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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

M - DE MARIA, M - DE MULHER, M - DE MINORIA, M - DE MORTE!


"Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta [...]
O verso da Música de Milton Nascimento realmente traz um alerta para a sociedade pernambucana e brasileira, de que "é preciso ter força, é preciso ter raça" para suportar a perda brutal de mais uma de suas Marias. Desta vez, a jovem Maria Alice Seabra barbaramente assassinada aos 19 anos confirma o que eu já sabia há tempos: o machismo mata. Isto porque, a figura do padrasto e algoz da vítima, o Gildo, é similar, quiçá igual, a de muitos outros homens nascidos e criados no Brasil. Infelizmente, ensina-se a eles que mulher é mercadoria e que, por isso, é de propriedade indiscutível deles.
Essa ideia de posse é defendida pelo machismo e resulta em crimes dessa natureza, uma vez que muitos homens sucumbem ao desejo e violam o corpo alheio desrespeitando a integridade física e moral da vítima. Com as mulheres o machismo age diferente, ora recatando-as entre as "mulheres de respeito", ora vulgarizando-as através da roupa, do modo de falar, agir ou de se comportar. É desse modelo sexista de sociedade que várias Marias são mortas, apenas por serem bonitas, femininas, jovens, desprendidas, ou pelo simples fato de terem nascido mulher. É importante lembrar que mesmo após a sansão da Lei Maria da Penha, os índices criminais em torno da violência de gênero não tiveram mudanças positivas.
Para os mais informados, não é surpresa saber que no Brasil os maiores casos de violência contra a mulher ocorram em casa, geralmente por pessoas bem próximas da vítima, como maridos, pais, padrastos, irmãos, etc. Crimes estes silenciosos, já que a vítima, devido a proximidade com o agressor, não se sente segura e confortável para denunciá-lo. Foi o que talvez tenha ocorrido com Maria Alice, que antes de ser morta, resolveu sair de casa a ter que enfrentar mais uma vez o padrasto "protetor". E quem não tem essa opção? Resta suportar as humilhações, cantadas e assédios de homens asquerosos, que aparentemente passam por meros "cidadãos de bem" no dia a dia. Nesse exato momento, por exemplo, talvez outra garota esteja sofrendo violência de gênero em casa, ou pior, sendo estuprada impiedosamente por aquele que deveria ser seu maior protetor.
Na verdade, é complicado esperar alguma transformação nesse sentido enquanto o machismo é naturalizado em casa, na escola, na mídia, na religião e em todos os lugares. Os perfis de menino e menina personificados pelas cores azul e rosa já dão os primeiros indícios da dominação de um sobre o outro. Depois vem a ideia de fragilidade, do sexo forte em detrimento do fraco. Os colégios, ao invés de desconstruírem tais papeis, acabam perpetrando-os ainda mais. Por sua vez, os segmentos religiosos dominantes no Brasil reduzem a mulher a um objeto de procriação e somente só; ou reduzem-na a um pedaço retirado da costela de Adão.
A lista piora quando a mídia coisifica a mulher nos comercias de bebida; romantiza o gênero como excessivamente sentimentalista em suas tramas; vulgarizam-nas em suas músicas ou ainda insistem na ideia de "Amélia", mesmo que elas hoje tenham conseguido se libertar desse rótulo. O fato é que desse tratado histórico/sociológico nascem vários "Gildos" capazes de assediar, invadir, bater, machucar, trair, violar e até matar mulheres se for necessário para saciar suas vontades mais lascivas. Em meio a isso, Marias, Alices, Brunas, Carlas, Fernandas e Terezas são criadas para servir aos caprichos desses indivíduos, sob pena de serem mortas caso não sigam à risca tudo o que está na cartilha do ser homem e do ser mulher.
É lamentável constatar tais posicionamentos numa era cercada pela informação. É uma pena saber que há mortes derivadas do machismo ainda hoje no brasil. É triste saber que uma jovem de 19 anos teve todos os seus planos interrompidos apenas porque os papeis de gênero ainda se dividem entre os músculos e não pelos méritos. Mais triste ainda é saber que Maria Alice Seabra não foi e nem será a última e que outras, neste momento, podem estar perto de ter um fim semelhante ao dela. Marias de idade semelhantes ao dessa jovem, talvez mais novas, mais velhas, talvez que não tenham nem nascido ainda. Marias que se tornarão estatísticas da violência de uma sociedade sexista, onde as minorias morrem diariamente e pouco é feito para se reverter esse quadro. Marias que não devem ser lembradas apenas na dor, mas como disse Milton nascimento, lembrada como:
''Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta''



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