreflexão é determinante para a mudança de tomada de consciência pessoal e coletiva. É quando dizemos assim: “Ele/ela é um exemplo a ser seguido/seguida”. Entretanto, em meio a pseudointelectualidades, não enxergamos que há mais pessoas inteligentes do que imaginávamos.

Se ser inteligente é ser dinâmico, então temos uma penca de intelectuais não valorizados perto de nós. Conheço diversas mães, que mesmo com pouca escolaridade, conseguem ser mães, profissionais e mulheres, numa rotina de vida que poucos acadêmicos suportariam. Elas, sem currículo ou diplomas, vão além da criação e encarnam o papel de analistas, assistentes sociais, psicólogas, terapeutas, mesmo sem nenhum conhecimento dessas profissões. São seres de uma inteligência indescritível, mas que não são valorizadas, porque não fazem parte dos parâmetros academicistas. O que é uma pena, pois muitas mulheres, e homens também, exercem tarefas dignas de grandes estudiosos, como lidar com adolescentes com os hormônios a flor da pele; o chefe que acorda mal humorado e escolhe justamente você para descontar a raiva; e o parceiro insatisfeito com a relação. São questões que exigem um jogo de cintura incrível, que vai da retórica aristotélica aos conceitos psicanalíticos de Freud.

No entanto, não vemos isso como elemento que compõe a inteligência, simplesmente porque nos ensinaram desde cedo que ser inteligente é trabalhar com o cérebro e não com o corpo. Todo o trabalho braçal está desqualificado de ser algo producente neste sentido. Essa herança histórica, e na minha visão errônea, nos faz perder a chance de ver e conhecer tantas pessoas intelectuais presentes em nosso cotidiano. Basta uma breve conversa com aqueles que ocupam profissões de menor valor social para constatar a complexidade de suas obras. Ser pedreiro, padeiro, cozinheiro, marceneiro, encanador, eletricista, dona ou dono de casa, entre outras carreiras de menor prestígio social, tem igual ou semelhante importância para o funcionamento da vida em sociedade. E todos aqueles que as exercem são grandes pensadores, pois conseguem exercer suas profissões com esmero e talento, mesmo não sendo reconhecidos social e financeiramente por isso.

É fácil para muitos de nós tachar de irrelevante profissão X ou Y  de alguém, sobretudo numa época onde as pessoas não buscam mais se profissionalizar apenas pela vocação em determinada área, mas sim pelo bônus que ela trará. Mais fácil é ainda classificar como burro aquele atendente que passou o troco errado por engano no supermercado; o operador de telemarketing que gaguejou no meio da ligação; o frentista que colocou mais gasolina do que você tinha pedido; o garçom que cobrou os dez porcento pelo bom atendimento feito, mas que você não quer pagar. Dessas e outras situações, difícil mesmo é enxergar que naquele ser há muito mais do que um mero serviçal. Talvez seja alguém tão ou mais inteligente do que você e, por diversas questões, está ocupando um cargo de menor prestígio social. Porém, estar numa posição desprivilegiada socialmente não quer dizer que o indivíduo se encontre afundado na ignorância. Pobreza e inteligência, podem ser parentes próximos, mas não são sinônimos, e isso tem que ser entendido pelos “intelectuais”.

Não sei andar de bicicleta. Depois de várias quedas na infância, percebi que não sou hábil a andar em duas rodas. Também não sei assobiar. Meus lábios, por alguma razão, não conseguem emitir esse silvo. Nadar está fora de cogitação. Na praia, arrisco-me a ficar com água acima da cintura, desde que esteja acompanhado de amigos. Se for em piscinas, procuro a parte mais rasa para não pagar mico. Na lista de incapacidades ainda estão todas e quaisquer atividades que exijam cálculos matemáticos. Os números nunca foram parceiros legais comigo e vice-versa. Diante disso, havia uma frustração da minha parte quando lembrava que não sabia fazer isso ou aquilo outro. Pior ficava quando via amigos e colegas próximos realizando tarefas das quais eu desejava, mas nem sonhava em realizar. Quando a maturidade bateu à porta, finalmente percebi que não era burro por não saber fazer o que os outros faziam. Tinha outras habilidades e precisava me orgulhar delas.

Mais importante do que isso foi quando brotou em mim a admiração por aquelas profissões desprestigiadas socialmente. Percebi que não sou capaz de cozinhar em largar escala; construir uma casa ou um prédio; consertar um problema na fiação elétrica da minha casa; nem tão pouco trabalhar com dinheiro na mão, desde contador a atendente de supermercado.  Porém, hoje consigo admirar quem possui essas habilidades e digo que quem as realiza possuem uma imensa inteligência. Mais do que isso, sei qual é o meu lugar e até onde posso ir. Evidentemente que qualquer pessoa pode aprender a fazer qualquer coisa, desde que tenha interesse para isso. Mas, não se pode negar que há uma propensão maior de alguns indivíduos para uma área e outras não. Seja como for, menosprezar quem resolveu seguir um caminho distante dos conceitos acadêmicos é burrice, pois força, talento e criatividade não estão limitados à academia.

Na verdade, muitos não se veem como inteligentes, porque não têm a dimensão de como são importantes para a sociedade. Nesse momento, o papel da academia é determinante para desconstruir tal pensamento, já que é nela que as mentes “pensantes” moldam a vida social. Cada membro de colégios e universidades espalhados pelo país devem contribuir para isso. Só a educação libertária fará com que valorizemos todos independente do grau de instrução que possuam. A questão aqui não é valorizar aqueles que não estão estudando, mas encontrar neles o potencial criativo que possuem e trazê-lo à luz. É burrice medir a inteligência apenas pela capacidade de livros lidos e cálculos feitos. Isso é importante sim, mas não se pode ignorar quem não possui essas habilidades, caso isso aconteça ai sim há ignorância. E ninguém é burro em totalidade que não seja capaz de exercer algum papel nessa sociedade. Como dizia Albert Einstein “a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”. Alargue a sua mente.



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