Beyoncé, não pode tocar!

13:51



Martha Medeiros é um famosa cronista brasileira. De todos os seus escritos, a crônica chamada “Não Pode Tocar” parece a mais adequada à discussão a seguir. O texto fala da dificuldade que se tem de tratar de determinados temas, sem a proteção assegurada pelo reducionismo eufêmico, do qual muitas questões acabam não sendo devidamente problematizadas. Nele, dentre muitas passagens, destaca-se: “Não tocarei pra não estragar, pra não quebrar, pra durar por muitos séculos”. Essa é, sem dúvidas, a mais apropriada para a ocasião envolvendo a polêmica música da diva Pop americana Beyoncé, Formation. Num claro discurso pró racial, a canção evidencia outro trecho da crônica de Medeiros “Não se pode tocar no sagrado de cada um”. Essa violação foi realizada pela cantora ao trazer à ribalta o racismo que vitima seus condescendentes americanos, e que resultou em uma repercussão negativa ao redor do mundo contra a cantora, num contexto em que artistas negros, ou integrantes de outras minorias, dificilmente se manifestam politicamente em prol dos seus grupos, de forma tão escancarada como foi feito por ela. Mesmo que tardiamente, a posição de Beyoncé resgata conflitos sociais ligados a alteridade, bem como a constatação de que o racismo está longe de ser superado.

Em primeira estância, é preciso destacar a falta de posicionamento que há em torno das temáticas minoritárias: negros, mulheres, gays, índios, deficientes físicos, etc., não veem suas pautas sendo devidamente representadas pela grande mídia internacional. Parece haver um acordo tácito, silencioso e corruptivo, entre diversas esferas sociais, que não mergulham nas águas abissais do descaso, para resgatar esses grupos da latente negligência a que foram submetidos, e que os leva à morte. Quando alguém decide se colocar para reverter tais realidades, vem ao jugo popular o rótulo de subversivo, adjetificação que por si só denota um perigo para a sociedade, sobretudo quando esta é despolitizada e desmilitarizada. Coube a Beyoncé tal emblema, visto que, para muitos, ela transgrediu o intocado, o que na crônica de Medeiros não se podia macular. Beyoncé não apenas maculou, como também pintou de preto, literalmente falando, a visão daqueles que fingiam não acreditar na sobrevivência do racismo americano no mundo, mesmo tendo diversos ícones importantes mundiais, inclusive a própria cantora, visivelmente negros. Para estes, o talento, a performance, a criatividade, a pirotecnia, tudo era válido desde que o artista ali presente não se considerasse minoria, levantando bandeiras das quais debates fossem inevitavelmente iniciados.

É como se dissessem assim: “eu gosto do seu trabalho, mas não quero saber de suas demandas”. Ora, os fãs alucinados, que discutem nas redes sociais acerca de quem é a melhor diva pop do momento, os quais endeusavam principalmente a figura de Beyoncé, não deveriam ter ficados contra a cantora. Isto porque, quem de fato admira o trabalho de determinado artista, é porque se identifica com suas causas, vestindo-as como mantos sagrados a serem perpetrados pela sociedade. Quando isso não ocorre, é provável que o modismo hipnótico da indústria cultural tenha levado legiões de pseudos fãs a adorarem um ídolo sem nem sequer conhecer suas lutas pessoais e origens. Os amantes de Beyoncé, que não são tão fissurados na cantora como dizem, parecem corroborar para esse fato. Por essa razão Formation sacode as convicções em torno do negro, de que como ele é, vive e sobrevive numa sociedade que o excluí deliberadamente. No vídeo, ancestralidade, repressão policial, legado, reivindicações, lutas, religião, violência e esquecimento se fundem para protestar contra o mundo que prefere acreditar numa diva talentosa branca, no caso aloirada, do que encarar os fatos de que a cantora mais popular da atualidade ser negra. Da mesma forma que os saudosos Mickael Jackson e Whitney Houston também o foram e deixaram os seus respectivos legados.

É inegável a jogada de marketing em torno de toda essa polêmica, uma vez que é sabido que a indústria do entretenimento sobrevive de polêmicas para manter artistas em evidência. Embora seja impossível confirmar tal suposição, isso não deslegitima a sua importância para a questão do emponderamento negro da sociedade, sobretudo na brasileira, onde falar de racismo, suas implicações e lacunas sociais, ainda é um tema nebuloso. Por isso, quando um artista do porte de Beyoncé trata com alteridade essa temática, ela nos repassa a seguinte mensagem: “Ei, você? Você que sempre curtiu minhas músicas. Você que adora a minha voz. Repete as minhas coreografias em casa. Você que copiou o meu penteado. Gostou das roupas que uso. Você que me viu em preto e branco cantando “Single Ladies”, ou cinzenta em “Halo”. Você sabia que eu sou negra?” E outra pergunta se impõe após isso: o que mais importa para a sociedade é ter alguém talentoso e com potencial para fazer uma carreira brilhante ou saber qual é a casta social desfavorecida que esse artista faz parte, defende ou pretende defender, e se isso interfere negativamente na qualidade de sua arte? Na crônica de Martha Medeiros, há outra frase pertinente a esse contexto: “É proibido tocar no sagrado de cada um”.

Porém, Beyoncé preferiu cometer o sacrilégio de tocar no proibido. A subversão aqui foi deixar claro para todo o planeta a necessidade de se enxergar a minoria dentro de si e no outrem também. O sentimento de alteridade que falta em muitos na sociedade, americana e brasileira. Por essa razão, Formation toca na necessidade das pessoas de se enxergarem como negros, independentemente da cor ou textura do cabelo, de classe social ou religião, já que há negros que não se veem parte integrantes desse nicho. Se isso veio à tona, é porque infelizmente há lacunas a serem preenchidas por uma sociedade claramente embranquecida pela mídia e, principalmente, pela indústria da moda. Além disso, o negro não encontra espaço para difundir sua ancestralidade religiosa, sem que não haja alguém disposto a caracterizar seus cultos afrodescendentes como satânicos. A demonização de suas tradições serve mais uma vez para obscurecer a presença desse grupo na sociedade. Tolera-se, apenas, aquele negro adequado ao sistema vigente, que não invade espaços já delimitados pela soberania branca, a qual mesmo silenciosa, dita suas regras. O que Beyoncé fez, semelhante a tantos outros negros, foi cruzar a linha amarela, aquela que proibia o avanço da comunicação, do diálogo para lá de pertinente sobre quem é privilegiado socialmente e quem não é. Aliás, discussão deveras adiada, pois não há um esforço coletivo para entender a realidade do negro no mundo.

Baseado nisso, a música em voga incomodou muita gente, porque não economizou discurso para retratar algo que já era conhecido por muitos, o racismo. Preconceito que excluí, escraviza e mata, mesmo após as leis abolicionistas terem sido sancionadas ao redor do globo. A canção de Beyoncé foi criticada por autoridades americanas, por atacar claramente a polícia de lá; fãs deixaram de ser fãs após a divulgação do vídeo clipe Formation; essas entre outras censuras foram direcionadas a tal artista apenas porque ela usou sua imagem para fazer um levante, mais que emergencial, a favor de um grupo aplaudido pela sua arte, porém vaiado, ou no caso dela boicotado, todas as vezes que a sua cor, herança e tradições são violados. Esse antagonismo evidente só ressurge quando a defesa do ponto de vista é clara, contundente e irrefutável. Porém, nem todos os artistas/celebridades utilizam da sua imagem em prol de lutas como essas, temendo perderem os créditos conquistados ao longo de suas carreiras. O nosso internacionalmente famoso Neymar é um exemplo disso. Recentemente, o jogador afirmou que não se considerava negro e, por isso, talvez acredite ser imune aos preconceitos que vitimizam tal grupo. Pelé, outra celebridade da bola, também fez um discurso semelhante anos atrás, porém, em ambos a repercussão negativa não chegou nem de longe ao que Beyoncé vem sofrendo.

Esse é um dos lados perversos do racismo: introjetar a ideia de que não se autodenominar negro vai minimizar o preconceito entre as pessoas. É a tentativa mais ingênua daqueles que, entre lutar pelas causas de um movimento, preferem a falsa ideia de que não fazer parte dele. Essa ausência de senso militante não se restringe ao segmento negro. Muitas mulheres, eivadas de um machismo social, atacam outras vítimas da cultura do estupro, do raso debate entorno do aborto ou da postura sexual de mulheres mais resolvidas. Muitos gays, pressionados pelo mesmo machismo, preferem segregar outros homossexuais mais afeminados, travestis, transexuais, acreditando que o ideal é não parecer gay. Da mesma forma, há negros, e muitos, contrários às cotas raciais, geralmente repetindo as mesmas retóricas brancas sem uma análise aprofundada da condição negra na sociedade; são também preconceituosos com a religião/cultura/tradições desse grupo e, infelizmente, muitos nem se veem como negros, mesmo que estes sejam tão visivelmente afrodescendentes quanto Neymar e Pelé. A mensagem da música Formation trouxe a esse contexto a necessidade dos indivíduos se verem como minorias e nem por isso se anularem.

Foi o que Viola Davis, ao discursar no Emmy 2015, fez: não se anular diante do racismo, refletir sobre ele num espaço nitidamente segregacionista (Hollywood) e mesmo assim permanecer firme diante dos seus ideais. Além dela, Mather Luther King, Nelson Mandela, Harriet Tubman, Castro Alves, e agora Beyoncé, guardadas as devidas proporções, deram suas caras a tapa para a sociedade, ao dialogar a respeito desse tema, inquietando aqueles que praticam a política da boa vizinha, da qual o negro pode existir, só não pode se manifestar a favor dos seus direitos. Felizmente, há sempre alguém que resgata esse tema sempre que a problemática racial ressurge para deixar claro o quanto tal preconceito é latente no seio das relações sociais. Geralmente, ele se manifesta em ações contributivas ao senso comum do qual o negro é excluído, vitimado e marginalizado. Poucos são, e foram, as manifestações em prol de um levante, que alheio ao espetáculo da indústria de consumo, fosse capaz de capitular um debate maduro, producente, sobre as demandas vividas pelos negros. Talvez tenha sido essa a atitude da diva Pop Beyoncé: trazer à luz as cicatrizes negras, herdadas da escravidão, que são maquiadas pelo conformismo, pela conduta apolítica da sociedade, pela falta de conhecimento e reconhecimento de causa, ou ainda a ausência de um discurso de alteridade, este que possivelmente foi o elemento incendiário da polêmica envolta no descoberta cômica da cor daquela cantora.

“Todas as relações do mundo possuem sua prateleira de cristais”, enfatiza Martha Medeiros. Pelo visto, Beyoncé estilhaçou a dela ao servir de espelho para um grupo ainda esquecido, hostilizado, que vive à margem social, tendo toda a sua carga antropológica obscurecida por um sistema discriminatório quanto aqueles que devem ou não existir. A música dela mexeu com as raízes do preconceito desse tema, que parece superado, mas revive nas práticas sociais mais cotidianas. Por isso que alguns opositores classificaram a canção como de péssima qualidade, tanto na melodia e, sobretudo na letra. “Palavras incomodam o suficiente”, é uma das passagens da crônica de Medeiros. Certamente, o discurso de Formation se enquadra nisso, porque é mais fácil para quem discorda da música desqualificar a sua letra, do que analisar as metáforas dela e sua representatividade em uma porção social considerável nitidamente mal representada. E o incomodo resultou em mais debate, mais reflexão, mas também em muita mais preconceito, perseguição e, no caso de cantora, até boicote. Analisando tais polos, é inegável os pontos positivos em torno dessa polêmica, sobretudo a sátira feita na internet num vídeo bem extrovertido, mas crítico, do qual ironiza inteligentemente a descoberta do mundo, da real cor de Beyoncé. A cantora negra de cabelos loiros parece não se abalar com as críticas que recebeu. Isso é bom, pois não se deve titubear quando se defende um ideal. Pelo contrário, ideais precisam ser herdados, copiados, perpetuados, principalmente quando se referem a lutas justas, pendentes na história e aparentemente insolucionáveis.

”Beyoncé, não pode tocar nesse assunto!”. Essa também foi a mensagem implícita proferida por aqueles contrários ao discurso da música Formation. Porém, a diva americana ultrapassou a linha amarela, saiu da sua zona de conforto, ousou, transgrediu, subverteu, tudo isso numa era onde a minoria só é vista na invisibilidade. No período do conformismo tolerável, que determina a ordem das coisas, assim como a posição de todos nas camadas sociais, o permitível é não ser. Empreende-se disso todas aquelas pessoas anuladas pelo sistema, obrigadas a se adequar a realidade hegemônica da sociedade, para fazer parte desta sem muita barulho, uma vez que o emudecimento do indivíduo garante aos poderes supremos (mídia, política, religião, etc.) o controle sobre ele. Disso, entende-se que a mais nova polêmica racial jogou luz ao obscurantismo em torno desse tema, semelhante ao que aconteceu por aqui com personalidades brasileiras como Taís Araújo, Lázaro Ramos e a Apresentadora do Tempo, Maria Júlia Coutinho (Majú). A cada novo caso, embora aja muita boçalidade e falta de empatia, há grandes avanços para a formação de uma sociedade, que se não seja capaz de eliminar os próprios preconceitos, que pelo menos seja capaz de reconhecer a existência deles e encontre artifícios para corrigi-los. Em contrapartida, para que isso ocorra, novas personalidades devem copiar o exemplo de Beyoncé, Jean Willys, Doroth Stang, Chico Mendes, e dentre outros, anônimos e notáveis, os quais dedicam as suas vidas, direta ou indiretamente para violar o inviolável, transpor o intransponível, desconstruir para reconstruir uma sociedade onde todos possam enxergar sua existência e, a partir disso, a do outro.


“Só não vê o que o outro é, quando o que não se vê é aquilo que não se deseja para si”.

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